COZINHA

Tudo começou há 15 dias, quando minha faxineira secretária do lar resolveu lavar as roupas sem minha permissão e manchou algumas peças de roupas. Chamar a atenção dela não ia tirar as estampas vermelhas não desejadas nas peças. Relevei, porque o filho dela ia se casar, e ela estava toda nervosa. Para o evento fez lifting e maquiagem de palhaço definitiva. Sinal de que não precisava de aumento, né?

Depois foi o episódio da prateleira.

Estava eu passando roupa e tuitando – porque eu consigo fazer duas coisas ao mesmo tempo –, quando um estrondo quebrou o silêncio da casa.

– Tá tudo bem, fulana?

Encontro a figura emudecida em cima da escadinha, tremendo como se estivesse no vibracall, e minha cozinha destruída por um terremoto. A prateleira no chão, toda torta, um vidro de escabeche (onde o peixe estava mergulhado em quase 3 litros de azeite) estatelado no chão, minha panela de arroz tão querida despedaçada, meu grill e minha máquina de pão jogados, e o tesouro do filho (que ele fez com o pai na escola e encheu de balinhas, a fim de ganhar quando fizesse X número 2 no lugar certo) esgualepado no meio daquele azeite.

escabeche

Pense num vidro desses quebrado no chão de sua cozinha: azeite, sardinha e muita dó no coração.

Eu ia tirar uma foto e dividir com quem acompanhou o momento via twitter, mas acabei tendo que acalmar meu pequeno que chorava ao ver o tesourinho destruído. Foi a primeira perda dele. Chorei junto, só que de raiva.

Disse a faxineira que a prateleira caiu sozinha. E vai me dizer que você nunca viu prateleiras suicidas, que se arremessam longe das buchas que a prendem na parede? Num ato súbito de rebeldia, jogam tudo no chão e se cansam da vida de prateleirar?

Segundo ela, foi assim que aconteceu.

Meu marido (que quase surtou ao saber que não ia provar o escabeche que ele fez com os amigos com tanto carinho) perguntou o que ela achava justo. Os dois resolveram civilizadamente dividir o prejuízo. Ela pagaria em prestações, mas no fim das contas saiu sem querer a diária.

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Domingo, final de tarde, rolava um churrasco em casa para amigos e familiares, estava chovendo e frio. Tinha brigadeiro, uma criança, muita cerveja e alguns homens sem mira (se encontrarem um homem que a tenha, publiquem!!!). Enfim, eu praticava o desapego à ordem e ao asseio doméstico. Toca o telefone:

– Tô ligando para dizer que eu não vou mais na sua casa… Não tem mais clima!

Pausa para o Rivotril.

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Tudo bem que ela só vinha uma vez por semana, mas, né!? Agora vou ter que vestir o avental, estragar as unhas e me entregar à felicidade da faxina. Pelo menos ela ligou avisando. E eu nem me abalei muito, pois eu já estava meio p… da vida com ela.

Porque atrás de um blog atualizado existe uma pia cheia de louça para lavar.