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Mimetismo na hora da faxina

Mimetismo na hora da faxina

clarice-lispector

E eu vivia muito bem sem ajudante. Mesmo antes da PEC das domésticas.

Até que não estava mais dando conta de vidros, azulejos e duas crianças (e roupas, e comida, e marido, e blog, e quintal, e ir ao banheiro). Tive que dar o braço a torcer e aceitar a diarista da sogra de quinze em quinze dias só para fazer o “serviço mais pesado”.

Na primeira vez, ela demorou bastante, como toda primeira faxina. Normal mamãe passou açúcar em mim.

Na segunda vez, ela demorou mais ainda. Chegou a me deixar irritada, de tanta lerdeza. Entretanto, ela ia fazendo o serviço direitinho (chegou a limpar a escada com buchinha! E eu, me achando a madrasta da Cinderela, pedi p ela só passar um pano).

Já estava decidida a dispensar a moça, até que comecei a reparar mais nela: ela quase não fala, e quando fala, mal se entende. Ao comer, tive a impressão de que ela tinha 20 dedos em cada mão, tamanha dificuldade ao se utilizar os talheres.

Se essa moça não conseguir um emprego como diarista, ela não terá chance nenhuma! Creio que nem como gari, já que é preciso passar em concurso. E longe de mim um discurso escravagista ou de disputa de classes! A questão na verdade é filosófico-social.

Então, lembrei-me de Macabéa, de A hora da estrela. Aquela nordestina imigrante, que trabalhava à exaustão, que não tinha consciência de sua existência, mas queria ser estrela de cinema. Ignorante e alienada, de informação e de emoções.

Juro que me vi nas páginas de Clarice Lispector: um pouco como o patrão que despede Macabéa, um pouco como a própria.

Aquela que busca se realizar, mas que não tem noção do que é ser, de onde está, aonde quer chegar. Simplesmente é.

Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu” cairia estatelada no chão (…) Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu. Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. (…) “Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não, sabia para quê, não se indagava. (…) Sua vida era uma longa meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela. (…) Encontrar-se consigo própria era um bem que até então ela não conhecia.(…)

 

O filme é antigo e não chega aos pés da riqueza da leitura original, mas quebra um galho pro enredo

 

Se você só leu Clarice Lispector nas frases do Facebook, recomendo a leitura.

Moral da história: como Seu Raimundo, não dispensei a moça por dó. Como Rodrigo S. M., vou narrando na minha onipresença. Como Macabéa, espero não realizar meu sonho apenas na hora em que morrer.

E divaguei faxinando… Quem nunca?

 

Crônica exaurida – ou mais do mesmo

Crônica exaurida – ou mais do mesmo

book

Semana de 32º em pleno inverno. As moléculas corporais já ficam mais exaltadas.

Era dia de pediatra. Só quem tem filho sabe como dia de pediatra é emocionante: mala, carteirinhas do convênio, de vacinação, ficha de peso, pacote de bolacha (esqueci), suco (esqueci), brinquedo (tinha um esquecido na bolsa) e saco, bem grande. Porque deve ter uma matéria na faculdade de Medicina chamada Técnicas e Fundamentos de Atraso.

Meio dia perdido, pedidos de exames, recomendações e algumas pulgas atrás da orelha.

Aproveita a saída e já atualiza a carteirinha de vacinação da mais nova: uma agulhada, um grito, uma facada no bolso e um colo – para a bebê, claro!

Já é hora de mamar, a pequena vai dar escândalo no caminho. Antes de sair, amamenta, no carro, com o ar ligado.

Faz almoço, brinca, faz dormir, não dorme, faz dormir, não dorme, faz dormir, não dorme. Então brinca!

E o calor… Derreteu a fome.

A mãe brinca, chacoalha e resolve meia dúzia de coisas pelo smartphone. Sem ele, precisaria ainda ter ido ao banco e à livraria.

Banho de um, distrai a outra. Tem que ser rápido, senão a chave cai. Cheiro de queimado… Tá pegando fogo? Não? Então segue o barco.

Hoje é dia de futebol do marido. Não tenho assistente. É dia da Mulher-Maravilha-Elástica-Mística-Polvo entrar em ação. Podia ser também a Tempestade – tá precisando chover!

Um dorme no prato, a outra chora, eu choro junto. É o caos.

Pede arrego pro marido. Não atende o celular.

Mais quarenta minutos de bravura materno-doméstica, e aqui estou eu, saboreando um insosso macarrão com azeite – a fome passou por cima da gastronomia –, parando de escrever este post no meio para checar se o choro foi de algum filho, se o quarto está menos abafado…

Provavelmente dormirei babando em cima do livro: de fadiga e de fome de poder comer algo saboroso, me deleitar, aos poucos, sem ser interrompida, presença e mentalmente. Fome de um tempinho para mim.


 

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A propósito, segue minha sugestão de leitura:

Não é sopa – Nina Horta | Um livro de crônicas culinárias, acompanhado de receitas bem variadas – das mais familiares às mais requintadas. Leitura deliciosa!

Tô grávida!

Tô grávida!

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Olha lá o leitor do blog correndo para dar os parabéns!

Mas vamos ler o post inteiro antes de pagar mico.

Dizem que escrever um livro é como parir um filho. Se a máxima for verdadeira, cabe a mim dizer que estou grávida, oras!

Já defini o tema, os capítulos e já tenho algumas páginas escritas. Já pesquisei sobre o assunto, já li livros semelhantes… Enfim, estou engajada neste novo projeto.

Daí eu pensei eu com meus botões: #comofaz

Tem que registrar o direito autoral? Pode enviar para um monte de editoras? É melhor enviar via QI? Como entrar em contato com pessoas que poderiam dar uma mãozinha nesse aspecto? Manda impresso ou eletrônico? Assino como Milene Massucato, Milene Rabello, como Dirce? Como enviar uma cópia para uma pessoa influente no meio dar pitacos? Como? Como? Como?

O livro nem está pronto, e eu já estou me preocupando com os trâmites burocráticos da coisa. Mas gravidez é assim mesmo, né? Ansiedade, vontade de ver a carinha do filho, enjoos, nervoso, muuuuitos palpites (bons e ruins), insônia, medo, fantasia, responsabilidade…

E, olha, vai rolar um suspense master-plããs agora, porque eu não vou sair contando sobre o que é meu livro, né? Mas deixo uma pista: é sobre o universo materno.

E antes que o post termine, desculpe pela mentirinha!

Livros sobre Maternidade e Filhos

Livros sobre Maternidade e Filhos

 

Quem me conhece, sabe o quanto eu gosto de um dicionário, de um manual, de um livrinho de receitas, mas não suporto livros de auto-ajuda. Gosto de definições, de saber como as coisas funcionam. Daí inventei de ficar grávida e ter filhos. E cadê o manual, me diz?

Com o exame positivo em mãos, passei meses (mais de 40 semanas!) aguardando meu exemplar de “O Completo Manual do seu próprio corpo em gestação”. Nada!

Ainda na maternidade, esperei ansiosa a enfermeira chegar com meu bebê no colo, trazendo com ele um livreto com instruções básicas de como proceder nos próximos dias (meses, anos…). Daqueles com índice remissivo no final e lista do que fazer com os problemas comuns. No entanto, a descarada me veio só com um “boa sorte”. Pode?

E mais nada chegou pelos correios … Clique aqui para continuar lendo e para participar de sorteio bacanérrimos!

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