A natureza é sábia: faz a gente se esquecer de todos os incômodos da gravidez em prol da procriação da espécie.

incomodos

A grávida acaricia a barrigona numa casa arejada e clara. Cortinas brancas esvoaçantes revelam um jardim florido onde as crianças brincam. O marido ao lado observa com ares de regozijo aquele momento mágico em que mãe e filhos se conectam afetuosamente, ainda que não tenham se visto. Ah! A gestação: a melhor fase da…

– PÓ PARÁ!

Glamour de gestação é coisa de propaganda de creme hidratante preventivo de estrias!

Quem foi que inventou que a gravidez é linda? Ou era homem ou não era mãe. Ou foi uma premiada da vida que não sofreu com nenhum dos incômodos da gravidez.

Porque nos primeiros meses é só enjoo. Acorda, vomita. Come, vomita. Respira, vomita. E, se não vomita, fica passando mal o dia todo.

Depois vem o sono: o mundo caindo, e você fechando os olhos na primeira escorada na parede. Depois do almoço você jura que não vai aguentar. E nem pensar em tomar café pra dar uma animada. Ainda vem gente e solta a mais infame pérola: “Aproveita para dormir agora”.

E ninguém fala isso por aí, mas as grávidas têm muitos gases proveniente dos hormônios! Gases na gestação é tabu, assunto proibido. Mas basta alguém romper o silêncio do assunto que todas concordam: grávidas peidam e arrotam como seus maridos. É um glamour só!

“No começo é assim mesmo, depois melhora.” Melhora! Melhora porque os enjoos passam. Daí você tem fome. Uma fome que nem leão na savana desértica há 5 dias sem ver um bichinho teria. E se você come, você engorda. Sente culpa e ainda toma bronca do obstetra. Se não come, você fica irritada, no nível mulher de TPM no terceiro dia de regime. Apetite de grávida é coisa difícil de lidar. Além da fome, existem os desejos. Pode ser uma coxinha no meio do dia, um picolé de graviola, um lanche de pernil de porta de estádio em plena segunda-feira de manhã, ou coisas mais simples, como manga com vinagre, feijão com calda de sorvete e tijolo com creme de leite.

Leite… Leite me lembra dos peitos. Lindo, fartos… e doloridos! E se você não cuidar, eles coçam e se enchem de estrias. Você perde to-dos os sutiãs. Tá linda, tá Pamela Anderson – ou Sheyla Hershey –, tá enlouquecendo maridão com seu sutiã bege de alças largas e aquele cheiro de leite.  Nem pense nisso, colega de barriga, minha amiga do peito, mas um dia esse leite todo vai secar…
E assim você sobrevive mais três meses curtindo a magia da gravidez.

Curtindo o desconhecido, como banheiros em que você nunca esteve antes. Porque se tem um lugar que grávida conhece é banheiro: banheiro de casa, de restaurante, de shopping, de rodoviária. Grávida é um ser mijante, que acorda umas sete vezes por noite para esvaziar a bexiga. Você se torce, se contorce, a cada mexida do bebê, você jura que vai deixar escapar o xixi. Corre pro banheiro e… Três míseros pingos! E fique sem tomar líquido que o luxo de uma infecção urinária te pega na hora.

Daí o bebê começa a se mexer. De início você tem dúvida se é isso mesmo ou se são gases. Depois a sensação se firma, se intensifica, e daí é como ter um alien no seu ventre, empurrando sua costela com os pezinhos, apoiando-se sobre seu diafragma e atrapalhando sua respiração, chutando sua bexiga. E se ele não se mexe, é a treva: será que o bebê está vivo, será que está tudo bem?

Último trimestre: você desconhece seu corpo, seus odores, seus limites. Já não consegue por uma meia, cortar as unhas do pé ou conferir a depilação da área do biquini. Você continua com fome, mas agora nada mais cabe em seu estômago, e tudo o que chega nele tem sabor de labareda. Sim, você tem azias constantes. Dizem que são os cabelos do bebê crescendo…

A pele e os cabelos estão lindos. Maravilhosos. Mas duas horas depois do banho já estão tão oleosos quanto os da tia que frita aquele torresmo no buteco.

Deve tudo ser culpa da maldita prisão de ventre, mais um dos incômodos da gestação. É mamão, é ameixa, é chia, é linhaça, é água, é leite de gansa da Mongólia… E não estranhe se a vida lhe presentear com um buquê de hemorroidas: elas são comuns na gestação.

Então, é na fase final da gravidez que você começa a sentir cheia: cheia de vida, de amor e de líquidos. Você incha: mãos que parecem um pãozinho caseiro, pés que não cabem nos sapatos, e tudo o que você consegue calçar é um chinelinho. Aquele nariz de batata que maquiagem nenhuma dá jeito.

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Então você vai dormir, e começa uma epopeia: vira para um lado, vira para o outro. Não há posição. Vira mais. Duas horas depois você consegue estar mais confortável. Vai pegar no sono e… o bebê começa a se mexer! Mais um tempinho e sono vem, vem junto com a vontade de fazer xixi. Volta, dá uma espreguiçada para aliviar a tensão e ganha uma câimbra de brinde. Para quê dormir, não é mesmo?

Você segue para a maternidade: de chinelinho, num andar de pata glamouroso, com um vestidinho estampado – a única peça que lhe parece confortável. Grávida pega birra de roupa, pois passa a gestação toda usando três ou quatro peças que lhe caem melhor e são confortáveis. Depois você queima as peças! Também as olheiras são suas companheiras inseparáveis desde o dia em que aqueles dois risquinhos apareceram.

E apesar de tudo isso, você curte cada instante, cada mudança, cada dia, cada transformação. Pois a maior loucura que a maternidade vai te proporcionar é apagar todas essas coisas ruins da sua memória, e fazer tudo parecer lindo e mágico, para que um dia você diga que teve saudades da gestação e possa colocar mais filhos no mundo.

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Post escrito originalmente aqui.

Alívio para alguns dos incômodos da gravidez aqui.