Um Trago

Como uma manhã ordinária, saiu para fazer sua caminhada. Sem documentos, só com a roupa do corpo, o par de tênis nos pés e a chave de casa no bolso. Ninguém poderia abrir ou fechar-lhe o portão, pois morava sozinho. Dona Odete amarrou Neve na coleira e levou seu poodle branquinho para passear. Enquanto isso, seu Vito seguia rumo à padaria, e Clarissa fechava o portão, deixando sua casa com destino ao trabalho.
O mesmo bairro, a mesma rotina, o mesmo cotidiano de sempre. Eis que Arnaldo, o da caminhada, tropeça e cai. Não foi um tombo grave, foi uma queda vulgar, costumaz daquela vidinha regrada. Dona Odete se assustou, como se assustam as mães quando caem no chão os filhos pequenos. Segurou Neve no colo e prontificou-se a questionar piedosamente o rapaz que já se levantava com a ajuda do pulso firme de seu Vito: “Machucou? Virou o pé? Bateu a cabeça? Está tudo bem? Sente algo?”. Não, Dona Odete, não foi nada. Só tropecei neste degrau – olhando para uma fissura aberta na calçada. “Degrau?”, questiona seu Vito, “Isso aqui é uma rachadura das grandes. Já reclamei diversas vezes na prefeitura sobre as raízes das árvores mais antigas, que racham calçadas e devem estragar a tubulação.”

Do outro lado da rua, Clarissa, trinta e poucos anos, um filho, secretária de um importante escritório de advocacia da capital, mulher divorciada e devota da beleza estética, tentava conter o riso. Arnaldo já havia se engraçado com ela algumas vezes , e ela, pretenciosamente, achou que homem tropeçou porque esquecera-se do percurso da rua e centrara-se nas curvas da simpática mulher. O riso de Clarissa ficou amarelado e transformou-se numa interrogação: “Uma fenda de frente à minha casa? Ontem mesmo levei Diego para andar de bicicleta e não me lembro de tê-lo alertado sobre qualquer rachadura naquela altura da calçada.”
Continua…

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