Porque nunca deixei meu filho no andador

Saiba porque o andador infantil pode atrasar o desenvolvimento de seu filho

Os primeiros passos do bebê: algo emocionante. É a conquista da independência. Motivo de orgulho para a família. E, sei lá porque, bebê-modelo é bebê que faz tudo adiantado. “Meu filho engatinhou com 6 meses!”, “Meu bebê falou com essa idade”, “Quando meu filho era desse tamanho, ele já andava”. Temos pressa.

E a vontade de ver o bebê crescendo cega as pessoas a um ponto em que elas se esquecem que existem etapas de aprendizado. Colocar a criança no andador achando que isso estimulará a marcha é a mesma coisa que colocar uma criança de 2 anos para aprender a ler e escrever: a criança pode até aprender algo, mas vai deixar para trás estágios de desenvolvimento cruciais para sua maturação.

Há quem utilize o andador para estimular (?) o bebê a andar, há quem o use apenas para entreter a criança enquanto se dá conta da vida e há também quem o utilize para a criança gastar suas energias, o que a torna mais calma (ou cansada?).

Na minha opinião, e também na de muitos especialistas em desenvolvimento infantil, é que nenhuma das razões acima justifica o potencial risco de uma lesão, visto que o “brinquedinho” é o equipamento para bebês que mais causa acidentes, podendo ser queda, choque contra um móvel derrubando algo sobre si, ou algo mais grave, como cair de escadas ou numa piscina.

Além do risco de queda, o andador parece atrasar o desenvolvimento das crianças depois que elas aprendem a andar, até mesmo atrasando seu desenvolvimento mental, já que essa jornada rumo à marcha trabalha habilidades perceptuais e cognitivas.

O que as pessoas deveriam saber é que os andadores na realidade podem atrasar, eu disse ATRASAR, o desenvolvimento motor dos bebês, o que, consequentemente, pode atrasar o desenvolvimento mental deles.

Isso acontece porque o equipamento permite uma mobilidade ao bebê maior do que sua capacidade natural. Ao engatinhar, a criança aprende sobre desníveis, limites e dimensões de objetos. Ficando muito tempo no andador, ela não assimila bem essas noções: é o aparato que toca os objetos, e não o corpo da criança em si; o andador atinge uma velocidade que naturalmente a criança não conseguiria atingir.

Depois dos 6 meses de idade, os bebês sentem a necessidade de se locomover pelo chão. Por isso mexem pernas e braços vigorosamente, rolam, rastejam, e se enchem de alegria quando conseguem alcançar um brinquedo que estava longe. O próximo passo, então, passa a ser conseguir se manter em pé. Bebês que fazem uso do andador pulam toda essa jornada. Os pés podem adquirir um posicionamento não natural, já que andam pelo chão antes mesmo da criança ser capaz de suportar seu peso sobre as pernas.

Antes de estar pronto para andar, o bebê precisa fortalecer seus músculos, desenvolver a lateralidade, melhorar coordenação motora, desenvolver sua percepção espaço-visual, diminuir a sensibilidade tátil, entre outros aspectos. Pular qualquer uma dessas etapas pode ocasionar dificuldades escolares, já que a aquisição da leitura e da escrita dependem desses fatores.

Numa aula de Aspectos do desenvolvimento neuromotor infantil, um neuropediatra e professor da Faculdade de Medicina do ABC, respondeu sobre a idade ideal para se utilizar o andador: “Lá pelos quinze anos!”. Mais apropriado impossível.

Hoje em dia os andadores são (falsamente) mais seguros, mas ainda não promovem nenhum benefício ao bebê. Vale mais a pena investir numa mesa ou tapete de atividade para entreter a criança: aprendizado mais significativo e sem riscos. Por isso, a Sociedade Brasileira de Pediatria já baniu o uso deste aparelho.

Meus filhos rolaram pelo chão, se sujaram sim, se arrastaram, aliás, tem um ser rastejante aqui do lado. Nem em pensamento cogito a possibilidade de um andandor: se preciso fazer minhas coisas, um tapete no chão com brinquedos basta; se preciso estimular a criança, brinco com ela; se quero acalmá-la, uma massagem, banho e colo são ideais.

Está aí um treco que, na minha opinião, merece ir para a lista de invenções que nunca deveriam ter sido inventadas.