Meu filho quer ser Youtuber mirim: deixo ou não?

Meu filho quer ser um youtuber mirim: e agora?

Na parede da garagem da minha casa havia uma grande lousa. Lembro-me claramente de como era pegar meus livros “do ano passado” e passar as lições no quadro negro para meus alunos imaginários. Tinha lista de chamada, preparava aulas, dava bronca, ensinava. Distribuía gibis como se fossem os livros de atividades. Tinha uns 20 alunos naquela sala de aula. Com a roupinha suja de giz, falando por mim e pelos alunos que eu criava, meu sonho de criança era ser professora.

Assim como eu, um bom tanto de crianças tinha esse sonho nos anos 80. Outros sonhavam em ser médico, advogado (mesmo sem saber o que um advogado fazia), engenheiro, secretária, bailarina, bombeiro, astronauta. Crescemos e tomamos rumos profissionais bem diferentes, na maioria das vezes. Conta-se nos dedos quem conseguiu seguir a profissão da infância.

Num conversa com meus filhos sobre futuro, impressiona-me ver como a perspectiva profissional das crianças mudou. O mundo mudou, a forma de vê-lo também, logo, nossos filhos sonham em ser cantor, jogador de futebol, atriz, modelo e youtuber. Se antes um médico, uma secretária denotava certo aporte financeiro e social, hoje são as celebridades que ganham notoriedade. Isso me preocupa um pouco, pois vejo uma condição muito rasa nessas profissões. Não desmerecendo quem se dedica e estuda para chegar lá, mas a banalização do ser famoso me deixa bastante desconfortável, principalmente em relação a meus filhos.

Quero ser youtuber, mãe!

O tempo voa, e nossos filhos têm pressa em conquistar seus sonhos. Imediatistas, querem começar um canal hoje, sonhando em ser rico e famoso, como os irmãos que compram mansões e abrem lojas de coxinhas num piscar de olhos, ou as meninas que lançam livros, clipes, linhas de produtos. Não é preciso diploma: um celular na mão e uma ideia na cabeça bastam. 

Isso me intrigou muito e fui procurar dois especialistas para pesar os prós e os contras dos youtubers mirins.

Meu filho quer ser um Youtuber mirim: Isso é bom ou ruim?

Para criar e administrar um canal no YouTube, o jovem precisa de uma certa habilidade. Embora seja um processo tranquilo, subir um vídeo demanda tempo e uma boa dose de macetes para ser visto. A quantidade infindável de truques e dicas para youtubers brota como o sonho de ser famoso. Esse interesse pelo digital, trabalha no jovem noções de processamento de dados e uma dose de marketing digital. O raciocínio lógico ferve, bem como as relações pessoais interdigitais. Um baita aprendizado que se inicia num projeto com metas e objetivos.

Já existem no mercado cursos para os jovens aprenderem a gravar, editar e publicar seus vídeos. “O curso de Youtuber tem muitos benefícios que vão além de ensinar como gerenciar um canal, como, por exemplo, ajuda a melhorar na dicção e na versatilidade do aluno, aumenta a capacidade de organizar os pensamentos e auxilia a expor com efetividade suas emoções. Essas são habilidades que ele aplicará dentro e fora do canal”, explica Bruno Fernandes, professor da Happy Code.

Vendo por este ângulo, ter um Youtuber mirim em casa é bastante enriquecedor. Seria, se não estivéssemos falando de internet e redes sociais e todas as consequências de uma exposição digital.

A professora e filósofa Tânia Zagury, autora dos livros “Limites sem trauma”, “Educar sem culpa” e “Os novos perigos que rondam nossos filhos”, diz que os pais precisam conversar muito com os filhos e quebrar o paradigma de que todo youtuber é famoso. “As celebridades ligadas à web são muito poucas, e os jovens têm a falsa impressão de que basta terem um canal para ficarem famosos”. Além disso, ao publicarem sua imagem na web, os jovens e crianças estão expostos a elogios, críticas, comentários maldosos, bullying, e muitas vezes eles não estão preparados para lidar com essa exposição.

