Um filme sobre partos não humanizados

vendada

Está todo mundo com aquele avatar de “eu fui” para dizer que assistiu ao documentário O Renascimento do Parto.
Mas eu não fui. E não sei quando irei.

Não me sinto preparada. Ainda que ache que ninguém nunca esteve. É como a maternidade: você acha que sabe de tudo e quando ela chega você percebe que não existe preparação para isso.

Tenho acompanhado a divulgação do filme de Érika de Paula e Eduardo Chauvet, assisti ao trailer, li algumas resenhas (aqui, aqui e aqui), e, confesso, tudo despertou ainda mais meu interesse pelo filme.

Mas depois de tantas lágrimas registradas (inclusive as minhas durantes os trechos que assisti pela web), tanto frisson nas redes, tantas mudanças de conceito, eu estou receosa em encarar a tela.

Não que eu tenha medo de mudar de opinião – até porque sempre fui muito a favor do parto normal/natural, e todas as formas mais passionais de se conceber um filho –, meu medo mesmo é do tapa na cara. Porque eu caí no conto da cesárea. Eu caí duas vezes no conto da cesárea. Eu acreditei que não tinha dilatação. Eu perdi uma filha e, temendo pela vida do bebê e minha também, eu caí no conto da cesárea pela terceira vez. Hoje, depois de muito de informar, estou ciente de minha cagada. Mas bola pra frente, que atrás vem dois filhos para a gente cuidar.

Meu medo em assistir ao filme é de tocar as feridas que eu consegui secar ao longo desses poucos anos. Meu receio é trazer à tona uma série de indagações que vão apenas remoer sentimentos que não foram esquecidos, apenas arquivados num lugar onde eu possa levar a vida mais leve.

Pisar em terras estranhas não nos traz segurança. O novo é sempre um risco, mas é preciso se arriscar para aprender.

O novo de que falo não é passar a adotar um discurso contra cesárea, de menas mãe. Falo aqui do novo no sentido de passar a carregar um peso de arrependimento dessas cesáreas não desejadas que eu não vejo me trazer bem algum. Já nasceu, já foi. Minha preocupação é com o daqui a diante.

E mesmo se vierem me convidar a levantar bandeiras, vou logo dizendo: eu sempre fui e sempre serei contra essa história de humanização do parto. Para mim é totalmente o contrário! Quando penso em humanos, penso em racionalidade, no primata evoluído, em tudo aquilo que não é divino, mas frio e calculista, cheio de antecipações. Meu parto idealizado é aquela coisa visceral, de instinto, de mamífero, com ares torpes, impulsivamamente natural.

E eu não tive essa oportunidade. Talvez não tenha buscado o suficiente, talvez tenham me tapado as vistas. Talvez eu viva esta vida sem saber o que trabalho de parto.

Entendem quando digo que não estou preparada? Não me sinto psicologicamente pronta para arrancar essa venda dos olhos.

Talvez eu esteja apenas em minha zona de conforto.

Pelo jeito, meu renascimento terá que ser a fórceps.

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12 comments

  1. Mi, me peguei pensando nisso tanto também…
    apesar dos partos normais (cheios de intervenções e ate oxitocina sintética no do Otavio), me pego pensando por que nao lutei por algo que queria. Empoderamento e fragilidade tão próximos…
    ao mesmo tempo que eu queria o parto normal e recusei cair no conto da cesárea (com o Tato), não tive condições psicológicas para brigar por algo mais natural… eu estava com medo. E isso é fato!
    Abra as feridas quando achar que vale a pena… e isso pode demorar um bocado.
    beijos
    Lele

  2. Gatinha, eu tenho o mesmo receio que você… Minha construção sobre parto foi aos poucos, principalmente pelo medo de enfiar o dedo na cara alheia, afinal entre "o certo" e "eu estou certa" existe uma distância enorme né? Mas depois de tanto estudar (no meu ritmo e do meu jeito) entendi o que precisa mudar e nenhuma mudança acontece do dia para a noite. Enquanto isso eu sigo sabendo que no momento, de acordo com o meu esclarecimento fiz o que pude pelo Joaquim e apesar de desejar um parto normal (numa possível outra gestação), não consigo bater o martelo. Existe muitos fatores que envolvem isso. Beijocas

