Polêmica sobre lugares proibidos para crianças deixa mães furiosas

Polêmica sobre lugares proibidos para crianças deixa mães furiosas

O que diz o Estatuto da Criança e do Adolescente sobre a permanência de menores em locais públicos

Nesta última semana (26/10/2016), Raíza Costa (blogueira e apresentadora de TV) publicou uma nota em uma de suas redes sociais concordando com o fato de um restaurante em São Paulo proibir a entrada de menores de 14 anos em suas dependências. O negócio pegou tanto fogo que a moça precisou apagar o post.

“Pensa só nos pais que pagam uma babá pra finalmente saírem pra namorar tranquilões e, chegando lá, são obrigados a aturar o choro do filho alheio. Não acho que deveria ser regra mas não vejo nada demais alguns estabelecimentos proporcionarem momentos românticos sem incluir show de break dance esperneando no chão regado à berros de ‘eu quero batata frita!’.”

Polêmica no ar, uma parte dos internautas defende o ponto de vista de Raíza, alegando que algumas vezes queremos sair para lugares longe de crianças, com papo de adulto, seja para ter uma folga de filhos, seja porque não somos muito chegados aos pequenos. Outra parte alega que esse tipo de lugar vai perder clientes, e que quem sabe onde uma criança pode ou não ir são os pais.

A controvérsia já teve o pano de fundo na Austrália, nos Estados Unidos. Lugares em que é comum os pais deixarem as crianças com baby-sitters e saírem para jantar, estando de volta lá pelas 11 da noite. No Brasil, quem não pode contar com avós, tios, amigos, acaba tendo que levar as crianças.

De fato, alguns locais não são kidsfriendly – ou onde a criança seja bem-vinda: não há cadeirões, menu especial, espaço para os pequenos, até mesmo a atmosfera é mais silenciosa. Outros, não são adequados pelo barulho ou oferta de bebida alcoólica. (Confira Restaurantes para ir com as Crianças no ABC)

Instigada pela discussão, fui procurar me informar sobre os direitos das crianças, já que, para mim, delimitar locais proibidos para crianças sem uma razão plausível é preconceito de faixa etária. Não deixar uma criança entrar num restaurante acompanhada de seus pais, é como não permitir a entrada dos avós num buffet infantil – não é ambiente para idosos, muito barulho, brinquedos perigosos, comida gordurosa e cheia de açúcar. O artigo “Sobre ‘childfree’ e a intolerância crônica com crianças” elucida bem porque a questão do comportamento infantil gera tanta controvérsia. E me pego pensando na postura desse tipo de restaurante com adultos alcoolizados e baderneiros.

O fato é que não são as crianças que são proibidas, mas o comportamento (ou a falta dele). Crianças estão aprendendo os limites e as regras sociais, não sabem apenas sentar e esperar pela comida, ou engolir algo que não lhe apeteceu simplesmente porque lhe custou algum dinheiro. Elas têm energia, e precisam gastar de alguma forma. A nós, pais, cabe não deixar o barco à deriva, com as crianças tocando o terror simplesmente porque são crianças. É preciso limite e bom senso.

O ECA – Estatuto da criança e do adolescente – deixa tudo isso bem claro:

CAPÍTULO II – DO DIREITO À LIBERDADE, AO RESPEITO E À DIGNIDADE Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

Pessoas em processo de desenvolvimento. Estão aprendendo, como aqueles jovens adultos aprendendo a dirigir. Não existe uma só via pública em que “não são aceitos motoristas novatos”, existe? Temos que ter um pouco de empatia com esses motoristas em formação. Assim como idosos no caixa-eletrônico. Não há bancos que não aceitem pessoas de idade porque eles não sabem lidar com as máquinas. Eles só precisam de um pouco mais de atenção para aprender.

Art. 16. O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos: I – ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais;

Como todo e qualquer ser humano, a criança tem o direito de ir e vir e voltar para onde bem desejar, desde que não invada uma propriedade particular ou um estabelecimento que LEGALMENTE não possa receber crianças por questões de segurança.

Art. 18. É dever de todos velar pela dignidade da criança e do adolescente, pondo-os a salvo de qualquer tratamento desumano, violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.

Não permitir a entrada da criança em um restaurante por ela ter o comportamento de criança é colocá-la numa situação vexatória, é preconceito. Da mesma forma que é desumano levar seu filho a um churrasco recheado de bebidas e substâncias ilícitas. É aterrorizante para uma criança de 4 anos estar num show de rock, na muvuca. É colocar a criança em risco ao levá-la a um restaurante, na cobertura de um prédio, que não tenha segurança para pequenos. E é dever de TODOS, não apenas dos pais, zelar pela integridade daquela criança.

Art. 74. O Poder Público, através do órgão competente, regulará as diversões e espetáculos públicos, informando sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada.

Não é o restaurante que decide se a criança pode ou não entrar, mas o Poder Público que indica a classificação etária adequada, como em grandes eventos, shows, teatros, filmes. Como numa vez em que fui a um evento com minha filha – na época de colo – no escritório de uma empresa no 25º andar, e fui barrada, pois os bombeiros não autorizavam a entrada de menores no local. Precisei assinar um documento, afirmando que a bebê ficaria o tempo todo no meu colo, e todo e qualquer risco estava sob minha responsabilidade. Justo e correto.

