Um mar de emoções com a Família Schurmann

familia schurmann

Heloísa, a mãe da Família Schurmann, que mora num veleiro, conta como é ser mãe e dona de casa em alto-mar

Há quase 30 anos, essa mãe embarcou num sonho: dar a volta ao mundo num veleiro ao lado da família. Desde então, o sonho virou rotina, e o hobby de escrever virou profissão. Coragem, paixão, atitude são algumas das palavras que podem definir Heloísa Schurmann, mas mãe e dona de casa também!

Numa entrevista exclusiva ao blog diiirce, a matriarca da Família Schurmann conta que colocou os filhos para ajudar nas tarefas de casa desde cedo, fala como é cuidar de um barco (nada de vasinho em cima da mesa!) e desabafa sobre os momentos em que precisa estar sozinha para descansar a mente, mas está”presa” com a família num veleiro em alto-mar.

diiirce | Como é a rotina familiar num barco? Não existe aquela correria do acordar à hora de dormir? É preciso um roteiro para não se perder nas atividades?

Partida Expedição Oriente - Família Schurmann - Foto de Eduardo Talley 1
Imagem: Divulgação Família Schurmann

Heloísa | Oi, Milene. A rotina é semelhante à de uma casa tradicional, mas, claro, com alguns diferenciais. Há 32 anos, quando partimos para a nossa primeira volta ao mundo, adotamos o sistema de divisão de tarefas. Todos ajudando nas tarefas (rs). Minha mãe costumava dizer brincando que ia chamar o juiz de menores (na época, o que hoje seria o conselho tutelar) para dar queixa porque eu fazia meus filhos pequenos trabalharem limpando o barco e cozinhando (Heloísa, você precisa ler esse post sobre as crianças ajudarem em casa). Naquela época, isso não era muito usual, principalmente, numa família formada por uma única mulher, (no caso, eu) e três homens (Vilfredo e nossos filhos Pierre, David e Wilhelm). Hoje em dia, essa divisão é mais usual, né? Inclusive, contando com a participação dos homens nas tarefas de casa. Outro diferencial importante é que nossa rotina a bordo envolve 24 horas de atividades por dia. Temos sempre um tripulante de plantão para a nossa segurança, principalmente, quando passamos as noites em alto mar. Dependendo de onde estamos, precisamos esticar as horas para manter nossa comunicação com a equipe da base terrestre. O veleiro é nossa casa, nosso meio de transporte e parte operacional do nosso trabalho. Todos têm suas funções tanto na manutenção da “casa” como nas atividades de produção de conteúdo, como o material que é exibido mensalmente no Fantástico ou a série que será exibida, em breve, pelo canal National Geographic para toda a América Latina. E você acertou: temos sim um roteiro de atividades bem estruturado, com as tarefas da casa e de trabalho definidas e organizadas. Temos uma lista na cozinha (quem lava os pratos e limpa a cozinha e dentro do barco, por exemplo). Também temos as atividades de manutenção e limpeza dos banheiros, divididas entre a tripulação. E até para a máquina de lavar tem a escala de dias que cada um lava, seca, dobra e guarda as roupas. Afinal, a expedição é um constante trabalho de equipe. E olha: tem dias que essa equipe corre de um lado para o outro, num ritmo alucinante e em sincronia (rs).

 


diiirce | Faxina no veleiro: em casa nos preocupamos em varrer chão, tirar pó, limpar vidros, lavar banheiros. E num barco, quais as atividades que são semelhantes a uma casa e quais as exclusivas de um veleiro?

