delivery

Terceirizamos tudo. É fato!

Comemos a comida feita por outros, bebemos o suco feito por outrém, que um outro alguém “deliverou” à nossa porta.

Contratamos personal-tudo: para cuidar da saúde, da alimentação, da beleza, dos cabelos, das roupas, dos bichinhos…

Cuidar da casa, quem quer? Outra pessoa lava, passa, cozinha.

Vai casar? Contrata um organizador de eventos que agiliza tudo para o casal.

Vai fazer compras? O personal shopper compra tudo para você. Sua única diversão é fazer ã-hã.

Vai ter filhos? Além do obstetra, dos exames, agora contamos com pessoas que organizam, escolhem e compram todo o enxoval.

Nascem os filhos, e já temos profissionais que auxiliam na escolha da escola, nos deveres de casa. Aliás, tem que ser uma escola que cuide e eduque nossos filhos, porque a gente mesmo anda sem tempo de fazer isso.

Terceirizamos nossa vida emocional: o desabafo é feito nas terapias, assim como os problemas conjugais e familiares que são resolvidos no consultório, talvez até com a ajudinha de um tarja preta.

Ao mesmo tempo em que essa terceirização denota status e exclusividade, ela também nos deixa mais distantes da vida.

Tudo bem ter uma ajuda com uma coisa ou outra do dia a dia – mesmo porque não podemos ser suficientemente bons em tudo, nem ter vontade de fazer tudo –, mas passar adiante as relações sociais, o envolvimento com o cotidiano, a diacronia de nossas vidas, daí já é demais.

Terceirizamos momentos.

Abrimos mão de nos envolver com as coisas rotineiras, com a desculpa de ter mais tempo livre com a família. No entanto,  a contratação de serviços para tudo nos dá a falsa sensação de termos mais tempo para fazer as coisas.

Oras, cozinhar com a família não seria mais legal do que sentar e pedir uma pizza, vendo TV enquanto ela não chega? Não seria mais empolgante para os noivos ter aquela correria atrás dos preparativos pro casamento? Não é mais interessante sentar e ajudar seu filho com o dever de casa do que pagar um professor particular? Qual a graça de se esperar um filho e deixar um outro alguém escolher roupinhas e lençóis? Onde está a beleza de se aprovar ou recusar a escolha de outrém?

Terceirizamos as experiências de vida em busca de tempo livre e, mesmo assim, temos sempre a desculpa de que faltam horas para tudo.

Porque o tempo, senhores, é aquilo o que fazemos com ele.