A frustração é um outro ponto a ser considerado. Na maioria das vezes, o canal para criança não vai ter a repercussão que se espera e aí ela terá que lidar com esse fracasso. Mas uma das coisas que mais preocupam a autora Tânia Zagury é a questão da idade. A idade mínima para utilizar a plataforma segundo a política do YouTube é 13 anos, entretanto, os filhos estão burlando essa regra com a ajuda dos pais, para poder ter seu próprio canal para crianças. “Na medida em que os pais burlam uma regra, eles estão mostrando aos filhos que é possível não seguir regulamentações, e isso é um péssimo exemplo em termos éticos”, afirma. 

Se seu filho tem interesse em ser um YouTuber, é preciso conversar bastante, explicar os riscos e mostrar as desvantagens. Crianças pequenas não são capazes de assimilar as consequências de ter um vídeo publicado que nunca mais irá ser apagado (por mais que se tente, as pessoas podem ter cópias dos vídeos e republicá-los). Como já expliquei num outro post, a imagem dos filhos é de total responsabilidade dos pais, que devem zelar e cuidar dessa integridade.

Se seu filho tiver idade para utilizar a plataforma e tiver real interesse em ter seu canal (uma boa e longa conversa sobre expectativas, riscos e habilidades é imprescindível), os pais ainda precisam ter alguns cuidados:

  • Repense o desejo do canal: partiu do seu filho ou foram os pais que semearam esta ideia na criança?
  • Sempre acompanhe o que seus filhos estão postando na internet, pois uma vez que o material é divulgado, ficará para sempre na rede ( e isso vale para qualquer rede).
  • Analise o material que será publicado e caso tenha algo inapropriado, ao invés de proibir, converse e ajude seu filho a entender os riscos que a exposição de determinado conteúdo pode acarretar. Dessa maneira, você o estimula a pensar no que está divulgando.
  • Entenda o que seu filho que divulgar: ter um canal simplesmente por ter, por que todo mundo tem, não é uma lógica correta.
  • Estimule seu filho na criação de vídeos, se perceber que o canal está sendo uma ferramenta de avanço no seu desenvolvimento. Interaja e sugira temas, mantendo seu filho sempre animado e determinado.
  • É normal surgir um desânimo depois de alguns vídeos postados, por isso a importância de acompanhar todos os passos e nesse momento, é fundamental a geração de auto-estima em seus filhos. Lidar com o fracasso é inevitável para qualquer um que publique vídeos, iniciantes ou youtubers com certo prestígio.
  • E lembre-se: tudo que é em excesso é prejudicial. A criança deve compreender a necessidade de equilibrar seu tempo entre virtual e real, sem que haja prejuízos acadêmicos e/ou sociais.

O Youtube é uma plataforma muito democrática em que qualquer pessoa pode ser produtora de conteúdo. Muita coisa interessante pode ser acessada por lá. Mas por ser uma plataforma acessada por milhões de usuários, é preciso muita cautela. Você não deixaria seu filho subir num palco e fazer qualquer coisa. A gente se preocupa se ele estará seguro, se saberá lidar com o fracasso, se saberá lidar com os aplausos e as vaias, se saberá lidar com a fama se ela ocorrer. Não é só postar por postar. O vídeo, uma vez postado, não é mais controlado.

Na dúvida, não poste. Na dúvida, enrole, e deixe o canal para mais tarde, até que seu filho e você estejam preparados.

Participaram deste post:

Tânia Zagury, Professora Adjunta da UFRJ, Mestre em Educação pela UFRJ, Filósofa, Palestrante e Escritora com 32 livros publicados no Brasil e no exterior.

Bruno Fernandes, professor da Happy Code, uma escola de tecnologia e inovação voltada para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos. Oferece  cursos interativos de programação de computadores, robótica com drones, desenvolvimento de games e aplicativos, além de produção e edição de vídeos para o Youtube.

 

Check Also

O melhor canal para mães no YouTube

O melhor canal para mães no YouTube está de volta!

Cheia de bom humor, diiirce está de volta com seu canal para mães no YouTube …

Deixe uma resposta