Lego é divertido e estimula a criatividade e o raciocínio. Mas precisamos falar sobre os riscos.

Era manhã de domingo, e a gente tinha planos de dar uma volta e sair para almoçar. Enquanto ajeitávamos as coisas (porque sair com filhos é como se preparar para uma expedição de 97 dias no deserto), minha menina de 4 anos se sentiu mal e foi ao banheiro vomitar. O mais velho, com aquele sarcasmo infantil, começou a rir (porque criança adora uma escatologia) e logo mandamos ele brincar na sala. Em menos de um minuto, enquanto eu ainda cuidava da pequena enjoada, ele grita desesperado que engoliu um Lego. Pálido, tremendo da cabeça aos pés, começou a dizer que ia morrer. Eu e meu marido no meio de tanta confusão, não sabíamos o que fazer, quem acudir. Não consigo me recordar em circunstâncias se encontrava o caçula de 2 anos.

Deixei a Pipoca aos cuidados do pai e fui acalmar o Filé. Peguei-o no colo, abracei, pedi para respirar. Com 8 anos, ele já sabia me dizer que sentia um incômodo na região do peito, mas não soube dizer como engoliu a peça. Acredito que, com o susto, a memória tenha falhado. Ele relata que tentava tirar uma peça da outra, com a boca. O tipo de coisa que a gente chama a atenção o tempo todo, mas que a gente mesmo faz quando brinca com eles. Ele tossia seco e suas mãos estavam úmidas. 

Quando percebi que minha filha tinha se recuperado, e estava deitada no sofá, decidi levar o mais velho ao hospital, por desencargo de consciência. Pedi que ele separasse uma peça igual a que ele tinha ingerido, que prontamente chegou às minhas mãos.

Meu filho disse ter engolido uma peça como essa

Uma peça redonda, vermelha, que não passa de pouco mais meio centímetro de diâmetro. Tentando acalmá-lo, disse que ela era menor que um chiclete que ele já havia engolido, que tudo ficaria bem. Ele não ia morrer. Mas ele esfregava o peito e dizia que ela estava ali. Tentei entender se ele a havia aspirado, e ele não soube explicar. Ali, minha boca secou, e dali por diante tudo o que eu dizia para ele era na tentativa de acalmá-lo e me acalmar também.

Domingo de manhã, e o pronto-socorro estava tranquilo. Na sala de espera, senti a tosse aumentar, sempre seca, e ele começou a achar engraçado o chiado no peito. Eu, não. Mas esboçava um sorriso. “Vamos fazer um raio-x”, disse o pediatra, “mas acho pouco provável que uma peça plástica seja detectada num exame desses”. De fato, o raio-x foi em vão. “Há quantas horas seu filho fez a última refeição?”, questionou o doutor. Eu nem conseguia me lembrar depois de tanto susto. “Acho que era dez e meia, onze horas”. Com uma cara de pesar, o jovem médico disse que era o caso de uma broncoscopia, um procedimento parecido com a endoscopia, mas para a área do pulmão. Apesar de ele não ter desconforto para respirar e estar saturando em 100%, o melhor era averiguar se a peça não estava alojada no pulmão, visto que ele não estava com aquela tosse, nem com aquele chiado antes do ocorrido.

Passamos mais de 4 horas jogando, conversando, passeando pelo hospital, aguardando pela liberação de um quarto. Fiz a besteira de pesquisar no Google uma hora em que ele estava distraído no tablet. Tive vontade de chorar. Mas estava sozinha, enquanto meu marido ficou em casa com os outros dois. Infecção, pneumonia, óbito. Lembrei-me: era abril. Em abril de 2011 tive a maior perda que uma mãe pode ter: uma filha faleceu depois de 15 dias de vida. Em abril de 2013, meu caçula ficou quase uma semana na UTI com uma crise asmática e que hoje não apresenta dificuldade alguma respiratória. Em 2017, no começo do mês, o caçula caiu da cadeira, tentando imitar a irmã e bateu a cabeça. Foi apenas uma contusão, mas precisou de avaliação médica. Agora era 30 de abril. Tive medo.

