lua 

Vivemos num mundo capitalista, num país ainda em desenvolvimento, numa época em que os turcos e judeus comerciantes foram sumariamente substtiuídos pelos genéricos chineses.

Comprar faz parte da rotina. Nada se cria, pouco se transforma, tudo se compra.

Faço de tudo para meu menino dar valor às coisas num mundo tão efêmero. Já falei en passant sobre o assunto aqui. Mas vira e mexe, o diálogo da superfluidade escapa da minha boca.

– A mamãe compra outro para você.

– Acabou? A gente precisa comprar.

– Pede pro papai dáda trazer pra você!

E assim vamos atingindo o limite do débito, jogando uma compra aqui, outra ali no cartão de crédito.

***

A noite caía, céu límpido num tom de azul de abrilhantar o coração dos apaixonados. Ali, na linha que divide o chão e o céu, ela nascia, vultosa, abundante e cheia: a Lua.

Um dedinho se estica, tentando tocar aquela intensidade:

– Cômpa, mamãi, pá mim?

– Comprar o quê, filho? – pergunta uma mãe estupefata.

– A Lua, mamãi, cômpa?

Pego no colo. Um cheiro e um abraço.

– Amor, não se compra a lua.

Menino com cara de “loading”.

– Ela fica no céu e é de quase todo mundo. responde a mãe emocionada com a ingenuidade do pedido.

– De todo mundo? responde o filho, satisfeito com a resposta.

– É! Você ama, filho? Tem amor no seu coração?

– Amo, mamãi, amo você, o dáda, a vovó, o vovô, a tia….

– Então a lua é sua também. A lua é de quem ama!

E um sorriso nasceu naquele horizonte. Encheu a lua de amor. Irradiou luz naquela noite.

 

Post originalmente escrito em setembro/2011