Mimetismo na hora da faxina

 

E eu vivia muito bem sem ajudante. Mesmo antes da PEC das domésticas.

Até que não estava mais dando conta de vidros, azulejos e duas crianças (e roupas, e comida, e marido, e blog, e quintal, e ir ao banheiro). Tive que dar o braço a torcer e aceitar a diarista da sogra de quinze em quinze dias só para fazer o “serviço mais pesado”.

Na primeira vez, ela demorou bastante, como toda primeira faxina. Normal mamãe passou açúcar em mim.

Na segunda vez, ela demorou mais ainda. Chegou a me deixar irritada, de tanta lerdeza. Entretanto, ela ia fazendo o serviço direitinho (chegou a limpar a escada com buchinha! E eu, me achando a madrasta da Cinderela, pedi p ela só passar um pano).

Já estava decidida a dispensar a moça, até que comecei a reparar mais nela: ela quase não fala, e quando fala, mal se entende. Ao comer, tive a impressão de que ela tinha 20 dedos em cada mão, tamanha dificuldade ao se utilizar os talheres.

Se essa moça não conseguir um emprego como diarista, ela não terá chance nenhuma! Creio que nem como gari, já que é preciso passar em concurso. E longe de mim um discurso escravagista ou de disputa de classes! A questão na verdade é filosófico-social.

Então, lembrei-me de Macabéa, de A hora da estrela. Aquela nordestina imigrante, que trabalhava à exaustão, que não tinha consciência de sua existência, mas queria ser estrela de cinema. Ignorante e alienada, de informação e de emoções.

Juro que me vi nas páginas de Clarice Lispector: um pouco como o patrão que despede Macabéa, um pouco como a própria.

Aquela que busca se realizar, mas que não tem noção do que é ser, de onde está, aonde quer chegar. Simplesmente é.

Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu” cairia estatelada no chão (…) Só uma vez se fez uma trágica pergunta: quem sou eu. Assustou-se tanto que parou completamente de pensar. (…) “Essa moça não sabia que ela era o que era, assim como um cachorro não sabe que é cachorro. Daí não se sentir infeliz. A única coisa que queria era viver. Não, sabia para quê, não se indagava. (…) Sua vida era uma longa meditação sobre o nada. Só que precisava dos outros para crer em si mesma, senão se perderia nos sucessivos e redondos vácuos que havia nela. (…) Encontrar-se consigo própria era um bem que até então ela não conhecia.(…)

 

O filme é antigo e não chega aos pés da riqueza da leitura original, mas quebra um galho pro enredo

 

Se você só leu Clarice Lispector nas frases do Facebook, recomendo a leitura.

Moral da história: como Seu Raimundo, não dispensei a moça por dó. Como Rodrigo S. M., vou narrando na minha onipresença. Como Macabéa, espero não realizar meu sonho apenas na hora em que morrer.

E divaguei faxinando… Quem nunca?

 

One comment

  1. Eu amooooo Clarice, amo Macabéa…rs
    Adorei a divagação em plena faxina.
    Só você Diiirce.
    beijo

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