Filhos feios e mães que contam mentiras

feia

 

Não existe mãe que ache o filho feio.

Mãe é um bicho bobo. O filho nasce, e perde-se completamente o senso de estética: aquela criança de cara amassada, errugadinha, é a coisa mais bela de todo o cosmos. Antes de se ter filhos, recém-nascidos têm a mesma feição: a cara de joelho. E depois as crianças ficam carecas, crescem todas desproporcionais, ficam desengonçadas, banguelas, mas a mãe acha tudo aquilo lindo.

Até mesmo com outras crianças: o senso de cumplicidade entre mães faz com que elas nunca mais digam que tal criança é feia, e, se o fazem, vem uma culpa sem fim por tê-lo feito, mesmo que tenha sido só em pensamento. A maternidade nos força a ter um novo olhar sobre as crianças.

Então que o menino era uma criança bonita. E não era só para a mãe. Tinha o biotipo de criança capa de revista: cabelo cacheado castanho claro quase loiro que a mãe deixava propositalmente bagunçadinho para dar um ar de anjinho sapeca, olhos bem verdes, sorriso gostoso daqueles que quando rasgam a carinha da criança chegam a deixar os olhinhos fechados. Um encanto de menino. Além disso era educado, nada daquele tipo de criança birrenta, briguenta ou mimada.

Mas acontece que independentemente do gênio da criança e da educação provida por pais, avós, tios e mestres, todas as crianças, um dia, têm seu ataque de birra. Uns gritam, outras se jogam no chão, outros choram alto, outros combinam tudo e ainda batem nos pais.

E foi bem assim que aconteceu com o garoto e sua mãe. Estavam na fila da farmácia: a mãe com ele no colo, com a cestinha de remédios nas mãos, se contorcendo para alcançar a carteira dentro da bolsa sem deixar nada cair no chão, com a perspicácia de se esguiar das prateleiras, direção em que os braços do menino se esticavam para alcançar qualquer objeto. No menor descuido, o serzinho apanhou um frasco de desodorante. A mãe – um ser que se Darwin estivesse vivo diria que a evolução dessa espécie tende a desenvolver uns pares de braços a mais pela lei da sobrevivência – conseguiu pegar o objeto e devolver à prateleira, desviar o olhar de dentro da bolsa para os olhos da criança arteira e proferir um gélido não. Tudo em vão. No momento seguinte, ele agarra uma caixinha de pasta de dente e, por causa da falta de coordenação motora dos bebês de menos de 2 anos, acaba derrubando meia dúzia de caixas.

Pastas de dente no chão, mãe afobada tentando juntar tudo, ao mesmo tempo em que dá uma bronca na criança sem levantar o tom da voz no lugar público. “Eu falei que não podia mexer! Olha só a bagunça que você fez”. E aquele bebezinho de traços angelicais assume gestos antagônicos, grita e chora: “Quééééé!”. E a mãe solta outro imponente não. Eis que um tapa estala em seu rosto: a criança educadinha fez birra e bateu na cara da mãe no meio da farmácia.

Surgiram olhares de todos os cantos para julgar a cena, a maioria, claro, desfiando um “que criança sem limites” para si. Tanto empenho da mãe para educar a criança, e ela tem um ataque de birra caprichado e na frente de estranhos. Sem graça, sem moral, envergonhada, a mãe apoiou a cestinha na primeira prateleira que encontrou, segurou a criança no colo novamente, foi para a porta da farmácia onde teria mais privacidade e desabafou ao pequeno: “Que menino mais feio!”.

Estava ali, cravada em mármore na porta do estabelecimento, uma das mentiras que aquela mãe iria contar a seu filho. Primeiro porque o menino era lindo, segundo que, por mais desfavorecido esteticamente que fosse sua cria, jamais ela deixaria de enxergá-lo belo e formoso. Mas depois de um ataque e um tapa, uma mentira foi o suficiente para que a moral daquela mãe fosse vingada. E voltaram para a fila: a mãe de cabeça erguida, e seu feinho enxugando as lágrimas.

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14 comments

  1. Eu chamo meus pequenos de feios quando me desobedecem…
    sou feia?
    bjs

  2. Eu devolveria o tapa. Bater em mim, já é demais! Se quer chorar, vai chorar com razão!

  3. Clesia Moreira amiga, olha isso.. kkk

  4. kkkkkkkkkk… muito bom, me vi na cena

  5. Muito eu…rs
    Só que meu filho é lindo hein gente!!!!!

  6. A questão é separar a atitude da pessoa… Que coisa terrível, coisa feia, sei lá, que você fez!

  7. Olá pessoal, até parece engraçado, mas minha mãe não tirou nenhuma foto da minha irmã até ela completar 1 ano de idade, pois ela dizia que minha irmã era muito feia… kkkk. E quando nós a questionávamos ela dizia: eu sou sincera, amo minha filha, mas não posso dizer que ela é linda se meus olhos me dizem outra coisa.
    Hoje em dia minha irmã é linda, e minha mãe super orgulhosa. Hoje ninguém pode dizer a ela que somos feias…. kkkkk

    http://desaltoaltoemamadeira.blogspot.com.br/

    Beijos

  8. Feia é a atitude e não a pessoa da criança. Ensinamos em casa insistindo até a criança assimilar a educação e o exemplo de bom comportamento básicos para se viver em sociedade. Isso leva tempo mesmo, sempre teremos os showsinhos…rs. Mas se revidar o tapa como a leitora opina, educar serviria pra que mesmo? Além de ser um ato de covardia é um desserviço para a sociedade. Que Deus proteja os filhos de mães assim. Só opinião e eu fico com a minha. Mas por favor, repensem seus valores. Não existe um ato violento que seja justificável.

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