ballerina

Amamentar é mais que alimentar, mais que afeto. É construção de vínculo e de deliciosas lembranças.

momentos que são tão belos, que, se pudessem ser guardados, já estariam naquela caixinha de boas memórias, num relicário, num porta-joias.

Como o nascimento de um filho, a hora do “pode beijar a noiva”, as primeiras vezes de tantas coisas, pores do sol, abraços de partida.

Nesse meu relicário, sem sombra de dúvida, guardaria a amamentação.

Não exatamente o amamentar em si. O amamentar como alimento, como ato de amor é lugar-comum. Falar aqui de como engrandesce a mulher poder ser uma exclusiva fonte de energia para uma vidinha é chavão. Aquela troca de toques, de cheiros, de olhares, a simbiose é trivial, ainda que não seja banal.

Falo daquele momento em que aninhamos a cria, como se colocássemos-na de volta ao ventre, protegida e restrita aos estímulos daquela hora. Ela abocanha o seio, dá as primeiras sugadinhas.

Daí a mãe sente a descida do leite. E a boca do bebê se enche que quase dá para engasgar.

E é essa fração de tempo que gostaria de materializar e aprisionar: os olhos da criança quase se fecham de satisfação enquanto ela mama, o leite escorre pelo cantinho da boca, a harmonia do respirar e do engolir.

Freud diria que é um prazer inconscientemente sexual de ambas as partes. 

Eu fico mais com a magia do momento, daquilo que se chama deleitar – no mais literal dos sentidos. Deleite, do latim delecto, fala sobre a satisfação plena, o regozijo. Não deriva, nem dá origem a palavra leite. Mas poderia muito bem fazer essas vezes de tão bonito que é.

Mas, agora que a fase da amamentação foi concluída, e que não posso trazer um instante ao plano da matéria, que ele fique aqui registrado, para que refresque minha memória, e eu me deleite com essas reminiscências maternais.