Para amenizar a angústia da separação, as mentirinhas estão liberadas.

“Ei, amiguinho, você aí do primeiro dia de aula! Sua mãe falou que volta rapidinho, né? Maior caô. Ela vai demorar!”

Se nossos filhos fossem maduros aos 3 anos de idade, esta seria uma conversa potencialmente normal numa sala de maternal.

A gente lê mil coisas sobre a adaptação escolar, se diz estar suuuper preparada. Chegamos na escolinha com filho, mochila, lancheira e brinquedo, firmes e intrépidas, sabendo o roteiro todo de cor, como se aquele fosse nosso 9º filho. Segurança é nosso sobrenome. Passo firme, peito cheio, super-mãe ativar.

“Tchau, filho, fica aí com a tia um pouquinho que a mamãe já vem.”

O bico da criança cresce na mesma proporção que seu castelo começa a desmoronar. São quatro olhos cheios de água e um nariz crescendo.

Mas tem aquela mãe que jura só dizer a verdade para a criança, que não omite, que ela precisa saber a real das coisas. Pois bem, será que essa mãe vai dizer ao filho “Ó, fica aí, que a mãe precisa trabalhar, cuidar da casa, ganhar uma grana para comprar batom, livro, complemento alimentar, brinquedos e fraldas. Queria muito passar o dia com você, mas eu tenho que cuidar de mim, da minha carreira/casa e dar uma esfriada nessa coisa de maternidade que exige demais da gente, tá?”

Na real, ninguém  vai falar isso para o filho, nem para ninguém, se bobear, não assume nem para si mesma. Deixar filho na escola, para muitas mães, é como assinar o atestado de eu não sirvo para ser mãe 24 horas por dia.

Mas agora já era. Nasceu, e você será mãe para sempre, o tempo todo, independentemente de seu filho frequentar escola. Mãe não é ofício, é estado de espírito. Você pode ser advogada, professora, dona de casa, administradora, mas será mãe 24 horas. É o tal do trabalho de mãe em tempo integral.

E mãe mente, né? Elas dizem que é feio mentir, mas fazem isso o tempo todo. Não pela maldade, mas para simplificar esse mundo adulto que é muito complicado.

Tipo quando deixamos o filho na escola e dizemos que já vamos voltar. Ainda na porta da escola, na frente das outras mães, damos um tchau firme e seguro, mesmo com a criança chorando e berrando por nós. A porta da escola se fecha, mas continuamos sorrindo para as outras colegas de batalha, como se nada no mundo nos abalasse de tanta firmeza. Dá vontade de mandar beijinho no ombro e soltar um “chora, recalcada” na porta na escola. A calçada chega a tremer com sua pisada forte.

Mas daí vamos chegando no carro, e, lentamente, o castelinho vai desmoronando, a intrepidez vai dando lugar à insegurança, à nulidade. Abrimos a porta, e é como se entrássemos na sombra, onde os medos e as angústias andam livremente. “Será que meu filho vai continuar chorando o dia todo? Será que a professora terá paciência com ele? E se judiarem dele? E se a comida estiver intoxicada? E se ele cair e ninguém ver?”

Fechamos a porta do carro e… Ah! Vocês sabem bem o que acontece!

Só vocês. As outras mães da escolinha, as tias e meu filho – sobretudo meu filho – não podem saber que desabei. Para eles, eu ainda sou a Mulher-Maravilha-de-Oito-Braços, ainda que me custe um nariz avantajado.

 mentira-de-mãe

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