lembraA cada dia que passa vou me restabelecendo. Tem dias em que choro muito, outros em que sequer cai uma lágrima. Momentos em que me sinto uma rocha, outros em que estou mais para um papel de seda.

Com o tempo, parece que aquela dor vai passando. Na verdade, ela vai é se transformando. Como a borboleta. Um bicho sem beleza alguma, por horas asqueroso, que se acalma, se  aquieta, e se torna um ser alado, de cores belas, de encantamento. Já disse aqui que não sou muito apreciadora de borboletas, mas tenho que concordar que elas são um símbolo da transformação, da beleza frágil, da inconstância.

A angústia de ver uma criança sofrer, que deu lugar a um vazio sem fim, agora vai se transformando em cicatriz. Vou secando minhas úlceras, fazendo a dor virar saudade. Continuo amando, e amar dói.

As lembranças que antes eram vivas como o já, agora assumem cada vez mais o papel de passado. Preciso aceitar. A vontade é de voltar no tempo, poder fazer algo diferente, mas, será que isso a traria de volta?

Conforme os dias vão passando, vou ficando com medo. Tenho medo de esquecê-la, de não conseguir visualizar seu rostinho sem antes ver uma foto, medo de não conseguir mais sentir seu cheirinho, medo de não conseguir mais sentir sua pele, seu cabelinho em minhas mãos. Antes, eu fazia um esforço inimaginável para não ter essas recordações tão vivas no meu dia-a-dia, no entanto, agora, é preciso um pouco mais de concentração para tê-los à tona.

Amanhã faz apenas um mês que minha pequena se foi, e a sensação é de que vivi uma década. Sentimentos tão intensos, emoções que pareciam ultrapassar os limites do que o coração pode sentir.

Tudo isso vai se tornando apenas lembrança. E não há máquina fotográfica, filmadora, diário, que consiga registrar momentos tão preciosos. Vou fazendo meu relicário aqui dentro, juntando pedaços. É preciso também curtir a dor da perda para não fazê-la cair no esquecimento.

Imagem saiu daqui.