tantrum

Atire a primeira mamadeira a mãe que nunca deu chilique na vida.

Duvido (leia-se com aquela pausa que só as mães sabem dar: du-vi-do) que até aquelas monjas já devem ter tido seu faniquito.

Não há mulher – em sã consciência ou não – que resista placidamente a um chororô sem razão aparente, a um ataque de birra infantil, em meio ao caos da casa soterrada por brinquedos espalhados, a pia suja de louça, o arroz queimando no fogão e uma pilha de roupas para passar que só cresce.

Na maior parte das vezes driblamos nossa vontade de largar tudo e fugir para o Tibet. Acalmamos nossos filhos, ou deixamos chorar se o motivo do alvoroço for uma manha. Vamos dando um jeito na casa, entre um cochilo de criança e uma brincadeira. Esquecemos nossas necessidades nutricionais diárias em prol de uma casa mais limpa.

Entretanto, existe uma hora que tudo parece conjuminar a favor de nosso piti. Muitas vezes, as coisas vão se acumulando por dias, e a gente vai abafando aquele sentimento de cansaço e tentando bancar a heroína. Daí o copo acha de transbordar na hora em que seu filho, sem querer, derruba um copo de suco de uva na toalha limpinha, ou quando simplesmente a roupa da bonequinha não entra, e sua menina resolve por a boca no mundo como se a culpa fosse sua, ou quando seu marido resolve fazer um comentário sobre o tempero da comida – aquela que foi preparada como uma batalha, entre choros e tropeços em cabeças de bonecos esquecidos em frente à pia.

É como uma panela de pressão: de repente a gente espana e sai girando, fazendo barulho.

Tudo vem à tona. E sai devastando marido, filho, cachorro, peixe, papagaio, como um furacão.

A razão também se evapora, uma vez que, se você ainda não viveu, você ainda vai viver o episódio em que as crianças gritam, e você pede para parar; elas continuam, e você pede mais umas três vezes; até que você brada aquele contraditório “PARA DE GRITAR!”.

Vendo, assim, de fora, chega a ser divertido. Mas, para quem está tendo o faniquito, é um momento de descontrole total, em que você tem a sensação de que está tudo errado.

Mas, como um tornado, nada dura mais do que trinta segundos. A paz retorna ao coraçãozinho da mãe. Ela pede desculpas, ela jura que nunca mais vai explodir.

Ela ajeita os cabelos, e segue na lida diária, como se nada tivesse acontecido.

Atire a primeira roda de carrinho, quem nunca teve receio de ver o conselho tutelar à porta, tamanho o chilique de seu filho. Uma gritaria, um desespero, de como se alguém estivesse a queimar a sola dos pequenos pés com o ferro de passar. Mas na verdade, era só porque você não liberou o biscoito antes do almoço.

E vai dizer você também que nunca julgou aquela mãe no mercado, no shopping. Aquela cujo filho se jogava no chão, se debatia… Lá dentro das suas caraminholas só o “Que mãe sem pulso, sem controle dos filhos!” ecoava em sua cabeça. Acredite, se você não passou por nenhuma birra em locais públicos, tenha fé de que esse dia ainda há de chegar!

E você vai procurar uma vala, uma fresta, uma saco plástico para enfiar sua cara de decepção lá dentro.

Mas você há de respirar, ignorar a cena, como se soubesse de cor a controlar a situação, e soltar uma das maiores mentiras que uma mãe pode dizer. Pois mãe alguma nesse planeta acha seu filho feio, por mais feio que ele seja. O filho da gente é sempre lindo, é sempre fofo. E não é só porque é nosso filho não!

É que no auge do barraco infantil, a gente tem que ajeitar os cabelos, inspirar, por a mão na cintura e dizer:

– “Que menino mais feio!”

Assim, aguardamos o fim do espetáculo e prosseguimos às compras. Como se nada tivesse acontecido, sorrindo aos espectadores. Como se a gente mesmo não desse uns chiliques desses na frente de nossos filhos uma vez ou outra.

 

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