ampulheta

A paciência com os filhos não é uma virtude que os pais devam cultivar

Para educar um filho é preciso muita paciência, dizem por aí.

Tudo começa na gestação: são 40 semanas esperando. E não há nada que se possa fazer, exceto agendar uma cesárea. Gestando aprendemos a ter paciência com filhos.

Então o bebê vem ao mundo e dá-se início a uma série de exercícios para esse músculo chamado paciência. Noites em claro, choro incessante, palpites não solicitados, hormônios, hormônios, hormônios. Trabalhamos esta musculatura paciental com um vigor nunca antes adquirido. Mas a amiga com mais experiência insiste que tudo tende a piorar. Cólicas, dentes, viroses, picos de crescimento.

Nossos bebês se tornam crianças e descobrem que esse tal músculo da paciência é o calcanhar de aquiles de mães e pais. Testam o limite de contração e alongamento de cada uma de suas fibras.

Aí não! Aí não! Aí não!

Senta e come! Senta e come! Senta e come!

Deita e dorme! Deita e dorme! Deita e dorme!

Hora de levantar! Hora de levantar! Hora de levantar!

Para com isso! Para com isso! Para com isso!

E assim seguimos orando antes de dormir pedindo que sejamos pais mais pacientes.

Precisamos educar nossas crianças, criar condições para que nossos filhos se desenvolvam com segurança e saúde. É preciso impor limites, delimitar regras, criar hábitos, adequar comportamentos.

Nesse caso, não vejo a paciência como grande aliada.

Ser paciente é ter a virtude de saber esperar, é o se conformar, é o resignar-se.

Se formos ter paciência com filhos e esperar uma mudança ou aceitar o comportamento de nossos filhos, muito provavelmente perdemos nossos bens mais valiosos lá pela adolescência. Nem tanto perder no sentido físico, mas deixaremos de ter uma relação de confiança e respeito entre pais e filhos, o que poderá abalar o relacionamento de toda uma árvore genealógica.

Educar exige bem mais que paciência. Para educar é preciso revolta, é preciso não baixar a cabeça para o acaso.

Não dá para eu esperar a fase passar.

Não dá para eu esperar ele crescer um pouco.

Não dá para eu ser paciente.

É de pequeno que se torce o pepino, e a infância acaba em 156 meses.

Crises de birra, mau comportamento, filhos respondões precisam de pais obstinados, que não se prostam aguardando a infância passar.

É preciso paciência, sim, no sentido de serenidade, mas não de passividade.

A paciência no sentido de suportar e esperar deve vir de nossos filhos. Eles é que devem receber a ação de todos os verbos.

A nós, pais, cabe a tenacidade, o vigor, a atividade.

Não precisamos de paciência para educar.