aprender e correr riscos

O episódio do garoto que invadiu a jaula do tigre e teve seu braço dilacerado e amputado me fez recordar deste post escrito por mim em julho de 2010. Quatro anos se passaram, e a atitude dos educadores (pais e responsáveis) tem me deixado cada dia mais perplexa.

Aprender é colocar nosso comodismo em risco.

As lojas de produtos infantis já não se dedicam mais só a roupas, brinquedos e enxoval. Agora vendem um arsenal para a proteção e a higiene dos pequenos.

Esterilizadores de tudo quanto é tipo e tamanho, bactericidas, tapa-tomadas, grades para portas, proteção para quinas, travas para portas, gavetas e tampas, tapetes antiderrapantes, e por aí vão. Aliás, vão bem mais além, já cheguei a ver capacetes, joelheiras e coleiras para crianças.

E assim protegemos nossos pequenos.

Protegemo-os dos perigos, sim, mas também dos obstáculos, das dificuldades, dos limites e dos desafios. Protegemo-os das experiências, dos sentidos.

E assim acabamos por protegê-los da maior propiciadora de conhecimento a qualquer criança: a curiosidade exploratória.

Obviamente a segurança da criança está sempre em primeiro lugar, mas privá-la de tudo já é um grande equívoco. Ao proteger a criança de todos os possíveis perigos, estamos também limitando sua capacidade de aprender sobre riscos e limites. Quantas vezes ouvimos alguém dizer não faça isso, e fomos nós lá experimentar o perigo?

Com a criança é a mesma coisa: ela precisa experimentar o perigo, o tombo, o machucado para aprender até onde ela pode ir. É preciso aprender a dar valor à palavra dos pais. É preciso mexer na terra, rolar no chão, sentir a textura das solas dos sapatos, sentir o gosto da casca da laranja e da batata sem lavar, sentir o cheiro das plantas.

Não quero que caiam das escadas, que coloquem o dedo na tomada, que saiam se ferindo por aí. Não quero que adquiram uma verminose, uma intoxicação alimentar. Aí entra o adulto, para supervisionar estas experiências –  e experimentar junto! Há quanto tempo você não toma um banho de mangueira ou escorrega na escada com uma almofada no bumbum?

Para não haver riscos, a criança precisa entender o sentido do “não” – algo que já pode ser compreendido lá pelo 8º mês de vida. O adulto precisa saber impor o limite, sem castrar as oportunidades de aprendizado. Um protetor aqui, outro ali, tudo bem. O que não pode é enfiar a criança num plástico bolha e não ensinar-lhe sobre limites, disciplinas, perigos e riscos.

Vovó sempre esteve certa ao dizer que criamos nossos filhos para o mundo.

Então, é mais fácil deixar tudo tampado e travado, tudo limpo e esterilizado, é mais simples deixar as crianças presas em seus cercadinhos ou cercadas pela televisão, enquanto cuidamos da correria do dia-a-dia, com os olhos fixos no computador ou no celular.

Precisamos nos arriscar mais para aprender. Digo isso mais sobre os pais…