bibiLembro-me bem da primeira vez que engravidei: apesar de estar nos planos, tomei um baque. Na hora em que vi o exame positivo, me bateu uma tristeza enorme. Eu deixaria de ser a filha, a menina dependente e desprotegida e teria que assumir a identidade de mulher, decidida, responsável por outra vida. Uma dicotomia e tanto para o anúncio de uma gestação: uma vida que chega, um perfil que se vai.

Dois meses depois, um exame de ultrassonografia traz a notícia de que o embrião não se desenvolveu. Além da tristeza da perda, passei a tentar achar os culpados daquela dor. Em vão. Não ter sucesso na primeira gestação é uma coisa muito comum, descobri. Depois da curetagem, aguardei os meses propostos pelo obstetra e logo voltamos àquela saga mensal de tentativas para engravidar. Tensão, angústia, cobrança. Com sete anos de casada, a sensação é de que tinha passado da hora de ter um filho, e nada de ele chegar.

Quase um ano de tentativas e um atraso bem no mês em que eu havia decido fazer uma nova tatuagem. Desta vez aguardamos todas as confirmações (exame de farmácia, de sangue e ultrassom) antes de anunciar que um bebê estava a caminho. Só depois de ouvir aquele tuntuntum, tivemos tranquilidade para contar à família, que também aguardava ansiosa pela notícia. Desta vez, não vivenciei a morte da filha ingênua: eu já tinha assumido o papel de mãe, ainda que não tivesse um filho.

Meu menino nasceu num dia de muita chuva, como quem vem para lavar o caminho e te deixar escrever uma nova história. A moça em início de carreira se foi, e nasceu a mulher que decidiu largar a profissão e ficar em casa (pelo menos nos primeiros anos) para cuidar da família.

Dois anos depois, nascia uma filha, de uma gestação saudável, sem complicações. Nasceu e viveu intensos 15 dias na UTI neonatal. Não conheceu nossa casa, mal conheceu meu colo. Se havia alguma dúvida de que a maternidade transforma as mulheres, essa experiência pode me provar muitas coisas: o quanto sou forte, o quanto me desdobrei, o quanto de fé existe, o quanto a família é importante, o quão amigo seus amigos são. Voltar para casa sem um filho nos braços, garanto, é uma das vivências mais frustrantes.

Quatro meses depois, quando o médico finalmente me liberou para engravidar novamente, eu já aparecia em seu consultório com um exame na mão. Foram 40 semanas de muita tensão e medo, com ajuda de terapia para poder encarar uma maternidade novamente. Não quis fazer enxoval, chá de bebê, não quis saber o sexo, nem sempre acariciava a barriga. O medo de me apegar, criar expectativas e ter uma perda me tornou uma gestante fria. Mas o chorinho de uma bebê saudável afugentou meus monstros, e me transformou numa mãe mais doce, menos controladora.

A bagunça e a agitação social da vida sem filhos não me fizeram falta, pois, para minha fortuna, a maternidade me transformou, e foi nela que me realizei como pessoa. Ser mãe não é tão florido e perfeito como pregam por aí: é estressante, cansativo, por vezes me sinto anulada em função dos filhos, mas cada conquista deles me faz acreditar que ser mãe em tempo integral (embora não curta muito esse termo) foi a melhor escolha que fiz.

Tanto que hoje estou aqui, no auge das 36 semanas da quinta gestação, aguardando mais um filhote. O que há reservado para mim, não sei. Mas acredito que tudo na vida tem uma razão de ser, um propósito. Cada episódio, cada pessoa que cruza nosso caminho nos ensina algo precioso. Às vezes isso passa tão despercebido que deixamos de ver o milagre da vida no dia a dia, em cada passo de nossos filhos, em cada passo nosso ao lado deles.

Minha vida anda, ainda que eu não saiba por quais caminhos, mas tento apreciar a paisagem nessa caminhada.

Amanhã, dia 20/11/2014, a convite da Calçados Bibi, vou estar lá no grupo do Facebook Minha Vida Anda, das 14h às 16h, batendo um papo com outras mamães (e papais) que quiserem dividir suas experiências transformadoras da maternidade. Quero muito encontrar com todos vocês lá!

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