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Menino brincando com brinquedo de menina e vice-versa: até onde isso é saudável?

É comum as grandes lojas de brinquedos estarem divididas em setores de brinquedos para meninas, onde o rosa impera nas embalagens de bonecas e itens de casinha, e o azul colore as caixas de carrinhos e heróis. A indústria de brinquedos se aproveitou dos estereótipos para criar apelos, e sabemos que isso não é saudável para as crianças. Entretanto, é possível notar certo desconforto de pais e mães ao verem seus filhos se divertindo com brinquedos dirigidos ao sexo oposto. Será quem tem problema nisso?

Desde bebês, nossos filhos se interessam pelos mais variados objetos, independentemente de serem brinquedos ou não. A questão do gênero é algo imposto pela sociedade de modo geral. No princípio a criança não se vê dividida pela cor ou pelo objeto, mas o quanto ele aguça a curiosidade. É o que afirma Maria Ângela Barbato Carneiro, Professora da Faculdade de Educação da PUC de São Paulo, onde coordena o Núcleo de Cultura e Pesquisas do Brincar. Segundo ela, não há uma diferenciação entre brincadeira de menina e menino por parte da criança, já que ela brinca com tudo o que lhe desperta o interesse, e só depois dos 5 anos de idade é que a criança, influenciada pela sociedade em que está inserida, passa classificar os brinquedos e as brincadeiras entre meninos e meninas.

Brincadeira não tem sexo.

Segundo Maria Ângela, menino brincar com coisas de menina e vice-versa não acarreta prejuízo nenhum ao desenvolvimento das crianças. Pelo contrário, já que a criança acaba tendo uma variedade muito maior de brinquedos ao seu dispor. Limitar aos meninos carrinhos, bolas e brinquedos azuis, e às meninas, bonecas, casinhas e brinquedos rosa pode atrapalhar a socialização e o processo de representação (faz-de-conta) dos pequenos. Uma menina que aceite brincar de carrinho com os meninos, por exemplo, têm muito mais possibilidades de brincadeira. Além disso, a fantasia do faz-de-conta permite à criança solucionar alguns problemas que enfrenta no dia a dia, como a dificuldade em lidar com um colega, falta de habilidade em alguma atividade, problemas familiares, já que na brincadeira da representação ela pode errar, ela pode imaginar outro final.

De uma maneira geral, segundo a professora, o menino acaba sofrendo mais que a menina na hora da brincadeira, já que a pressão contra ele é maior: tudo bem se a menina brincar de bola e carrinho, mas os adultos não costumam ver com os mesmos olhos um menino brincando de boneca ou de casinha, ainda que em casa a figura paterna desempenhe funções tidas como femininas.

Essa diferenciação de brinquedo de menino e brinquedo de menina é algo que há tempos está arraigado em nossa sociedade, mas que foi agravada por motivos comerciais pela indústria do brinquedo, segundo a psicóloga Vera Barros de Oliveira. “Nossa sociedade ainda trabalha com padrões limitados de atribuições ao homem e à mulher, e a indústria se aproveita destes padrões para fomentar a compra de determinados brinquedos voltados a crianças de um dado sexo”, diz. A Presidente da Associação Brasileira de Brinquedotecas ainda afirma que a escolha do brinquedo depende do desenvolvimento da criança e do ambiente em que a criança está inserida, logo é fundamental que ela seja totalmente livre, para haver criatividade e autenticidade.

Hoje vemos uma mudança nos valores dentro de casa: mães que são chefes de família, pais mais participativos na rotina do lar. Essa abertura de valores e modos de vida tem se refletido nas brincadeiras, que não se enclausuram mais em comportamentos ditos sexuais estereotipados, segundo Vera Barros.

A curiosidade e o faz de conta são importantes para o desenvolvimento, e restringir as brincadeiras a meninos e meninas pode limitar as descobertas e o desenvolvimento social da criança.

A grande preocupação dos pais é saber até que ponto é saudável a curiosidade de um menino em por exemplo passar batom ou da menina em riscar uma barba no rosto. Maria Ângela aconselha que a observação é o primeiro passo, já que é preciso entender o valor do brinquedo/da brincadeira e o papel da criança naquele contexto. Proibir ou se mostrar incomodado não é o melhor caminho, já que isso pode aguçar ainda mais a curiosidade ou então frustrar a criança. Conversar e mostrar uma nova possibilidade para aquela brincadeira é uma saída. Se o menino mostra curiosidade em se pintar, sugira uma pintura indígena. Agora se o comportamento da criança estiver preocupando os pais, procure conversar com a professora ou  a orientadora da escola. Da mesma forma, Vera Barros salienta que a construção da sexualidade é um processo gradual e supõe um ambiente acolhedor, amoroso e livre de pressões e preconceitos. Preocupações muitas vezes traduzem insegurança por parte dos pais e educadores. Brincar e se expressar livremente só contribuem para um desenvolvimento harmonioso e feliz.

Maria Ângela ainda ressalta a importância de os pais deixarem de valorizar o brinquedo em si, pois todo objeto pode ser transformado em qualquer coisa pela criança. O essencial é a imaginação e a vontade da criança. “A crianças estão ficando sem infância, porque estão sem tempo para brincar. E isso vai acabar gerando adultos mal resolvidos.” Ela ainda enfatiza que ao invés de se preocupar em comprar um brinquedo dirigido ao menino ou à menina, o ideal seria transformar outros objetos em brinquedos, o que é mais interessante para a criança e acaba estimulando a criatividade e o poder de representação da criança.

Minha filha só quer saber de luta e carrinhos. Meu filho quer passar batom e brincar de boneca. E agora?
  • Deixe a criança livre: a brincadeira é um momento de experimentação e descoberta que estimulam o desenvolvimento infantil de um modo global.  As preocupações geralmente refletem a insegurança dos adultos, não das crianças.
  • Observe: sem interferir na brincadeira, veja de que forma a criança brinca, como ela assume seu papel e que valor dá aos objetos da brincadeira.
  • Proponha transformações na brincadeiras de menina e menino de forma que o  adulto consiga ver mais naturalidade na brincadeira, já que é ele que vê nisso um problema: um menino que quer brincar de cozinha, pode ser um chef; a menina com o carrinho é a mamãe que leva os filhos à escola.
  • Não proiba, nem brigue: frustrar e limitar o faz-de-conta da criança pode ser prejudicial ao seu desenvolvimento.
  • Converse com outros familiares e com professores sobre o comportamento da criança. Se ainda sim existir algum incômodo, procurem a ajuda de um psicólogo.

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