Sequestro de Crianças: Compartilhar notícias falsas pode ser crime

Sequestro de crianças: compartilhar boatos e notícias falsas também é crime

As notícias de sequestro de crianças pipocam nos grupos e compartilhar notícia falsa é crime!

Uma mulher tenta arrancar a criança do colo da mãe numa rua popular da cidade. Um casal aborda uma criança num bairro conhecido. Um homem segue uma família dentro de um shopping. Há imagens. Há imagens chocantes de crianças. Há áudios de mães desesperadas, de especialistas na área, de alguém da superintendência da polícia. Se você não sabe do que estou falando, é muito provável que você não tenha Whatsapp ou faça parte de alguma rede social.

Há algumas semanas, pipocam notícias de sequestros de crianças em várias cidades da Grande São Paulo. O alerta vem dos mais diversos grupos. E coincidem com uma época em que estamos mais sensíveis – como o fim de ano e após o desastre da Chapecoense e a morte inesperada do Domingos Montagner, que nos deixaram comovidos e pensativos sobre a fugacidade da vida – e quando há muita gente nas ruas por conta do fim do ano. Surge um prato cheio para que boatos se espalhem na velocidade incontrolável da internet.

Depois de tanto alarde, o pânico se instaurou entre as pessoas. As mães estão desesperadas, e quando a criança sai do campo de visão da mãe, é o suficiente para uma reação descontrolada, com requintes de compartilhamento em tempo real na internet. E o medo leva o ser humano a fazer recortes e associações: recebe uma imagem de uma coisa e compartilha sendo outra. Pega um áudio antigo sobre um caso isolado, e faz isso virar uma verdade atual. Não há como se controlar.

Com medo, nossa tendência é sair compartilhando, sem saber se a notícia é falsa ou não.

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Eu passei a desconfiar dessa onda, quando  recebia mais uma notificação dizendo ser verdade, e que aconteceu com a cunhada de um amiguinho da escola do meu filho, ou com a filha de uma amiga de uma conhecida minha. Não haviam nomes, só fatos.

A segunda desconfiança veio quando depois de mais 15 dias de boataria, percebi que nenhum meio de comunicação grande havia abordado o assunto. Ora, se quando existe um sequestro, a mídia se mobiliza massivamente, quando estaria havendo uma “onda” de sequestros, ela deixaria de noticiar e fazer seu papel de alertar os cidadãos? (Isso sem contar a parte dos sensacionalistas.)

A notícia veio hoje, em forma de nota da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, que desmente a onda de sequestros. Leia na íntegra:

Secretaria da Segurança Pública alerta sobre boatos

Não há onda de sequestros de crianças no Estado de São Paulo

Ao contrário do que tem circulado nas redes sociais NÃO DÊ OUVIDOS A BOATOS! A Secretaria da Segurança Pública esclarece que não há onda de sequestros de crianças no Estado de São Paulo. Falsas notícias têm circulado nas redes sociais, alarmando as pessoas ao atribuir crimes às quadrilhas especializadas ou facções criminosas. A Polícia Militar reitera que todas as denúncias ou suspeitas devem ser encaminhadas ao 190, evitando-se a propagação de pânico e boatos. A SSP esclarece ainda que a Polícia Civil investiga todas as denúncias registradas e o setor de inteligência policial monitora os boatos divulgados nas redes sociais.

Assessoria de Imprensa e Comunicação da Secretaria da Segurança Pública sexta-feira, 16/12/2016 – 13:30

A nota não me vai fazer desgrudar os olhos e as mãos de meus filhos andando por aí. A nota não vai me deixar de instruir meus filhos a não conversarem com estranhos ou fazer muito escândalo quando se sentirem em perigo. Isso é para a vida, não apenas para casos de “onda de sequestros”.

Veja: 15 dicas para evitar o sequestro de crianças

Há, de fato, casos isolados de tentativa de sequestro na Grande São Paulo, mas não há um só concretizado. Não há tráfico de órgãos infantis.

Não vamos nos impressionar com peças soltas de um quebra-cabeças que não se junta. Não vamos deixar de passear com nossos filhos. Não vamos compartilhar imagens de pessoas “culpadas”, esperando acontecer o linchamento de um inocente (Lembram-se da mulher que morreu por ser confundida com uma sequestradora de crianças? E do casal que tinha acabado de ter um filho mas deixou de sair de casa porque a foto deles foi falsamente associada a sequestradores? E o trabalhador que sofreu a mesma calúnia?

Segundo nosso código penal, compartilhar notícias falsas é crime, com pena de 3 meses a 1 ano.

Decreto Lei nº 314 de 13 de Março de 1967

Art. 14. Divulgar por qualquer meio de comunicação social, notícia falsa, tendenciosa ou fato verdadeiro truncado ou deturpado, de modo a indispor ou tentar indispor o povo com as autoridades constituídas. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 510, de 1969)

Pena: Detenção, de 3 meses a 1 ano. (Redação dada pelo Decreto-Lei nº 510, de 1969)

Precisamos tomar muito cuidado antes de sair compartilhando. Todos somos responsáveis por nossa segurança.

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Mas como saber se uma notícia é falsa?

Alarme: Geralmente, as notícias falsas vêm com um tom de alarmista, com mensagens de “cuidado”, “alerta geral”. Perceba que os grandes meios de comunicação não fazem uso disso.

Datas: Notícias falsas não contam com detalhes de datas. É sempre um ontem, há uma semana, esta semana. Não há um dia específico. A notícia que correu há dois anos volta com força total facilmente.

Pessoas: Não há nomes. É sempre um amigo de um amigo, um vizinho, um filho de conhecido. Notícias reais precisam de fatos, nomes, nem que seja para escamoteá-los com as iniciais apenas.

Locais: Isso sim, há sempre uma referência de um local de grande circulação, bastante conhecido. Quanto mais gente conhecer o local, mais fácil de a notícia se disseminar.

Português errado: Notícias falsas não tomam o mínimo cuidado com nossa língua. Se há erros de português, desconfie.

Dica: Antes de compartilhar qualquer notícia, verifique se ela veio de um grande canal de comunicação. Se não, procure pelo tema no Google. Só aí compartilhe.

Tenha muito cuidado antes de apertar o dedo: a tela não te isenta da responsabilidade! (e isso vale para tudo na web)

3 comments

  1. Eu te pergunto: vi na Internet uma foto com varios corpos de crianças que tinham lhe tirado os órgãos. Será verdade?

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