Quem sabe onde uma criança pode ou não entrar são os pais ou responsáveis, desde que o local não ofereça nenhum risco à sua saúde ou segurança física e psicológica. Nós sabemos a bagunça que crianças fazem em restaurantes (veja Comer fora com e sem filhos), e sabemos onde podemos ou não levar nossos pequenos – ou pelo menos deveríamos saber, como responsáveis pela educação de cidadãos em formação.

É melhor o restaurante em questão corrigir a plaquinha para “Não aceitamos crianças menores de 14 anos, animais, pessoas alcoolizadas, descentes de italianos, gente sem noções de etiqueta, pessoas que dão risada alto, confraternizações, pessoas se divertindo…” Eles dizem que não querem crianças, mas o que eles não aceitam é um pouco mais de bagunça.

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10 comments

  1. Sem contar que eles aceitam adolescentes. Quer faixa etária mais barulhenta????

  2. Ta faltando educação e respeito, tanto para quem vai quanto para quem recebe…
    bjs
    Lele

  3. Minha crítica nem é ao tal restaurante que fez o post com a proibição. Não conheço a lei brasileira profundamente, portanto não sei se isso é permitido ou não. Acho que quem se sentir ofendido deve procurar seus direitos, assim com um negro, um gay, um judeu ou um idoso o fariam num caso assim. Há, sim, um movimento contra crianças. Li cada comentário de arrepiar e jogando culpa e responsabilidade nas costas dos pais simplesmente porque eles são pais. Gente chamando criança de mal educada porque criança corre e chora, gente julgando os pais dessas crianças de negligentes porque as crianças choram e correm. Li comentários horríveis, subestimando a inteligência desses pais e acho que as pessoas não têm propriedade pra julgar como eles criam seus filhos com base em lágrimas e correria. Qual a saída? Jogar um tablet ou celular na mão da criança para ela sossegar? Medicar com Ritalina uma criança normal porque ela “parece” hiperativa porque está sendo criança? É meio óbvio que não se deve levar criança pra jantar romântico, pra balada, pra ver filme pornô, como uma pessoa quis “me ensinar” em um post. O que me dá ódio é essa onda de achar que toda criança é mal educada porque está simplesmente sendo criança. Não sei se você chegou a ver, mas na época do lançamento do Procurando Dory houveram alguns posts de gente falando que ia chutar criança barulhenta no cinema. Sério, eu não vejo a menor graça nesse tipo de coisa. E essa birra com as crianças abre precedentes para um monte de coisas com as quais não quero compactuar.
    Dá uma tristeza ainda maior se pensarmos que as discussões da semana levam em conta, em princípio, pais e crianças privilegiados. Eu fico imaginando o que “pensam” de crianças pobres, crianças negras, crianças com necessidades especiais ou deficiência intelectual.
    Há um outro fator, muita gente que fala em deixar as crianças com babás são os primeiros a apontar o dedo e falar que os pais “terceirizam” os filhos. Ninguém para pra pensar que há pais que trabalham tanto que querem curtir cada momento que podem ao lado dos filhos. Aquela família alvo de crítica no restaurante pode estar curtindo um raro momento juntos naquela semana. Ninguém pensa em outros ângulos. Ninguém pensa em nada, pra falar verdade.

    • Perfeito o seu texto, Helena Noronha! Me emocionou!!! Eu e meu marido somos esses pais que trabalham muito e querem aproveitar cada minuto de folga junto com os filhos: temos 2 meninos (10 e 2 anos). Fora que não temos avós, tias, madrinhas por perto pra dar uma força. Até pra levar ao médico quando um dos dois fica doente, ou vamos todos, ou um vai com o doente e o outro fica em casa com o que está bem. Realmente “ninguém pensa em nada”, ninguém pensa no outro, vivemos numa sociedade cada vez mais egoísta, onde cada um pensa apenas no próprio umbigo e mais nada.

  4. Eu tive uma experiência em um ambiente parecido, mas no meu caso foi bastante positivo. Fomos a um restaurante relativamente classudo, e quando entrei com minhas filhas de 3 e 5 anos fomos alvejados pelos olhares dos casais presentes. O ambiente é super sossegado, mas eu sabia até onde minhas filhas iriam (nós sabemos do que nossos filhos são capazes). Meu marido tratou logo de pedir a comida, aparentemente com medo das meninas aprontarem alguma porque o silêncio era monástico. Prontamente veio uma moça muito atenciosa lá de dentro, com aqueles suportes de encaixar na cadeira e sentou as meninas confortavelmente. Perguntou se eu gostaria que ela trouxesse algum entretenimento pra elas e eu disse que não era necessário pois estávamos bem. Ela insistiu e disse que elas podiam levar pra casa caso não quisessem brincar. Veio lá de dentro com dois kits para cada, um contendo um quebra cabeça e outro contendo um livrinho de colorir e uma caixinha de lápis de cor. Jantamos tranquilamente e ninguém percebeu que tinha “de menor” na área. Voltamos lá umas 5 vezes depois disso. Acho que se em algum lugar minhas filhas não são bem vindas, eu também não sou. Elogiei bastante para o gerente a postura da funcionária e do próprio restaurante, que investiu para conquistar todos os públicos. Eu não iria pagar uma babá e ainda gastar em um restaurante qualquer, quando posso ter momentos com minha família em um ambiente agradável. Tenho certeza que o que o restaurante gastou com os dois suportes da cadeirinha, e os kits para crianças que usamos lá sempre que vamos já foi reposto com a quantidade de gente que já indiquei para ir conhecer o trabalho deles.