Mas mãe não pode demonstrar medo. Apesar de parecer estar traindo a confiança dele, busquei o tempo todo dizer que estava tudo sob controle, que eram procedimentos comuns. Embora a anestesia tivesse que ser um pouco mais forte que a da endoscopia, pois as vias aéreas são mais sensíveis que o esôfago. A gente imagina um monte de catástrofe, mas estampa um sorriso no rosto, e diz que tudo vai ficar bem.

Já estávamos no centro cirúrgico, quando acariciei seu rosto, comparei-o ao Homem de Ferro com tantos eletrodos. Rimos com a equipe falando de Lego. “Mãe, acredito que a peça tenha ido para o estômago, pois tosse dele não está forte, e ele está saturando bem”, relatou a especialista, “mas vamos ter certeza, vamos observar este pulmão e ver que está tudo bem com o rapaz”. Tive que sair da sala para o procedimento começar. Ele ficou tranquilo, como quem fica na cadeira de um dentista. Eu sai segurando as lágrimas e agarrei a esperança em meus braços. Um enfermeiro me serviu café e disse que em 30 minutos o procedimento terminaria. Mal conseguia me concentrar numa oração. Sozinha, busquei companhia nas redes sociais. Não queria estar sozinha ali. Estava me sentindo num precipício, sem ninguém ao meu redor.

Em pouco mais de 15 minutos, a doutora me chamou. “Encontramos uma pecinha bem parecida com aquela que você me mostrou, alojada na parte inferior do pulmão direito. Seu filho está bem, mas se a peça tivesse ficado numa outra posição, seu filho poderia ter ido a óbito”. Gelei. Chorei. Fui acalmada por uma profissional muito humana. “Mãe, avise quantas pessoas você conseguir: Lego é muito legal, mas extremamente perigoso. Foi um acidente, eu sei.” A gente nunca acha que vai acontecer com a gente, que a gente está sempre de olho, que está tomando cuidado. E, num piscar de olhos, as coisas acontecem, te deixando sem chão, com um sentimento de fracasso.

Pensava: tudo o que eu tenho que fazer é zelar pela segurança dos meus filhos, e eu falhei.

Já de volta à sala de recuperação, encontrei meu menino anestesiado, num sono gostoso, que invejei. Ali eu consegui pedir perdão, rezar, prometer, agradecer. Ali mesmo, esperei mais de uma hora até que meu filho despertasse. Ali, o anestesista me explicou que existe uma peça especial chamada extrator de Lego e que é vendida separadamente. Por um momento, fiquei incrédula: por que a empresa Lego não distribui o tal extrator em cada caixa? Em tantas caixas que temos em casa, temos apenas 1 extrator, que se parece com um mini pé-de-cabra, e que nem sempre funciona. Diferente desse que ele tinha me mostrado. Eu ainda vou me engajar numa campanha de “Lego, extrator tem que vir em todas as caixas”. Mas a campanha agora é zelar pela segurança dos meus filhos.

lego separador de peças

Separador de peças de Lego

Ele acordou, e mal acreditou no que aconteceu. Rindo, eu entreguei-lhe o pote: “Está aí, a pecinha que você tinha perdido.” Passamos a noite no hospital, em observação por conta da anestesia e do desconforto respiratório que ele poderia ter.

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A tosse ainda persiste, mas sem acessos. O que persiste também é a lição de que Lego não pode ser levado à boca, nem por um adulto. Que peças pequenas devem ficar longe até de crianças maiores. Que, por mais que façamos tudo pela segurança de nossos filhos, ainda é pouco. Que não importa o tamanho do meu problema, meu Deus é maior.

Se abril é o mês de eu renovar a minha fé, a missão foi cumprida. Mais uma vez.

E se minha missão é a de informar outras mães, fica aqui o alerta.