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O deleite como lembrança

O deleite como lembrança

ballerina

Há momentos que são tão belos, que, se pudessem ser guardados, já estariam naquela caixinha de boas memórias, num relicário, num porta-joias.

Como o nascimento de um filho, a hora do “pode beijar a noiva”, as primeiras vezes de tantas coisas, pores do sol, abraços de partida.

Nesse meu relicário, sem sombra de dúvida, guardaria a amamentação.

Não exatamente o amamentar em si. O amamentar como alimento, como ato de amor é lugar-comum. Falar aqui de como engrandesce a mulher poder ser uma exclusiva fonte de energia para uma vidinha é chavão. Aquela troca de toques, de cheiros, de olhares, a simbiose é trivial, ainda que não seja banal.

Falo daquele momento em que aninhamos a cria, como se colocássemos-na de volta ao ventre, protegida e restrita aos estímulos daquela hora. Ela abocanha o seio, dá as primeiras sugadinhas.

Daí a mãe sente a descida do leite. E a boca do bebê se enche que quase dá para engasgar.

E é essa fração de tempo que gostaria de materializar e aprisionar: os olhos da criança quase se fecham de satisfação enquanto ela mama, o leite escorre pelo cantinho da boca, a harmonia do respirar e do engolir.

Freud diria que é um prazer inconscientemente sexual de ambas as partes. Daria enredo para mais uma trilogia de E. L. James.

Eu fico mais com a magia do momento, daquilo que se chama deleitar – no mais literal dos sentidos.

Sei lá se isso se arraiga nas entranhas das nossas memórias, mas equiparo àquele momento em que se dá um gole num refrigerante estupidamente gelado num dia de verão, digno de um take para a TV. Ainda que refrigerante e leite materno sejam coisas que só se assemelhem por serem líquidos bebíveis.

Mas já que não posso trazer um instante ao plano da matéria, que ele fique aqui registrado, para que refresque minha memória, e eu me deleite com essas reminiscências maternais.

Recordações culinárias

Recordações culinárias

recipe

 

Sou chegada às modernidades. A tecnologia auxilia e muito a vida de quem cuida de casa.

Mas não consigo entender a vantagem de se ter cadernos de receitas digitalizados.

Certa vez minha mãe pediu para eu digitar os dela. Salvamos num disquete e jogamos a papelada fora. Poucos anos depois o disquete deu pau, o computador deu pau e perdemos as receitas. Salvaram-se poucas, justamente as que eu tinha copiado no meu caderninho, já que tinha acabado de me casar.

Ficou a lição. O caderninho vale mais.

E não me venha com esse negócio de livros de receitas on-line, nos quais se pode selecionar suas receitas favoritas, inserir outras e deixar tudo disponível aos seus seguidores.

Sou chegada à nostalgia. Os caderninhos de receita registram nossa história culinária, nossas influências, nossa família.

 

Sempre tem aquela receita com o apelido da tia-avó: Torta de Morango da Tia Lucinda.

Sempre tem um segredinho, um macete, um pulo do gato que você não copia quando alguém te pede a receita daquele bolo que todo mundo adora.

Sempre tem uma receita rasurada, porque você descobriu o ponto certo.

Sempre tem uma digital de gordura.

Sempre tem uma sujeirinha de massa.

 

Vira e mexe a gente passa o caderninho a limpo. Mantendo os apelidos das receitas, os truques, uma folha seca e um cartão recebido com flores.

Mais do que guardar instruções de pratos, os cadernos de receitas guardam nossa história culinária. Nas páginas, impregnadas de cheiros de infância, vou escrevendo minhas memórias gastronômicas. Enquanto cozinho, vou me lembrando de gente querida e construindo as lembranças que terão de mim.

Reminiscência

Reminiscência

lembraA cada dia que passa vou me restabelecendo. Tem dias em que choro muito, outros em que sequer cai uma lágrima. Momentos em que me sinto uma rocha, outros em que estou mais para um papel de seda.

Com o tempo, parece que aquela dor vai passando. Na verdade, ela vai é se transformando. Como a borboleta. Um bicho sem beleza alguma, por horas asqueroso, que se acalma, se  aquieta, e se torna um ser alado, de cores belas, de encantamento. Já disse aqui que não sou muito apreciadora de borboletas, mas tenho que concordar que elas são um símbolo da transformação, da beleza frágil, da inconstância.

A angústia de ver uma criança sofrer, que deu lugar a um vazio sem fim, agora vai se transformando em cicatriz. Vou secando minhas úlceras, fazendo a dor virar saudade. Continuo amando, e amar dói.

As lembranças que antes eram vivas como o já, agora assumem cada vez mais o papel de passado. Preciso aceitar. A vontade é de voltar no tempo, poder fazer algo diferente, mas, será que isso a traria de volta?

Conforme os dias vão passando, vou ficando com medo. Tenho medo de esquecê-la, de não conseguir visualizar seu rostinho sem antes ver uma foto, medo de não conseguir mais sentir seu cheirinho, medo de não conseguir mais sentir sua pele, seu cabelinho em minhas mãos. Antes, eu fazia um esforço inimaginável para não ter essas recordações tão vivas no meu dia-a-dia, no entanto, agora, é preciso um pouco mais de concentração para tê-los à tona.

Amanhã faz apenas um mês que minha pequena se foi, e a sensação é de que vivi uma década. Sentimentos tão intensos, emoções que pareciam ultrapassar os limites do que o coração pode sentir.

Tudo isso vai se tornando apenas lembrança. E não há máquina fotográfica, filmadora, diário, que consiga registrar momentos tão preciosos. Vou fazendo meu relicário aqui dentro, juntando pedaços. É preciso também curtir a dor da perda para não fazê-la cair no esquecimento.

Imagem saiu daqui.

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