acreditar

Minha família sempre foi religiosa. Minha mãe e seus santinhos, meu pai kardecista, minha irmã teve sua época de mãe-de-santo. Eu mesma passei oito anos estudando num colégio de freiras e cheguei a frequentar um grupo de jovens. Fiz Primeira Comunhão, casei na igreja e batizei meu primeiro filho. Também rezo antes de dormir (vez ou outra, caio no sono antes do Amém!), ensino meu pequeno a rezar o Santo Anjo do Senhor. Fui ensinada a sempre ter fé, seja lá no que.

Mas houve um tempo em que minha fé era na ciência. Acreditava que tudo tinha uma razão lógica, uma explicação técnica. Questionava a existência de Deus, mas ainda rezava e mantinha meu altarzinho em casa. Estava na dúvida mesmo, mas tinha medo de perder totalmente a fé.

Antes de ir para o hospital ter minha bebê, separei um tercinho, uma imagem de Frei Galvão, uma medalhinha de Nossa Senhora de Fátima e a oração da Nossa Senhora do Bom Parto. Fui rezando e pedindo coisas boas. Pedi que meu marido segurasse o tercinho na hora em que estivesse no centro cirúrgico, mesmo sabendo que ele também andava meio cético.

Minha Alicia nasceu, e eu nem me recordo se agradeci a Deus por este milagre. Só me recordo de pedir a Ele a saúde da pequena. E já na minha primeira visita à UTI, coloquei o tercinho com as medalhinhas no meu bolso.

Os dias se passaram, e minha fé em Deus parecia estar aumentando. Todos dias, rezava junto à pequena. Até que resolvi resgatar minha Bíblia (ainda com meu nome e número de chamada da 8ª série!) e um tercinho que ganhei quando me casei. Abri a Bíblia aleatoriamente, li “A morte do filho Davi”. Fiquei assustada.

Depois foi meu marido, que chorava debruçado sobre a janela do hospital, quando um homem, com o nome parecido com seu, o tocou e falou uma porção de coisas que acalmaram seu coração. Deu-lhe um marcador e se apresentou como o pastor da capelania do hospital. Desde então o marcador habita a carteira do marido onde quer que ele vá.

E assim nossa fé começou a ser renovada. Eu passava horas rezando ao lado de minha pequena. Rezava o dia todo. Às vezes me pegava rezando sem saber o porquê, só para me acalmar. Ganhei um paninho benzido da mãe de uma amiga, fiz muitas correntes de oração, fiz promessas, dei uma roupinha da Alicia para ser benzida, passei seu nome para tudo o quanto foi tipo de igreja. Gente que eu não conheço me mandava mensagem via Twitter, Blog, Orkut, dizendo que orava pela saúde dela. Acredito que não importa o caminho, pois todos eles levam a um mesmo lugar.

Um dia, a mãe de um outro bebê na UTI me vendo rezar todos os dias, aconselhou-me a batizar a bebê. Disse que depois que ela batizou o filho, ele teve uma melhora. Coincidência ou não, aceitei a sugestão.

No mesmo dia, minha filha tinha piorado bastante. Fui à igreja e, em prantos, pedi a ajuda de uma das mulheres que ficam por lá. Na mesma hora ela me levou à casa do padre, que me acalmou e disse que iria batizá-la na manhã seguinte. Voltei à igreja e rezei. Chorava de soluçar.

No dia seguinte, acordei, me troquei e fui bater na casa do vizinho. Ele é pastor, a mulher muito fervorosa, os filhos todos com nomes bíblicos. A menina me atendeu de pijama. Pedi para que aquela família que acreditava tanto em Deus orasse pela Alicia. Ganhei um abraço sincero, lágrimas, um evangelho e a certeza de que poderia contar com aquela família.

Mais tarde, o padre batizou minha filha. Uma enfermeira assistiu a tudo, pois estava realizando alguns procedimentos com a pequena. Na hora de rezar, ela parava e rezava junto. Essa mesma moça havia me dito dias antes que todas as noites rezava com filha de 5 anos pedindo por minha Alicia. Antes de ir embora, o padre me abraçou e disse para eu acreditar em Deus e confiar nos planos Dele. Acreditei.

Acreditei em todos os momentos que ela melhoraria. Acreditei e fazia todos acreditarem nisso. Outra enfermeira, no dia em que a pequena iria falecer, me disse: “Não perca as esperanças, pois para Deus nada é impossível”. E ali fiquei, orando, do lado de fora da UTI, aguardando os procedimentos. Até que esta mesma enfermeira me disse para eu ir para casa, descansar e voltar depois.

Naquele momento, conversando com Deus, eu já não sabia mais o que pedir, se para ela ir ou ficar, pois havia muito sofrimento, dela e da família. Não era que eu tinha perdido as esperanças, pelo contrário. Minha fé me fez acreditar piamente naquele tal de “seja feita a vossa vontade”. Na hora do almoço, eu entregava a vida da minha filha nas mãos de Deus.

Tentei descansar, comer, não consegui. Voltei para o hospital. Entrei com o tercinho nas mãos. Subi o elevador rezando. Nunca havia feito isso. Um misto de medo e de paz me acometeram antes de entrar na UTI. O biombo branco impedia minha entrada na sala. “O médico  já vem falar com você”.

Eu já sabia. O médico se sentou e disse ter tentado de tudo. Pedi-lhe sua mão, mas relutante em ser humano naquele momento médico, ele me deu. Eu disse: Ela não resistiu não é?”. Consentindo com a cabeça, o doutor explicou a gravidade em que ela se encontrava e sobre as sequelas que ela poderia vir a ter. Não quis ouvir mais nada. “Vocês fizeram tudo o que podiam, doutor. Obrigada! Mas tem coisas que nem a mais avançada medicina pode fazer. Vocês, médicos e enfermeiros, conhecem remédios, diagnosticam doenças. Mas quem cura, mesmo, é Deus. Ele é quem sabe quem vai e quem fica.”

As enfermeiras vieram me abraçar, outras mães choraram comigo. E eu, inexplicavelmente, senti uma paz. Meu sofrimento havia acabado.

altar

A Bíblia com meu nome de solteira, os tercinhos, as orações… E o altarzinho em casa, com direito a cinzeiro para acender velinhas.