  3. Acredito que muitas de nós temos esse temo (e é só ver os comentários já postados). Tive o Benjamin de cesárea, com 41 semanas e meio que de surpresa. Como ter cesárea de surpresa? Simplemente fui parar no PS após sair o tampão e depois de vários exames disseram que o bebê teria que nascer naquele momento. Esperei ansiosamente pelo “estouro” da minha bolsa. Sonhei acordada várias vezes com isso. Até hoje não sei se os riscos ditos eram verdadeiros. Sei que Benjamin nasceu saudável e é assim até hoje. Mas outras dúvidas ganharam espaço. Seria correto também induzir o parto normal? Sei lá, não me parece normal tb. Como disse a Fabi, no momento fiz o que me pareceu mais seguro. Era minha primeira gestação, sei que não busquei as informações necessárias, mas sei por exemplo, que meu médico seguiu a minha vontade até onde dava, em nenhum momento ele tentou me induzir fazer a cesárea, tanto que a ideia era esperar até a 42º. Mas espero, sinceramente, um parto normal na próxima vez. E além do fato de estar esperando vc para assistirmos o filme juntas (rsrs), não cobrei pq também tenho receio de encará-lo. beijo

  4. Fui! Fui com medo, mas fui… com medo de me desestruturar porque, afinal, foram duas desnecesáreas clássicas, mas o filme me libertou. Quase não chorei e um dia junto energia para explicar e dar meu parecer. Recomendo: vá!
    Bjoca

  5. Adorei!
    Sabe, tenho um post no rascunho, há meses com o nome “Você se arriscaria?” onde falo um pouco sobre isso. Hoje, todo mundo é especialista em tudo, mesmo sem diploma, são quase doutores em alguma coisa. E o que vejo é o tanto de gente especialista defendendo parto normal e nem são médicos. Porque não basta ter passado por um parto normal e ter feito anos e anos de leituras sobre o assunto pra te fazer conhecedor do assunto, né?? Passei por uma cesárea porque vivi uma situação de risco (quase morte) numa gestação anterior, e mesmo assim esbravejava por um parto normal, até o dia que minha GO disse: “Preciso que você assine um documento, já que quer evoluir com a gestação até o final.” Ela disse que faria uma cesária assim que eu completasse 38 semanas, eu não assinei, claro! E não me arrisquei, claro! Enfim… Eu queria ver o filme, chamei marido e ele disse “Não vou. Não quero que o momento mágico do nascimento da minha filha seja colocado em xeque, ainda mais que isso não poderá ser mudado!” Depois desses argumentos, nem eu quis ver mais! É isso.
    Beijos.

  6. Estamos na mesma, perdi um bebê com 7 meses de gestação pra uma infecção pulmonar pós-cesarea, até hoje tento não me atormentar e me joguei de cabeça na segunda cirurgia… ainda não tive coragem de ver o filme.

  7. Agora é moda essa parada de parto humanizado, comidinha orgânica, pedagogia montessoriana, largar o trabalho para se dedicar exclusivamente ao filho, não ter babá e nem faxineira para te ajudar… Ah! Que saco! Ninguém é menos mãe por não seguir tudo "certo". Também não tive coragem de assistir ao filme, sei que ficarei chateada de alguma forma. Meu parto foi totalmente traumático! Mas como você mesma disse… "Já nasceu, já foi. Minha preocupação é com o daqui a diante." :*

  8. Agora é moda essa parada de parto humanizado, comidinha orgânica, pedagogia montessoriana, largar o trabalho para se dedicar exclusivamente ao filho, não ter babá e nem faxineira para te ajudar… Ah! Que saco! Ninguém é menos mãe por não seguir tudo "certo". Também não tive coragem de assistir ao filme, sei que ficarei chateada de alguma forma. Meu parto foi totalmente traumático! Mas como você mesma disse… "Já nasceu, já foi. Minha preocupação é com o daqui a diante." :*

  9. Claudia Rodrigues

    Mas tem ferida que só cura quando dói. Eu fui, depois da cesarea desnecessaria (meu filho tem 3 anos) e me senti uma tonta em ter acreditado que o bb tinha passado da hora (com 41 semanas) Mas me fez refletir sobre muitas coisas pra além do parto!

  10. Eu não fui e provavelmente também não irei.
    Sou mãe de cesárea sem grandes traumas, com um outro neném a caminho (que será cesárea também) e nem por isso desmereci minha capacidade de gestar e parir uma criança.
    Apesar de todo o meu desejo de que meu filho tivesse nascido de parto normal, não deu pra mim, nem pra ele. Era risco de vida pros dois e segui feliz em ter feito uma cesárea.
    Acho que temos que ser gratos por aquilo de bom que acontece conosco mesmo que as coisas fujam do nosso controle, e parto humanizado não é uma realidade pra mim, então não vou me martirizar e me expor a desconfortos desnecessários.

  11. Super concordo. Tive as duas experiências. E apesar da recuperação ter sido super rápida, quase perdi meu filho mais velho por despreparo dos médicos que quiseram forçar o parto normal. Jorge veio de cesárea, a minha recuperação foi péssima, mas ele não sofreu nada…

  12. LINDO E MARAVILHOSO O PARTO; MOMENTO MAGICO DEMAIS.

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