lixo

No melhor estilo “Um dia de fúria”, disse que ia jogar os brinquedos no lixo. A reação das crianças me surpreendeu.

Era um dia daqueles em que a gente acorda com a pá virada. Daqueles que coincide com o dia em que as crianças não tiraram o cochilo da tarde, mesmo tendo acordado cedo. Que nem respirando no saquinho, fazendo yoga, meditando e comendo maracujá com melissa a coisa flui.

Depois de ter limpado casa, feito comida, limpado tudo de novo, vejo a sala virada, como se um furacão tivesse passado ali. Alerto para rolar uma arrumação e sou sumariamente ignorada, como se eu vivesse num outro plano. Tento mais uma vez, num tom mais ríspido, e só ouço briguinhas e disputas, cada um querendo a atenção para si. Foi aí que a monja budista chegou a mamãe perdeu a compostura, e se esqueceu de todos os conselhos.

Minha cara quando meus filhos me ignoram

Minha cara quando meus filhos me ignoram

Querendo ser ouvida, eu gritei. Mas já era tarde. Era mais grito de desabafo, de a bomba explodiu. Mas que na verdade, olhando de fora, devia se assemelhar a um grito de uma criança birrenta, cansada, querendo colo.

Chega! – gritou a doida com um saco de lixo na mão, catando tudo o que via pela frente.

Enchi três ou mais sacos de brinquedos, jogos e outras quinquilharias que causam a diversão das crianças, pensando em dar uma lição de moral sobre a organização. Estarrecidos, os dois se sentaram no sofá, meio com cara de choro, meio assustados. E não demorou muito até uma mãozinha alcançar o saco querendo ajudar.

Coloquei os sacos para fora de casa, e nem uma lágrima caiu dos olhinhos. Como assim? – eu pensei, quase frustrada.

lixo

As crianças não têm condições cognitivas de entender o quanto de tempo e dinheiro foi gasto para que aqueles brinquedos pudessem estar ali. E se eles estavam saindo, não era de tanto mal, pois logo chegam novos para se brincar. Os brinquedos saíram, e parece que levaram com eles o peso das desculpas para não se brincar.

Minutos depois ouço uma falação. Eram os dois, cada no seu mundinho, brincando com uma pelúcia e um carrinho que haviam restado em algum canto. Não interferi, nem briguei. Apenas observei. Havia brincadeira ali.

Com tanto brinquedo, as crianças não tinham espaço para brincar.

O excesso de brinquedos levou-os à dispersão. Iam atrás de um objeto para complementar a brincadeira e se distraiam com outras coisas, disputavam miudezas… E olha que quem me disse isso foi meu filho, depois de uma conversa. Por isso me ajudaram a por tudo no saco: eles não estavam conseguindo brincar naquela bagunça, e também não sabiam como se livrar daquela situação. A mamãe, querendo causar, ameaçando jogar tudo no lixo, foi surpreendida pela maturidade das crianças.

Com pouco, puderam brincar, enfim. O que lhes faltava não era organização de brinquedos, mas espaço para a livre brincadeira.

E eu, a louca que enfiou os brinquedos no lixo, fui brincar junto para desbaratinar.

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