O que as escolas precisam mudar nessa volta às aulas presenciais

Um ano e meio se passou desde que a pandemia suspendeu a volta às aulas presenciais de todo o País. Enlouquecemos entre o não ter aula alguma e as aulas remotas. E quando eu digo enlouquecemos, falo com conhecimento de causa das duas pontas: como mãe e como professora. Agora que a volta às aulas presenciais foi autorizada, é preciso repensar muitas coisas no contexto educacional visando acolher as crianças, resgatar os que se desmotivaram, garantir segurança e tentar minimizar as efeitos da desigualdade social ao máximo.

Não existe escola perfeita e educar não é tarefa unilateral. A gente sabe que para se criar uma criança é preciso a união da família, da escola e da sociedade. Tem um ditado africano muito popular que fala exatamente isso: É preciso uma aldeia toda para se educar uma criança. Mas ultimamente o que tenho visto é o delegar das funções. Cada um tem seu papel, é cobrado por isso, mas as partes não se falam: escola e família não possuem um espaço de diálogo, a sociedade finge que não é com ela, e quem sai perdendo são os jovens e as crianças.

A primeira coisa que essa pandemia nos mostrou foi como é importante essa união da família e da escola. Quando houve esse diálogo, as crianças puderam ter um melhor proveito – seja com aula remota, seja num acolhimento psicossocial a distância. Onde esse laço não pode ser mantido ou construído, houve o abandono escolar, a falta de motivação, a exaustão dos docentes. A lição ficou, resta a nós mantermos esse laço de comunicação que tanto nos auxiliou enquanto estivemos distantes.

Outro aspecto que as escolas precisam mudar, e as famílias precisam aceitar é que o espaço da escola precisa se ampliar. Tanto o espaço físico quanto o espaço invisível onde moram as relações entre as pessoas. Eu fico muito decepcionada quando penso que a educação evoluiu muito pouco nas últimas décadas. Basta você pensar que um professor que deu aula nos anos 50 teria pouca dificuldade em trabalhar agora no século XXI. Uma dificuldade em criar apresentações ou acessar um link talvez, mas nada que impeça seu trabalho. Agora pense no aluno dos anos 50 e nos alunos de hoje: quais os interesses, o que eles fazem, do que eles gostam? Será que o perfil mudou?

“Os espaços de aprender, a relação entre escola e família e a autonomia dos alunos precisam mudar se quisermos consertar de fato os buracos que essa pandemia deixou na educação.”

O espaço escolar, obviamente, terá que mudar: a garrafinha dá lugar ao bebedor, as idas as banheiros e a higiene serão mais constantes, as salas precisam estar mais arejadas e espaçosas. Isso é utópico na maioria dos casos das escolas públicas, principalmente. Entretanto é preciso se repensar a sala de aula: o que é um espaço de aprendizagem? A quadra, o pátio, o parque, o corredor são espaços de aprendizagem? Nós, professores, queremos que os alunos registrem o aprendizado o tempo todo, mas será que precisamos de registros em apostilas e cadernos? Podemos usar lápis ou podemos riscar na terra, escrever com água? A gente precisa sair da nossa zona de conforto da sala de aula.

A escola também precisa entender que o professor necessita aprender. Precisa promover esse aprendizado. O modelo que nós, professores, temos de educação já não funciona mais. Não precisa ser megatecnológico, ser youtuber ou ter feitos especiais. Mas precisamos aplicar metodologias que valorizem o aprendizado ativo dos alunos e a curadoria de informações. Hoje os alunos sabem muito mais que os professores, mas será que eles sabem usar de fato toda essa informação a que têm acesso?

Assim, as famílias também precisam compreender que o professor não é mais aquele que fica na frente da sala, levantando a voz, fazendo chamada, se mostrando o dono da verdade. O professor, hoje em dia, é um facilitador de aprendizagens. Aquela máxima do ensinar a pescar em vez de dar o peixe faz mais sentido do que nunca! As família devem estar cientes que não haverá mais professor palestrando na sala, mas exigindo pesquisas, reflexões e questionando muito. E isso vai se refletir em casa: nossos filhos estarão mais críticos às nossas posturas. Aquele tal de “porque eu estou mandando você fazer” não cola mais com essa juventude. E isso não tem nada a ver com falta de respeito.

Por fim, algo que espero que esteja diferente com essa volta às aulas presenciais é a autonomia dos alunos. Eles tiveram que se virar sem ajuda de professor, muitas vezes sem nem a ajuda dos pais. E esse se virar pode ter desenvolvido um aspecto que estava bem fragilizado nessa nova geração: a independência. É difícil para um professor com 20, 30 alunos, verificar se todos trocaram a máscara, se lavaram as mãos… Cabe aos adultos ensinar essas crianças a lavarem as mãos com frequência, a cuidarem das máscaras, a fazerem e exigirem o distanciamento. Eles aprendem rápido!

Somos nós adultos que precisamos descer do nosso pedestal da maturidade para aprendermos com as crianças.

As escolas precisam mudar, os professores precisam pensar diferente, a sociedade precisa valorizar os profissionais da educação, os pais precisam estar mais presentes na escola. O dia da volta às aulas presenciais chegou, mas ainda tem muita coisa que precisa mudar se quisermos de fato que este país um dia mude.