ar.jpg

Dizem que a curiosidade nutre o conhecimento, aguça a criatividade. E não há criatura mais curiosa do que a criança. Começa com as mãozinhas que querem tocar tudo, depois com o “o que é isso?”, segue para os porquês, e não para mais.

– Mamãe, qual a cor do amor?

– Filho, amor não tem cor.

– Não? – com ar de desapontado – E qual a forma do amor?

– Querido, o amor não tem forma também – respondo com dor no coração ao saber que iria decepcioná-lo.

– Não?

Crianças pequenas querem explicação para tudo, e as coisas só lhe fazem sentido quando são concretas. Tentar falar de tempo, sentimentos, abstrações em geral, com os pequenos é como tentar desfazer o mais apertado dos nós. E como lhe falar sobre o amor, se eu mesma só o tinha descoberto verdadeiramente há pouco tempo, no dia de seu nascimento?

– Não, filho. Não tem cor, nem forma. O amor é, assim, uma coisa que está no ar.

– Ah! – com cara de quem entendeu lhufas.

Difícil explicar como uma coisa sem cor, sem forma, sem cheiro, sem gosto poderia existir e ter uma influência tão grande em nossas vidas.

– É assim: o amor é uma coisa que ninguém vê, mas que existe aqui no peito da gente. Fica lá dentro, guardadinho no coração.

Silêncio. Olhos fixos em mim, aguardando o restante da explicação, buscando algum sentido naquele discurso todo.

– O amor é que nem o ar: a gente respira, mas não vê. Respira com a mamãe! – tentando, mais uma vez, ajudá-lo a decifrar aquele enigma.

Inspiramos e expiramos juntos. Como explicar algo inexplicável para uma criança que ainda nem sabe contar, escrever?

– Viu, o ar entra e sai, mas a gente não vê. É como o amor, que entra na gente, e a gente nem percebe.

– O amor é o ar, mamãe?

– É, filho, o amor é o ar que a gente respira.

E respiro aliviada, porque, de alguma forma, ele entendeu o que é o amor.

 


Texto vencedor do segundo lugar no concurso “Meu filho é o ar que eu respiro” promovido pela Universo Tintas.

O primeiro lugar foi para a chorona fofa Ligi, do Pra ti meu filho.