Há momentos que são tão belos, que, se pudessem ser guardados, já estariam naquela caixinha de boas memórias, num relicário, num porta-joias.
Como o nascimento de um filho, a hora do “pode beijar a noiva”, as primeiras vezes de tantas coisas, pores do sol, abraços de partida.
Nesse meu relicário, sem sombra de dúvida, guardaria a amamentação.
Não exatamente o amamentar em si. O amamentar como alimento, como ato de amor é lugar-comum. Falar aqui de como engrandesce a mulher poder ser uma exclusiva fonte de energia para uma vidinha é chavão. Aquela troca de toques, de cheiros, de olhares, a simbiose é trivial, ainda que não seja banal.
Falo daquele momento em que aninhamos a cria, como se colocássemos-na de volta ao ventre, protegida e restrita aos estímulos daquela hora. Ela abocanha o seio, dá as primeiras sugadinhas.
Daí a mãe sente a descida do leite. E a boca do bebê se enche que quase dá para engasgar.
E é essa fração de tempo que gostaria de materializar e aprisionar: os olhos da criança quase se fecham de satisfação enquanto ela mama, o leite escorre pelo cantinho da boca, a harmonia do respirar e do engolir.
Freud diria que é um prazer inconscientemente sexual de ambas as partes. Daria enredo para mais uma trilogia de E. L. James.
Eu fico mais com a magia do momento, daquilo que se chama deleitar – no mais literal dos sentidos.
Sei lá se isso se arraiga nas entranhas das nossas memórias, mas equiparo àquele momento em que se dá um gole num refrigerante estupidamente gelado num dia de verão, digno de um take para a TV. Ainda que refrigerante e leite materno sejam coisas que só se assemelhem por serem líquidos bebíveis.
Mas já que não posso trazer um instante ao plano da matéria, que ele fique aqui registrado, para que refresque minha memória, e eu me deleite com essas reminiscências maternais.