  5. Eu não vejo problema algum em não aceitar crianças. É uma propriedade particular. Antes de ter filhos eu procurava lugares para ir exatamente assim onde não haveria crianças de outras pessoas. Assim como existem pessoas q não querem ter filhos não vejo problema em elas querem frequentar um lugar onde crianças não são bem vindas. Quem tem filho procure outro lugar para ir com eles. Cada um na sua uai. Pq eu tenho q fazer vc engolir meu filho se ele é meu e não seu? Antes de ter filhos eu me recusava a ir em resorts por exemplo. É o pior lugar para uma pessoa q não ta afim de aguentar por exemplo crianças pulando na piscina ir. Hoje já procuro lugares assim pq sei q estarão lotados de crianças e meu filho vai poder se divertir. Criança chora, faz birra, faz manha, grita, ri alto se vc não quer aguentar isso vc tem onde ir agora reclamar disso em um lugar onde crianças são bem vindas ai sim é errado. O GRANDE PROBLEMA É NÃO ACEITAR Q QUEM ESTÁ AO SEU LADO PODE NÃO QUERER A MESMA COISA QUE VOCÊ. Vc ama crianças a outra não e assim cada um procura um lugar de acordo com os gostos para ir. Quem quis ter filhos foi vc e não o outro. No Art. 16 mencionado está bem claro é em lugar público e não privado q entra no caso de restrições legais exatamente por ser uma PROPRIEDADE PARTICULAR. Não estão tirando o direito da criança de ir e vir de forma alguma apenas estão selecionando quem eles querem na PROPRIEDADE PARTICULAR deles. E na boa eles não vão perder clientes por não aceitarem crianças pelo contrario o lugar é voltado para um tipo de cliente específico e não pra vc q curti crianças. Vamos aceitar por favor.

  6. Mi, adorei o seu post. Me colocou para pensar bastante. E concordo com a Heloísa Noronha sobre a intolerância com crianças. Desconfio que essa intolerância seja o extrema-oposto do movimento materno exacerbado da maternidade. Quando as coisas vão para os extremos, a balança do equilíbrio fica descompensada e sempre surgem aqueles que pulam no outro lado do prato para tentar dar um equilibrada na coisa. Quem sai perdendo são as crianças e também o bom senso. Acho muito barulho da vida materna/paterna e contra a vida materna/paterna por causa de um único estabelecimento que, até agora, determinou essa regra. E, como vc escreveu, se alguém se sentiu ofendido com essa regra, que entre na Justiça para questioná-la.
    bjs

  7. A proprietária deixou bem claro que o restaurante não está adaptado para receber crianças..Caso aconteça algum acidente com certeza o restaurante sofreria um processo e seria responsabilizado por não oferecer segurança. Infelizmente há pais sim que não sabem dar limites aos filhos . Já tive que almoçar e sair rápido de um restaurante pelo simples fato de não ter paz pra fazer minha refeição devido a crianças correndo pelos corredores e até quebraram meu copo de suco ao passar correndo e gritando pela minha mesa. Para as mães magoadas o que não falta em São Paulo é restaurante.

  8. Isso realmente é uma polêmica, porém cabe a nós analisarmos os dois lados. Sou mãe de dois, um de 11 e outra de 2, já deixei de ir a vários restaurantes por saber que minha menor não pararia quieta. E me irrita muito ver crianças correndo e gritando em restaurantes. Não julgo os pais, mas precisa haver limites. Eles são crianças, mas precisam aprender que tem lugar pra tudo, e que correr no parque, na pracinha é legal, mas restaurante não é lugar de correria.

  9. Só acho que não deveria proibir, pois a criança comportada e bem educada não deve pagar pelo erro de outras, e tbém os clientes que querem fazer suas refeições sossegado acabam não voltando mais ou acaba cancelando o pedido e vai embora e o restaurante fica no prejuizo, pois procuram um ambiente agradavel e não um playgrond, a maioria das vezes culpa não é da criança e sim dos pais que não sabem educar e dar limites aos filhos, é lamentavel. Mas os restaurantes poderiam colocar uma regra, se os clientes reclamar das ações das crianças sem limite, os pais que irão arcar com a conta dos clientes que forem embora, acho que seria uma boa pois assim fica resolvido o problema, se os pais acham que seus filhos são bem educados e que eles sabem se comportar não irão reclamar.

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