cordão

Sair de casa sem os filhos parece simples, mas é preciso cortar o cordão umbilical primeiro.

Se você acha que você e seu filho são duas pessoas diferentes, é porque ainda não passou por alguma separação. A gente acha que o médico cortou o cordão umbilical na maternidade. A gente viu e cuidou daquele coto. Mas ele estava ali, invisivelmente preso a você, sem você notar. E é na primeira vez em que a gente precisa sair e deixar o filho com alguém que o cordão é de fato cortado.

Primeiro bate um desespero de que quem vai ficar com a criança, mas o negócio sempre sobra para a vó. Depois você arruma a malinha com 7 trocas de roupa, meio pacote de fraldas, 3 frascos de leite materno congelado, uma lata de leite artificial, 5 mamadeiras esterelizadas, brinquedinhos, antitérmico, um cobertor, outro cobertor, porque vai que o bebê dá uma golfada naquele. Carrinho, bebê-conforto. Será que é bom levar uma banheira? Em todos os casos, põe uma piscina inflável dobrada no fundo da mala. Pronto! Agora você já pode ir ao mercado tranquila.

Daí vem a hora crucial: a do tchau. Tem gente que sai de fininho para o bebê não perceber. Tem gente que se despede como se fosse ir para uma guerra estrelar. Em qualquer um dos casos, a mãe vai para o carro e chora, copiosamente, se sentindo a pior pessoa do mundo. Aquela que abandona o filho ao relento, ao lado de um cão sarnento, num dia de chuva. Ainda que o bebê esteja no quentinho do colo da vovó, aquela que tem o maior prazer em cuidar do bebê e relembrar as delícias da maternidade, e poder fazer tudo de novo, só que do jeito certo. Mas a gente se acha um ser malígno por estar se separando – por algumas horas – da crias.

E cortar esse cordão dói. Lá no fundo do coração dá uma pontada. Que cresce e vira um medo da porra de morrer no caminho entre o mercado e a casa da sogra, de ter um ataque terrorista na seção dos enlatados, de um tsunami engolir a cidade que está a 2 mil metros acima do nível do mar. Medo da criança cair, se machucar, de ter uma desidratação de tanto chorar. Tal medo transforma a cabeça de mãe no lugar onde as piores catástrofes acontecem. E  só depois de umas dez ou doze saídas você se acostuma com a sensação. Ou não.

Dizem que mesmo depois de muito tempo de ter cortado o cordão, a sensação de sair sem filhos é a mesma de quando se está esquecendo de por o relógio, o batom, o perfume, a calcinha. É estranho, é desconfortável. Tanto que você olha umas trocentas vezes para a cadeirinha para ter certeza de que não está esquecendo o bebê no carro.

Muitas vezes a separação é inevitável, porque a mãe precisa ir trabalhar. E ela chora escondida no banheiro da firma, ela liga de cinco em cinco minutos para quem cuida do bebê para saber se está tudo bem, ela deixa a câmera da escolinha ligada o tempo todo num cantinho da tela do computador.

O cordão umbilical é um troço mais psicológico do que físico! Ouso a dizer que a física quântica deveria estudá-lo: ele foi cortado, cicatrizado, não está mais lá. Só que não! Ele está lá, firme e forte, num outro plano, numa outra dimensão.

Mas o tempo passa, e a nossa necessidade de querer ser uma pessoa normal além de mãe 24 horas por dia vai aumentando. E a gente vai dando um jeito de deixar as crianças com alguém para poder zerar a paciência, para poder escutar nossas músicas favoritas, para se cuidar, para poder saborear um tabletinho de chocolate vagarosamente. E é justamente naquela fase em que você está pronta para esses momentos de despedidas que a criança passa a não querer desgrudar da mãe.

Se a mãe tenta ir ao banheiro sozinha, já é um chororô sem fim, imagine só se ela se arrisca a sair de casa sem levar o filho junto? E mesmo que você tenha feito todo um trabalho de se despedir da criança desde que ela era bebê, de dizer a verdade, de explicar a ela tudo que estava acontecendo, o que mamãe iria fazer e quando ela iria voltar, não tem jeito. Nessa fase em que os pequenos se esgoelam na despedida, é preciso contar umas mentirinhas, sair de fininho e deixar a vovó agir com seus doces proibidos.

Você se prepara para um noite com os amigos, para namorar com o marido, para descontrair um pouco. E, na hora do tchau, o pequeno ser tem uma crise a qual carinhosamente chamo de “crise do não rompimento psicoumbilical”. Você explica, dá beijo, abraço, convence, promete presente, mas a cria quer ir junto, quer que você fique, não quer se separar.

Se você vai passar uns dias fora, só volta no dia seguinte para buscá-lo, ou ainda que volte em poucas horas, o melhor a fazer é passar por cima daquela regrinha de não mentir.

“Mamãe vem já, é rapidinho. Dois minutinhos e eu já volto!”

E você sai, com aquela pontadinha no coração, sabendo que vai ficar com medo, sabendo que vai chorar escondido. Mas a sensação de você poder encontrar sua essência, de desbaratinar por uns instantes, faz qualquer ida ao mercado sozinha te dar a sensação de ter ido a um SPA por sete dias.

“Filhinho, a mamãe já volta, e vai querer te encher de beijos, abraços, mordidas e cheiros. Mas tanto, tanto, que você vai querer que ela saia de novo.”