maexmulher

Eu jurei que nunca seria dona de casa.

~ Suspira ~

Não nasci para isso. Quero ser uma profissional bem-sucedida. Ter minha independência financeira, status de mulher realizada, bem-resolvida. Ter mestrado, doutorado, falar 6 idiomas, ter passaporte com mil carimbos, usar roupa de grife e sapato de salto. Tomarei um espresso nas cafeterias mais badaladas, repousando meu laptop sobre a mesa, num conference meeting bem arrojado. Farei dieta, farei academia, irei ao salão de beleza t-o-d-a semana. Serei chefe, serei coordenadora, serei diretora, serei CEO.

É que eu só estou de licença-maternidade. Daqui um tempo eu retomo minha carreira.

~ Suspira ~

Nisso, já se passaram quase 5 anos.

E acho que quase cheguei aonde queria.

Eu nasci para ser mãe. Bem-sucedida e realizada naquilo que faço. Não tenho meu próprio dinheiro, mas a meus filhos nunca faltou nada. Eu não me interesso mais pelo status de ser profissional gabaritada, contanto que meus filhos garantam que sou a melhor mãe do mundo. Sou especialista na vida desses pequenos, e, mesmo assim, acho que nunca vou conseguir fazer um doutorado sobre eles, pois há sempre algo a aprender. E isso é incrível! Já aprendi a falar manhês, titibitate, a linguagem de cada um de meus filhos, desaprendi a falar palavrão, e todo dia aprendo uma palavra nova. Não sou de sair muito de casa, mas meus filhos me levaram a viagens maravilhosas: conheci os sete mares num navio pirata, passeei pelo bosque fugindo de lobos e ursos, já fui pro espaço, já fui para a Lua, para os mais nobres castelos. Minhas roupas não são de marca, mas exijo que sejam confortáveis para aguentar o agacha-levanta, o pula-esquiva, o mexe-remexe que exigem os cuidados com crianças ativas. O salto alto mofou no armário, porque tênis e sapatilhas combinam mais com o visual. Não estou impecável, meus cabelos estão sempre presos, e sempre percebo uma mancha suspeita na blusa quando já estou na rua. Mesmo assim, me sinto bem. Bebo café com frequência. Quente, frio… o importante é não faltar energia. A dieta é baseada naquilo que sobra do prato dos filhos, a academia eu faço no parquinho, e a beleza eu dou um jeito em cinco minutinhos, com uma base 8-em-1, um bom corretivo e um batom cor de boca, bem pouquinho, porque quero beijar as crianças, sem deixá-las cheio de marcas. Meu corpo seguiu as transformações que sofri e mudou também, aos poucos eu vou me acostumando a ele, até a próxima TPM – que me deixa deprimida por causa do peito murcho, da barriga flácida e da perna mole. Mas meu filho diz que sou linda, minha filha quer ser igual a mim, e então isso passa. Sou mãe mandona, dona da casa, animadora, monitora, professora, administradora, executiva, cozinheira, faxineira, manicure, piloto de carrinho e cabeleireira de boneca.

A dicotomia da mulher e mãe, vez ou outra, me deixa introspectiva, pensando naquele negócio de carreira x maternidade.

Crescemos rodeadas de exemplos de que a mulher feliz e realizada é aquela que trabalha e é bem-sucedida, que delega, inclusive, a educação dos filhos e os cuidados com a casa e a família.

Crescemos rodeadas de exemplos de que a mulher que fica em casa é frustrada, infeliz, mocoronga, mal-cuidada, sem auto-estima, que só grita com as crianças.

Talvez por isso eu relute tanto em assumir essa minha ocupação, como contei aqui, e prefira dizer que sou dona DA casa, que sou CEO em atividades materno domésticas.

É pelo status, é pela auto-afirmação. É pelo “qui dó”, tão bonita e inteligente e fica em casa com as crianças…

Falta só um pouco de respeito dos outros. Falta um pouco de “que bacana que você cuida da casa e dos filhos num mundo em que tudo é terceirizado”!

Realizar a gente se realiza todo dia, quando um filho ri, quando escreve as primeiras palavras, quando aprende a estalar os dedos, a dar cambalhota…