Heloísa | A bordo também é assim! Veleiro sempre limpo e em ordem. É uma questão de higiene e até mesmo segurança. Igual a uma casa. Não pode deixar nada largado e espalhado pelo quarto/cabine, por exemplo. Sem vem um vento forte ou um mar agitado pelo caminho, aquela peça solta pode ser arremessada e machucar alguém. Entre as diferenças, podemos dizer que fazer limpeza com a cozinha balançando nada tem a ver com a cozinha da casa (rs). Mas, talvez, as principais diferenças sejam os produtos utilizados para a limpeza. Utilizamos biodegradaveis, adequados ao material que compõe o veleiro e à “faxina” externa de manutenção da embarcação. Ah! Claro, dependendo da situação, pode ser que alguém tenha que mergulhar para “faxinar” o leme para retirar algo que tenha agarrado e esteja atrapalhando a navegação.


diiirce | Como é feito o descarte do lixo no veleiro: o reciclável é descartado quando o barco chega a portos, mas e o lixo orgânico? Existe uma preocupação na hora da compra com relação ao descarte?

Heloísa | Um dos destaques da Expedição Oriente é que essa é uma aventura altamente sustentável. Essa é uma questão relevante e presente desde o princípio, na concepção do projeto. Para a Expedição Oriente, decidimos construir um veleiro novo, o Kat (nome escolhido para homenagear nossa filha caçula). Foram dois anos e três meses trabalhando na construção de uma embarcação inovadora. Nosso veleiro é equipado com um sistema de geração de energia limpa, por meio de eólicos, painéis solares e dois hidrogeradores. Além disso, graças à parceria com a Solví (uma das patrocinadoras, ao lado da Estácio e da HDI Seguros), a embarcação tem um sistema de tratamento de esgoto, e o lixo orgânico vem sendo reaproveitado utilizando um equipamento especial para produção de adubo em forma de pequenos tijolos. Também temos um compactador de lixo a bordo. Nosso objetivo, desde o início, era fazer do nosso barco um microcosmo autossustentável. E este é mais um sonho que conseguimos transformar em realidade. Milene, essa questão é muito séria. Já revistamos lugares pelos quais havíamos passado outras vezes e a devastação é nítida. E as consequências do consumo exagerado e do descarte inadequado de lixo ficaram ainda mais evidentes quando chegamos, no início deste ano, em uma ilha deserta. Apesar de isolada e inabitada, lá no meio do Pacífico, essa ilha tinha uma quantidade absurda de lixo. Recolhemos tudo, compactamos e fizemos o descarte correto em outra parada. 

Veja o vídeo em que a Família Schurmann encontra lixo numa ilha deserta. É impressionante!


família schurmann
Imagem: Divulgação Família Schurmann

diiirce |  Você se considera uma dona de casa?

Heloísa | Opa! Com certeza! A bordo, sou muitas. Como digo, sou bela (que pretensão. rs), aventureira e do lar. Sou mãe, esposa, avó, dona de casa/barco, professora, pesquisadora, marinheira, aventureira, desbravadora etc. Quando partimos para a nossa primeira volta ao mundo, nossos filhos tinham 7 (Wilhelm), 10 (David) e 15 (Pierre) anos. Depois, foi a vez de viajar com nossa pequena e doce Kat. Agora, temos um garotão a bordo: nosso neto Emmanuel, o primeiro representante da terceira geração Schurmann a embarcar em uma aventura como essa. Impossível não cuidar da “casa” com carinho e entusiasmo. Existem limitações, claro. Não se pode colocar qualquer objeto para decorar. Mas existem soluções. Nossa árvore de Natal, por exemplo, é um lindo recorte de tecido, aplicado na parede da sala, junto com enfeites confeccionados da mesma maneira. Nosso neto Kian tinha vindo nos visitar e, juntos, montamos nossa árvore particular.


diiirce | Como se cuida das roupas num veleiro? Como se faz a lavagem, como se seca?

 Questão importantíssima. Principalmente, porque não temos grandes closets a bordo. Nossa bagagem é limitada ao necessário. Não temos tantas opções de roupa assim. E não penduramos nada. Tudo fica dobrado no armário. Então, as poucas precisam estar sempre em ordem, bem limpinhas. E olha que a gente se enfia em cada aventura capaz de sujar (e muito) nossas roupas (rs). Temos uma máquina de lavar /secar a bordo. Nossa casa é flutuante. Nosso quintal é feito de água. Água salgada, né? Mas lavamos com água doce, “feita” pelo nosso dessalinizador, um aparelho que transforma água salgada em água doce. Para secar, sempre que possível, muito sol e o mesmo vento que movimenta as velas e nos leva milhas e milhas.


diiirce | Quando estamos cansadas de cuidar da alimentação, apelamos para um delivery, vamos a um restaurante. E num veleiro, como é que isso é possível?

