recipe

 

Sou chegada às modernidades. A tecnologia auxilia e muito a vida de quem cuida de casa.

Mas não consigo entender a vantagem de se ter cadernos de receitas digitalizados.

Certa vez minha mãe pediu para eu digitar os dela. Salvamos num disquete e jogamos a papelada fora. Poucos anos depois o disquete deu pau, o computador deu pau e perdemos as receitas. Salvaram-se poucas, justamente as que eu tinha copiado no meu caderninho, já que tinha acabado de me casar.

Ficou a lição. O caderninho vale mais.

E não me venha com esse negócio de livros de receitas on-line, nos quais se pode selecionar suas receitas favoritas, inserir outras e deixar tudo disponível aos seus seguidores.

Sou chegada à nostalgia. Os caderninhos de receita registram nossa história culinária, nossas influências, nossa família.

 

Sempre tem aquela receita com o apelido da tia-avó: Torta de Morango da Tia Lucinda.

Sempre tem um segredinho, um macete, um pulo do gato que você não copia quando alguém te pede a receita daquele bolo que todo mundo adora.

Sempre tem uma receita rasurada, porque você descobriu o ponto certo.

Sempre tem uma digital de gordura.

Sempre tem uma sujeirinha de massa.

 

Vira e mexe a gente passa o caderninho a limpo. Mantendo os apelidos das receitas, os truques, uma folha seca e um cartão recebido com flores.

Mais do que guardar instruções de pratos, os cadernos de receitas guardam nossa história culinária. Nas páginas, impregnadas de cheiros de infância, vou escrevendo minhas memórias gastronômicas. Enquanto cozinho, vou me lembrando de gente querida e construindo as lembranças que terão de mim.