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Desfez-se a amarração

Desfez-se a amarração

knot

 

Receita é um negócio meio assim, meio fórmula, meio poção, meio feitiço.

Você segue as instruções à risca, mas sempre dá aquele toque seu, põe sua assinatura no quitute. Uma pitada, uma decoração, um tiquinho a mais de manteiga, uma cobertura caprichada.

Assim como todo feitiço, tem aqueles que não dão certo, não surtem o efeito, não trazem de volta a pessoa amada em três dias úteis.

Era assim com o bolo de cenoura.

Tipo maldição de família.

Meu bolos de cenoura sempre encruam. Ficam lindos no forno, crescem e se inflam, douram. Depois murcham e enrijecem.

Minha mãe nunca acertou um bolo de cenoura. Só os de caixinha.

Minha avó paterna (repare que a praga vem dos dois lados – mãe e pai) separava todos os ingredientes e pedia para a empregada bater o bolo. Se ela ousasse mexer na massa antes de assar, o bolo embatumava.

Minha irmã, uma vez, deixou o copo do iquidificador se abrir sem querer, e a massa se espalhou pela pia. Ela não ia jogar fora trabalho, ingredientes e perseverança. Foi a única vez em que o bolo de cenoura cresceu. E não me venha com explicações, porque ela faz bolo como profissão. Mas o de cenoura…

Eu tentei diversas receitas. Muitas.

Cansei de comer bolo encruado.

Faço as mais deliciosas coberturas para salvar um bolo malogrado.

 

fotoEntão veio a Rita e sua panelinha. Ensinou-me um bolo simples de cenoura.

Nem precisei recitar o “mangalô, pé-de-pato, três vezes”.

O bolo cresceu, inundou a casa com seu perfume de bolo. Esfriou e permaneceu na mesma altura. Ficou fofinho até o fim, como diria meu primogênito.

Repeti a receita. O mesmo sucesso.

A Rita nem imagina o poder do seu feitiço de cenoura, capaz de quebrar a maldição hereditária.

Sei lá se foi a receita, se foram as medidas, a mandinga, a boa vontade, ou se é coisa de alguma entidade xamanística gastronômica. A verdade é que divido minha vida culinária entre antes e depois do bolo de cenoura.

Cozinha da Bruxa

Cozinha da Bruxa

Eu achava que cozinhava bem, até ter um filho.

Imaginei que ele adoraria comer panqueca, bolo de chocolate, gelatina, purê de mandioquinha, lasanha… Não tô falando de brócolis, chicória, quiabo, nem peixe ensopado. Tô falando de coisa que criança gosta: bisnaquinha com manteiga, pão com requeijão, melancia, morango com açúcar.

Vejo mil receitinhas, posts de pratos de criança, e quase entro em depressão.

Já deixei passar fome, já deixei comer o que quisesse, já comi na mesa, no quintal, no restaurante, já pedi ajuda pra cozinhar, já levei para fazer compras, já comprei livro de receitas, já fiz escultura com comida, já escondi ingrediente, já briguei, já chorei…

Acontece que meu filhote come basicamente produtos industrializados (bolacha, suco, achocolatado, papinha…). Se for fresquinho, feito pela mamãe, é não na hora!

Almoços e jantares se resumem a arroz, farofa e uma carne ou macarrão na manteiga. Se o arroz muda de cor por causa de um legume que cozinhou junto, lá vem o nariz torto.

Fiz bisnaguinha, cookies, bolo, muffin, tudo para agradá-lo, e nada. O negócio dele é se entupir de conservante, acidulante, espessante, engomante, embromante, chatiante.

Outro dia, coloquei secretamente uma papinha deliciosa dentro do vidrinho da famosa insossa que ele tinha mandado ver na noite anterior. Recebi um sonoro “não gosto dessa”.

Conclusão: eu cozinho mal pra caramba! E nessas o ponteiro da balança há um ano emperrou 14kg e de lá não sai.

O negócio então é eu assumir essa identidade bruxa e fazer jus aos meus dotes, cozinhando patas de aranha, suflê de catota, ensopado de chifre de besouro e musse de casquinha de ferida de sobremesa!

 

Servindo garapa em cristais Bohemia

Servindo garapa em cristais Bohemia

biriba

 

Não é nenhuma novidade saber que, primeiro, comemos com os olhos. Daí, se apetecer a visão, o olfato se aguça e, só depois, é que a comida, de fato vai para o paladar. Então que lendo um texto da Nina Horta, me dei conta de como não sirvo para gastrônoma.

Vejo muitas donas e donos de casa fazendo curso de gastronomia para servir melhor. E não vou muito com a cara disso não. As pessoas estão achando o trivial brega…

Sou diiirce, e decoro a maionese com gema de ovo cozida passada no coador e salsinha, frito o ovo do jeito que cada um gosta (gema mole, gema dura), faço flor de casca de tomate.

Não tenho vergonha de dizer que gosto de biriba, de estrogonofe, de farofa e cuscuz. Faço pavê em dia de festa! Eu corto o melão em ziguezague! Faço lanchinho de atum nas festinhas! Eu faço cajuzinho!

Eu sou diiirce!

Nada de jus de redução de vinho, pato confitado ou risoto de chalotas com alho negro.

Esse negócio de Nouvelle Cousine não pegou aqui, não. Nada de Le Creuset, aqui é panela de teflon, pirex!!! Aqui é Curíntia, véi!

Admiro essa tal de alta gastronomia, mas meu dia a dia é bem mais ordinário, nem por isso menos saboroso.

Porque cozinhar, para mim, mais que uma arte, é um ritual: um culto à transformação dos alimentos, ao prazer de se comer bem, aos cuidados de quem se quer bem.

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