Helísa | Simplesmente não é (rs). Mas é um processo muito legal! Peixes frescos pescados na hora, frutas e mais frutas colhidas no pé, além dos itens comprados em destinos com mais estrutura.


diiirce | Com a rotina puxada do dia a dia com crianças em casa, muitas vezes as mães precisam dar uma volta para esfriar a cabeça e voltar para o batente. Estando em alto-mar, como é possível “dar uma voltinha”?

família schurmann
Imagem: Divulgação Família Schurmann

Heloísa | Por incrível que possa parecer, SIM! É possível (rs). Eu saio discretamente do interior do veleiro, deito no deck e contemplo o céu estrelado. Ou medito diante de um pôr do sol deslumbrante. Ou mergulha num mar tão azul que parece pintura. Depois de uma dessas atividades, te garanto que a gente retoma o batente com a cabeça fria e a alma lavada. E, quando estou em terra, arrumo um momento para dar uma volta e encontrar um lugar para conhecer ou passear.


Heloísa, foi um prazer enorme entrevistá-la. Saiba que depois desse nosso papo te admiro ainda mais, por ser tão guerreira e ser o coração de uma família tão especial, tão unida, tão corajosa! Feliz Dia das Mães para você, que representa como ninguém esse papel tão plural da mulher.

Família Schurmann - Foto de Divulgação - Luciano Candisani
Imagem: Luciano Candisani

A família Schurmann foram os primeiros brasileiros a dar a volta ao mundo de veleiro, cruzando os 3 oceanos e 7 continentes do planeta. A aventura toda começou em 1984, quando deixaram a segurança da vida em terra firme e foram em busca de um sonho vivido em família.

Heloísa, a supermãe dessa família, é graduada Professora de Inglês pela New York University com especialização na área de Pedagogia. Ela educou os quatro filhos nas duas expedições de volta ao mundo da Família Schurmann. Pesquisadora, é responsável pelo conteúdo dos projetos globais e autora dos diários de bordo nas viagens. Também é escritora, autora de três best-sellers nacionais e publicou recentemente o livro “Pequeno Segredo”.

No dia 21 de setembro de 2014, a Família Schurmann partiu de Itajaí (SC) para uma aventura inédita de volta ao mundo a bordo do veleiro Kat, que combina tecnologia de ponta e soluções de sustentabilidade. Esta expedição tem pela primeira vez a presença de um tripulante representante da terceira geração dos Schurmann: Emmanuel, filho de Pierre e neto de Vilfredo e Heloisa.

Confira as aventuras da Família Schurmann no site da Expedição Oriente (lá você vê fotos em tempo real, manda mensagens numa garrafa, acompanha o diário de bordo e ainda pode se divertir com um jogo)

 

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4 comments

  1. Coisa linda de post e entrevista ne?
    Ela surpreende em cada faceta da sua personalidade/vida
    amei fazer parte da coletiva e ler o seu viés!
    beijos
    Lele

  2. Que bacana esse olhar da casa! Adorei a parte da faxina!!! Dai que me pego pensando que a gente reclama muito… Me pareceu que no barco é mais complicada a rotina prática de manutenção do lar… 🙂
    Mas Heloísa é um show de mulher e nos mostra como tudo é possível né?
    Beijos nas duas!

  3. Diiirce, amei a entrevista. Surpresa com a vida que ela optou por ter. Heloisa é realmente uma pessoa especial.

  4. O melhor é que em cada entrevista foi focada na personalidade e no jeito de cada blogueira em lidar com o dia a dia, experiência de vida e assim conhecemos muito da Heloísa. Uma mulher fantástica e com uma história maravilhosa.
    Amei o post Mi.
    😘😘😘

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