Mães de UTI: Unidas pela esperança

mães de uti

Minha gratidão às mães de UTI que compartilharam suas fraquezas, sua intimidade e nutriram minhas forças no momento em que mais precisei

De repente recebemos a triste notícia que um filho precisa ser internado numa UTI. É como se um buraco se abrisse no chão, bem na sua frente, um precipício, e você estivesse ali, prestes a cair. Mas precisa manter a compostura em nome de uma criança que precisa de você em plenas condições físicas e mentais.

Medo, desespero, angústia, sensação de impotência. Um peso maior que você pensava suportar cai sobre seus ombros. Independentemente da gravidade de cada problema, estar num ambiente de UTI é tenso, é pesado.

Mas ali somos postas. A grande maioria dos acompanhantes são as mães. Que muitas vezes precisam deixar outros filhos aos cuidados de avós e tias, precisam se ausentar do trabalho, precisam abandonar suas vidas para dar suporte a seus filhos. Nem é pelo cuidado em si – isso médicos e enfermeiros fazem melhor que a gente –, mas é pelo acalmar, pela segurança, pelo carinho que um filho sob cuidados intensivos precisa.

Então nos vemos dividindo um quarto com outras mães. Outros problemas, outras angústias, outras histórias.

Um estranho passa a fazer parte de sua rotina. Um estranho passa a ser sua companhia. Um estranho acompanha, vibra, acolhe, conforta.

Mães de UTI sabem bem o que estou descrevendo.

Tão de repente elas entram na vida da gente, mas não saem mais. Não do pensamento.

Uma experiência tão tensa que é ter um filho internado numa UTI foi dividida com outra mãe na mesma situação. Uma mãe desconhecida até então. Uma pessoa que custamos a perguntar o nome, mas de cujo filho sabemos bem o nome e o sobrenome, os problemas e todo seu histórico de saúde, pois estamos ali assistindo cada procedimento.

E ainda que nosso limite de privacidade tenha sido invadido, nossa convivência não tem o mínimo de intimidade. Dormimos e acordamos juntas, empurramos a comida goela abaixo juntas, distraímos os filhos para que a outra possa ir ao banheiro mais tranquila, observamos os pequenos rituais diários uma das outras, assistimos às manifestações de fé que antes se davam na calma de nossos lares ou nos lugares de oração. Deixamos o julgamento de lado, não ligamos para um cabelo bagunçado, ou manicure e sobrancelha por fazer. 

Tentamos esconder as lágrimas de medo e desespero, mas estando na companhia de outras mães de UTI, isso é impossível. Elas assistem à nossa tentativa de privacidade, e respeitam. Como se ali se fechasse uma cortina.

Mas são elas que fazem companhia, que animam, conversam sobre qualquer amenidade para levantar o astral. São as visitas de suas famílias que também nos visitam.

Também somos cúmplices na dor que é sair e ter que deixar um filho num hospital. Chegar em casa sem bebê nos braços, sem criança pulando. Cúmplices neste vazio. Companheiras na motivação para não desistir de ter um sorriso no rosto apesar de tudo.

E da mesma forma como fomos colocadas juntas no mesmo ambiente por dias, somos separadas. Na maioria das vezes, por um motivo alegre: a alta da criança.

Comemoramos juntas. Com vontade de abraçar e pular. Mas nos contemos, pelo medo do ridículo, pelo receio de tocar um estranho.

E ainda que o motivo da separação seja o pior, os olhares e os abraços de compaixão vêm com a mesma intensidade de um amigo de infância. Passamos os dias com medo de um filho não sobreviver, e quando o pior acontece, o medo de quem fica aumenta, o clima fica mais pesado. Mas essas mães de UTI têm o poder de transformar tudo em força para seguir em frente.

Afinal, só elas nos entendem. Só elas compreendem como é dormir sentada, como é não tomar banho em prol de um filho, como é sentir saudades dos outros filhos, como é sentir falta do abraço companheiro quando ele não está ali, como é precisar comer sem sentir fome, como a enxaqueca e dor nas costas não são tão doloridas do que ver um filho precisando estar num ambiente hospitalar.

E depois dessa experiência intensa, de caminhos que se atravessam Deus sabe porque, voltamos para nossa casa, para nossa rotina. Tentando esquecer os dias pesados que vivemos. Mas o pensamento naquelas pessoas não sai. De alguma forma, acredito que precisávamos passar por aquilo juntas.

Mães de UTI: meu mais sincero obrigada pelos olhares de motivação e compaixão, pelos papos sobre qualquer coisa, pelos sorrisos de bom dia, por olharem para o outro lado quando precisei chorar, pela força da companhia de vocês, pelos ensinamentos de fé e de união que ficaram implícitos nessa jornada.

Não sei onde estão cada uma de vocês que cruzaram o meu caminho nas duas experiências de UTI que tive, mas saibam que ainda me lembro de cada uma, de cada filho, de cada história. E torço para que nos encontremos no shopping, na praça, no parquinho… Que é onde famílias felizes devem realmente se encontrar.

Em tempo: Recomendo a leitura de Mãe de UTI – Amor Incondicional e uma visita ao site do Instituto Abrace.

 

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11 comments

  1. Amiga… que cada uma tenha tido de você as sábias palavras que sabe nos dar. E que esse aprendizado te renove, fortaleça, alimente.
    Chorei como sempre, com seus relatos mais sinceros.
    beijo enorme

  2. Chorei e vivenciei tudo de novo. Uma por causa do Arthur, cada dia desesperador, com medo, angustia. Me lembrei da Alicia, me lembrei de tudo e fiquei sem palavras… a gente entende e sabe o que sente, é mesmo um misto de companheirismo quase que silencioso…

  3. Mi, tive filho na UTI ao nascer. Depois por acidente. Por pneumonia. Por bronquite…
    O que você escreveu foi fiel ao que passa no coração de uma mar de UTI.
    Inclusive, tenho a história do nascimento do PP, no instituto abrace.
    O bom, é que tudo passa. E é sempre pro nosso bem, por pior que possa parecer.
    Lindo texto.

  4. Só quem passa sabe qual é a intensidade do local, e é verdade, msm convivendo pouco tempo, com as mães vc se lembra delas e daquele momento de superação de como eles estão, já passei duas vezes por UTI e é algo q marca.
    As pessoas não entendem o sentimento de quem passa por esses momentos, mas que nos engrandecem e nos tornam ainda mais leoas…
    Como sempre excelente texto, Parabéns!!!

  5. Hoje mencionei esse teu post numa conversa, e de como esse apoio – mesmo à distância – é importante! Sem dúvida esse post não é só um desabafo, e sim um abraço em outras mães que tenham passado pelo mesmo ♥

    Um beijo,
    Re

    • Que visita honrosa! Mais ainda de saber q fui parar no papo.
      E o poder do abraço levanta a gente nessas horas… revigora!

      Apareça sempre. De preferência num dia de postas mais divertidos 😉

      Bjos

  6. Foi mais uma provação na minha vida, mas Deus esta sempre ao meu lado.louvado seja meu omnipotente.

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