cloudQuanto mais desamparados nos sentimos, parece que mais sinais buscamos encontrar. Foi o que estava acontecendo comigo. Ver minha filhinha na UTI, cheia de eletrodos, acessos, inchada dava uma agústia sem fim. Maior que isso só a dúvida.

O não saber o que iria acontecer estava acabando comigo e meu marido e, consequentemente, com meu outro filho, que sentia tudo. Aquela ansiedade por querer saber se ela ia melhorar, se teria sequelas, se iria para casa, se sobreviveria ou não, se suportaríamos, estressa demais qualquer ser humano. A carência de respostas acaba nos levando a buscá-la nos acasos do dia-a-dia.

Ir para casa sem ela era um tormento. A impressão que tinha era de que estava abandonando-a. Como ela ficaria? Ela iria melhorar ou piorar durante nossa ausência? Será que o telefone rasgaria o silêncio da madrugada com más notícias?

A cada manhã, ao acordar, agradecia a Deus por nada ter acontecido. Abria a janela e via o sol brilhar. Seria um sinal? Abria a bíblia com uma mensagem. Seria um sinal? A vela que chamuscou parte do armário tamanha a intensidade da chama. Seria um sinal? Crianças sorrindo para a gente na rua. Um movimento dela durante minha prece. O leite que não parava de descer. A  chuva que lavava o fim da tarde. Seriam todos sinais?

A verdade é que a vida é um mistério. Não há respostas, não há sinais.

Pessoas que chegam a hospitais com sintomas irrelevantes morrem de uma hora para outra. Outras, com as mais severas doenças, com os piores prognósticos, sobrevivem bravamente. Por que isso acontece? Médicos melhores que outros? Talvez. Fé mais forte? Creio que não. Destino? É a única resposta plausível.

Aprendi que, antes de chegarmos a esta vida, já conhecemos o caminho a que estamos fadados. Eu sabia, a Alicia sabia. Ela confiou a mim seu pequeno destino, e eu topei estar com ela nesta empreitada. Assim foi, e assim devo seguir a minha sorte. Cheia de perguntas, sem nenhuma resposta.

Numas dessas minhas idas ao hospital, no fim da tarde, expliquei para meu marido o ditado em inglês “every cloud has a silver lining” (toda nuvem tem um contorno prateado). Que mesmo diante das dificuldades, precisamos enxergar o lado positivo das coisas. Como quando a nuvem se põe na frente do sol, ficando com um contorno prata ao seu redor. E mostrei para ele o céu. Ele disse nunca ter prestado atenção naquele efeito tão bonito. Então eu disse para sermos sempre positivos.

E lá estava eu imaginando que aquele céu seria um sinal. Até poderia ser um sinal, mas a interpretação dele me levaria a distintos fins: seria um sinal de sua melhora ou de sua ida a um lugar de paz?

A verdade é que não gosto de borboletas, mas acredito que quando elas cruzam nosso caminho é para trazer boa sorte. Depois que nos despedimos da Alicia no crematório, uma borboleta cruzou nosso caminho.