sandclock

“Amanhã eu fui na casa da vovó.”

“Mamãe, ontem você me leva no parquinho?”

De banho tomado, pijama e pronto para dormir: “A gente já vai almoçar?”

Meu filhote já tem noção do tempo. Meio em formação, mas já é capaz de sequenciar fatos logicamente. Ainda falta aprender a utilizar os adjuntos adverbiais de maneira adequada e mecânica, sem que nenhum Bechara, Napoleão ou Pasquale tenha que se pronunciar.

Com três anos ele já sabe que a chupeta só pode ser usada quando escurece, que o sol desaparece quando a lua chega, que as manhãs e tardes são claras. Faz contagens regressivas riscando dias no calendário e espera ansioso por festas e dias especiais:

“Só falta mais um!”

Já tinham me alertado da velocidade com que esse senhor tão jovem – o tempo – passa na nossa vida e na dos nossos filhos. O difícil mesmo é encontrar uma lógica na incognoscibilidade das horas.

Três anos que passaram num piscar de olhos. Uma semana de caxumba que demora para sarar. A velocidade em que as crianças perdem roupas, e a morosidade na sala de espera do pediatra. A rapidez com que um tablete de chocolate derrete na boca e a morosidade do gosto amargo do remédio que não sai.

39 semanas que transitaram entre diferentes velocidades: um primeiro trimestre de sono e enjoo que foi bem vagaroso. Seguido de mais dois trimestres que deslancharam com uma brevidade aceitável.

Cinco dias que demorarão um século até o dia de meu rebento mais novo chegar ao mundo. O peso do relógio arrastando os ponteiros para a frente e puxando seus passos para trás. A eternidade que se insere entre o fim daquela pressão no abdômen e o início de um choro.

E a gente ainda acredita que relógios e fotografias podem aprisionar os períodos… Aprisionamos a contagem, as imagens, mas o momento, aquele período que não podemos enxergar, aquele só sentimos passar, esse a gente não segura.

Mestre tempo. Tão determinado, tão relativo.

Tão lógico e métrico, quanto incoerente e anacrônico.