carrosMeu nome é Milene, tenho 32 anos e não estou limpa. Comprei um tênis para corrida ontem e hoje vou comprar presente para o chá-de-bebê de uma amiga, e sei que não serei forte o suficiente para não voltar com um mimo para o meu filho.

Sou consumista. Vício assumido. Mas não sou impulsiva, daquelas que se arrepende da compra. Vou arquitetando meus pequenos desejos em listas e, na primeira oportunidade – de momento ou financeira -, vou lá e compro.

Então me deparei com a dialética do ter e do ser.

Vi a caixa de carrinhos do meu filho cheio de Rotchiuis. E ele fazendo uma imensa garagem. Quantas crianças não fazem a mesma garagem com tampinhas, feijões, pedrinhas? Por ser o brinquedo favorito dele e por ser relativamente barato, sempre acamos comprando um no meio do caminho.

Mas ter, não é ser.

Faço questão de sentar com ele e brincar de garagem, de pista, de separar os carrinhos por cor, por tipo (faos *carros*, motos, pitapis *picapes*, taminhões *ok*, coídas *carros de corrida* e fulgões *furgões*). Espalhamos carrinhos pela casa toda, fazemos túnel com caixa de sapato, montanhas de almofada…

Sei que não sou exemplar para meu filho em termos de consumo, mas procuro levar o improviso à brincadeira, busco construir a brincadeira com ele, busco fazê-lo valorizar cada carrinho. Pois quando algum carrinho quebra, vamos juntos consertar. Nem que depois eu me desfaça disfarçadamente do brinquedo por questões de segurança.

Outro dia estava na sala, olhos fixos nas conversas do Twitter.

– Mamãi, diliga isso aí!

– Já vou, filho! Deixa eu responder um negócio.

– Diliga e vem comer o boio! *bolo*

– Bolo?

O filho tinha colocado um monte de carros numa tampa redonda e feito um bolo só para mim! Desliguei na hora. “Comi” um pedaço servido amorosamente por ele.

– Que delícia, filho! Foi você que fez?

– Fooooi! Vâmo tomá suco, mamãi?

Voltei com os copos. Foi um lanche delicioso. Uma lição, de que “ter” não tem o menor valor sem o “ser”.