Vínculos de brinquedo


Quando pensamos em vínculo, logo lembramos de ligação: vínculos familiares, vínculo entre amigos, vínculo entre mãe e filho. E digo que este último é, sem dúvida, o mais relevante para nossa formação como indivíduos mentalmente saudáveis.

O vínculo começa antes mesmo de um bebê ser concebido: o desejo de um filho ou não guia toda a relação da mãe durante a gestação. E, aguardando o nascimento, os pais criam uma série de expectativas em relação ao filho que acabam por pautar sua relação com bebê logo que ele nasce.

Inicialmente, o bebê cria um vínculo com o seio materno, dada sua capacidade inata de sugar e se alimentar. Aos poucos ele compreende a figura materna: o cheiro, a textura, o carinho, a feição, os cuidados. Só depois de meses é que a criança, então, começa a criar o vínculo com a figura materna como um outro ser – já que antes o recém-nascido acredita ser parte da mãe e vice-versa.

Mas os vínculos não param na primerira infância: cada indivíduo, seja criança, adolescente, adulto, seja idoso, busca num outro alguém uma base segura, e, assim, serve como esse porto seguro para outras pessoas também. O vínculo é essencialmente uma relação de troca.

O autor Bolwby compara a formação do vínculo a um apaixonar-se; a manutenção deste vínculo, a amar alguém; e a perda dessa figura de apego, a sofrer por alguém. Ele também diz que é da experiência vivida nos primeiros vínculos paternais que o indivíduo terá a capacidade de construir novos vínculos saudáveis. Pichon-Riviére descreve que vínculo é a maneira como cada indivíduo se relaciona com o outro, criando estruturas interna e externa particulares em cada caso, a cada momento.

Complicações nas relações entre pais e filhos durante os primeiros anos de vida podem acarretar em vínculo paranóides, depressivos, obessivos e histéricos. Em suma: uma relação frágil entre o bebê e sua mãe pode acarretar em problemas psicológicos, sociais, de aprendizagem, entre outros.

Ora, se o vínculo que nós, mães, temos com nossos filhos dependeu de tantos os outros vínculos que criamos ao longo de nossas vidas, eu creio que muitos dos cuidados que temos com nossos bebês hoje começaram a se desenvolver quando zelávamos por nossas bonecas!

Cada uma de nós deve se lembrar bem de cada boneca que teve, de cada pinguinho de amor despejado sobre aquela figura de plástico, de pano, de madeira, de porcelana, de espiga de milho… Estávamos ensaiando nosso vínculo verdadeiro com nossos filhos, a cada mamada, a cada troca de fralda, a cada passeio. E quanto aprendemos!

Já ouvi muito marmanjo se perguntar como mulher aprende a cuidar tão bem de uma criança. Instinto? Talvez, mas é que começamos muito cedo nosso treinamento maternal.

Dedico este post a Manequinho, Beliza, Ana Paula, Betina e Betino: meus primeiros bebês, que me ensinaram a ser a mãe que sou hoje! Saudades…

 


Para saber mais:
PICHON-RIVIÈRE, E. Teoria do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BOWLBY, John. Apego – A natureza do vínculo. São Paulo: Martins Fontes, 2002. v.1.
CHAMAT, Leila Sara José. Relações vinculares e aprendizagem: um enfoque psicopedagógico. São Paulo: Vetor, 1997.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.


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2 comments

  1. Aaaaah,Adorei o texto!!!Realmente nosso primeiro treino de maternidade, com ensaios de amor, carinho, cuidados foram com as bonecas!!!Lendo o que escreveu lembrei de cada boneca e de cada vínculo criado com cada uma, dos nomes, até dos cheiros!!!Foi muito bom…bjs,Cláudia

  2. Amei seu post mas amei mais ainda a dedicatória!Obrigada pelo coment no meu blog, eu amo apertar e morder as coxas do Arthur hehe mas não deixo ninguém morder não!

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