metas de ano novo que não vou cumprir

As metas que a gente planeja e vislumbra para um novo ano são apenas desejos esvaziados – foi o que aprendi com o indigesto ano de 2020.

A desilusão de não poder tocar sonhos adiante me fez encarar o peso de ser quem eu sou. Para isso, foi preciso escutar o próprio silêncio. Foi preciso encontrar esse silêncio numa casa onde habita gente agora 24 horas por dia. Foi preciso encarar o vazio, mas antes de mais nada foi preciso esvaziar-se também.

Abrir mão das metas de ano novo foi como perder um anel no mar. Não foi intencional e não teve como resgatá-lo. A gente simplesmente aprendeu neste ano que não temos o controle de nada. A vida é muito mais complexa que nossa autorrealização.

Viver não é sobreviver. Mas viver também não é uma busca incansável pela felicidade (que nem existe em sua completude). Aprender a viver, tem a mais a ver com o esvaziamento do ser do que seu locupletamento. É limpar e abrir espaço para o novo.

Abrir as janelas e deixar o vento levar os pensamentos, como quem leva folhas secas – e quase sempre algumas folhas ainda verdes. Deixar a água cair e lavar, levar as aspirações pelo ralo. Varrer da memória a poeira do passado, desapegar das coisas que já não me servem mais no armário.

De fato, foi preciso me desfazer por vezes. Como quem rasga a lista de metas em mil pedaços e joga na terra para fazer brotar semente. Deixar o tempo cuidar e decidir quando e se o broto vai germinar.

E se não temos controle sobre o tempo, por que a culpa quando um sonho nos foge das mãos, tal qual um pássaro livre?

O desejo, a vibração, o sonho ainda hão de existir, como adubo para nossas metas. Os planos é que precisam ser menos abstratos.

“Ano que vem vou emagrecer.” Emagrecer quanto? Em quanto tempo? A que custo? Abrindo mão de quê? E se…? E quando…? Não é questão de pessimismo ou de estar sendo analítica demais num simples desejo de ano novo. Mas precisamos levar mais a sério o que queremos, para que nos desviemos dos percalços.

Assim, é preciso destrinchar aquela lista. Linha por linha. Meta por meta. Vai dar trabalho. E talvez nem dê tempo.

Por isso, não vou abrir mão de um ritual que significa tanto. Um ritual de manifestação das vontades, de afirmação de nossos valores. Desta vez nada de lista de livros, filmes, lugares para visitar, coisas para se fazer, ser uma mãe melhor no próximo ano. De ora em diante um item apenas: Cuidar de mim.

De forma que as adversidades e as consequências dessa escolha me tragam apenas crescimento, sem a culpa de eu ter falhado miseravelmente tentando encontrar a felicidade num lugar, num alguém, num quando fora de mim agora.