virar mãe

Depois de gestar a gente vira mãe, se revira mãe, se contorce mãe.

Mulheres nascem, crescem, se desenvolvem, mestruam, ganham curvas, têm TPM, fazem gracejos, usam e abusam da feminilidade. E daí, um dia, essa mulher vira mãe. Sim, porque mãe a gente “vira”. Ninguém faz curso para ser mãe – embora existam coisas do tipo e muita literatura auto-ajuda (uma antítese)  a respeito. Vira-se mãe, no sentido mais pífio e literal da palavra: virar, como mudar de direção, de posição. Você ia ser uma profissional de destaque, ia fazer cursos no exterior, ia ter um corpo de modelo, ia ser a pessoa mais zen do mundo. Mas você vira e pronto, é mãe.

E ninguém, nem mesmo outras mães, te falaram que o processo de virar mãe é brusco e violento, como uma bofetada no meio da cara sem saber de onde veio. Você está lá, toda tranquila, sonhando seus sonhos de menina, e pum! Acorda na base da porrada e cai de cara no chão. Fica com olheiras, acabada. A maternidade é tão linda!

E daí você vira mãe, você se revira mãe, se contorce mãe. Não basta apenas virar, você tem que dar uma estirada, ir além do limite da sua envergadura. E assim você desenvolve o dom da paciência, do colo de mãe, da intuição de mãe. Virar mãe é quase que realizar uma abdicação monástica em prol do bem-estar da família, com direito a autoflagelo e platéia te apedrejando.

E os homens nos chamam de louca, de descontroladas. E num tom sacástico de romance, eles retribuem nosso suor com um “mas hoje você está virada, hein, amor?”. Oras, estou virada desde que virei! Os homens não viram pai, eles se tornam, se transformam (como lindas borboletas vagarosamente metamorfoseando). Mas a gente não, a gente vira, como Gregor Samsa acorda inseto.

Obviamente, por mais que você se desdobre para fazer o melhor, sua mãe, sua sogra, sua vizinha, a filha da tia da cunhada, a comadre da prima da sua amiga, sim, elas, que também são mulheres, vão comentar que não é assim que se faz, que no tempo delas era diferente, que o delas é bem melhor. 

Mas para quê ajudar a pobre figura que vira mãe. Vamos apontar todos os seus defeitos, dizer onde ela errou, na base da didática depreciativa.

E logo eu, que só queria dar uma virada em minha vida… Virei, e agora não tem mais volta.