Empoderamento e Parto Cesáreo: um tabu

power

 

É possível vivenciar o empoderamento sem parto natural? Não só as mulheres que têm um parto normal podem se considerar empoderadas.

Vamos falar de polêmica: o tal do empoderamento.

Palavra bonita, forte, muito utilizada nos contextos do feminismo, do ativismo em prol das mulheres. Por séculos, a mulher foi tratada apenas como reprodutora e cuidadora dos lares. Com o passar dos tempos, o papel feminino na sociedade foi atingindo níveis cada vez mais ativos, ainda que esteja aquém do patamar idealizado.

Votamos, trabalhamos, opinamos, mandamos, mas ainda enfrentamos obstáculos no estado, na igreja, na sociedade em geral. Não vim aqui defender a igualdade dos direitos, a legalização do aborto, o fim da misoginia. O papo hoje tem mais a ver com meu momento atual: gestação e parto.

Muito se fala daquele tal do empoderamento feminino que aflora na gestação e desabrocha num parto ativo. Tudo muito humanizado, natural, instintivo e realizador. Na prática, o empoderamento nesse contexto é bem mais complexo. Vivi isso na pele.

Na gestação do meu filho mais velho estava ciente de que queria um parto normal, mas a falta de contato com um profissional humanizado, a falta de informação a respeito, e todos os outros tabus da cesárea desnecessária, me fizeram entrar num centro cirúrgico em data estabelecida pelo médico.

A gestação seguinte não me tirou o sonho do parto normal, mas sei que caí no conto do obstetra mal intencionado. E fui eu pro centro cirúrgico novamente. Desta vez, numa experiência terrível.

Já na gestação da filha mais nova, o medo de passar por todo aquele sofrimento me fizeram optar pelo mesmo médico, afinal, ele já tinha “me aberto” outras vezes, e seria muito cauteloso sabendo de meu histórico de vida.

<<Um filme sobre partos não humanizados>>

Na gestação atual, pude perceber o quanto fui vítima desse sistema falho da saúde da mulher no nosso país. O médico q fez minhas outras cesáreas anteriormente me botou medo, falou muito na laqueadura, e botou um ponto final na nossa relação médico-paciente. Nunca mais voltei nele depois da falta de tato e de atenção ao me dizer que eu poderia morrer, que o bebê corria risco, enquanto eu sabia que não era bem assim.

Fui atrás da quebra desse ciclo. Busquei profissionais humanizados que pudessem me conceder o tal do momento do empoderamento. Mas para fugir do sistema, além de coragem e determinação para passar por cima da opinião da maioria das pessoas que se preocupam com você, você também precisa de um bom aporte financeiro para garantir seus cuidados. Resumindo: o parto humanizado é mais simples para mães de primeira viagem, de uma só cesárea e olhe lá. De resto, já era! Você está fora da panelinha.

De início, a sensação de fracasso que tive me desanimou muito. O tal do empoderamento, da imagem da mulher forte e madura rasgando a pele da mocinha ingênua grávida tinha se dissolvido bem diante dos meus olhos.

Então me vi desamparada: de companheiro, de médico, de familiares, de amigos… Eu jamais poderia ter a força da mulher que pariu sozinha no chão na cozinha de casa!

O choro e as lágrimas de derrota acabaram por limpar minhas vistas e me fizeram enxergar o que é o tal do empoderamento.

A mulher que tem a fibra e o apoio para parir por vias normais pode sentir seu poder ali no hora do empuxo, no orgulho de botar um filho no mundo.

A mulher que tem um filho por cesárea por motivos diversos – da falta de informação, ao medo, a complicações – pode muito bem encontrar outros momentos para viver seu poder. Não é porque ela teve um parto cesárea que não poderá sentir-se uma mulher potente.

Só agora me caiu a ficha que meu empoderamento veio quando me vi sozinha em casa com meus dois filhotes, no dia em que recebi alta da maternidade. Fiz comida, alimentei, amamentei, comi, coloquei-os para dormir e descansei. Naquela hora me senti poderosa! Tal qual a mãe que sentiu o círculo de fogo.

E o empoderamento pode ser vivido mais de uma vez. Acredito que o meu novo empoderamento tenha sido agora, quando decidi que o parto desse filho que gesto será pelo meio mais sensato quando tenho dois filhos para cuidar e um a caminho. O capricho de querer fazer parte da rodinha das mulheres bem informadas pode por em risco a minha vida, a do bebê e o bem estar de minha família.

Empoderar-se é deixar-se sentir o poder de algo que não temos o controle.

Empoderar-se não é ter o controle das coisas na sua mão, mas apenas ter consciência de suas escolhas.

Empoderar-se é estar certa do que se quer.

Check Also

Como fica a memória das mulheres antes e depois dos filhos?

Eu tinha uma excelente memória, até o dia em que troquei o nome dos meus …

27 comments

  1. Lindo texto. Eu senti muito essa sensação. Queria muito, muito, mas muito mesmo ter meu filho de parto e fiz o que pude pra isso, mas não foi possível e tive que fazer cesárea. Confesso que ainda sou um pouco 'frustrada' por não ter parido, mas quem sabe na próxima…

  2. Forte… Mas lindo!!!

  3. Adorei esse post!
    Fiz 3 cesareas por escolha e consciente do que eu estava fazendo, não me sinto menos mãe ou meus partos foram menos emocionantes por isso.
    Ter um filho é mais do que um momento ou do que a escolha pelo tipo de parto.

  4. Isso mesmo, Mi. Quem sabe o que quer tem o poder da decisão em sua mão. Parabéns. Texto lindo!

  5. Lindo texto. Eu senti muito essa sensação! Eu Queria muito, muito, mas muito mesmo ter meu filho de parto e fiz o que pude pra isso, mas não foi possível e tive que fazer cesárea.
    Antes e durante a gestação eu achava que ter filho de cesárea me faria menos mãe que as mães que 'pariram' seus filhos. Eu não fiz cesárea por opção (até por que pra mim não era uma opção, eu não queria de jeito nenhum!) eu tive que fazer porque foi melhor pra ele.
    Hoje eu penso diferente… Não me sinto 'menos mãe' por não ter parido. Tive uma experiencia desagradável com a cesárea, desde a anestesia até a recuperação. E a minha sensação de empoderamento veio ao superar 34 dias de dor constante e forte ao mesmo tempo que meu filho ficava na UTI Neo e eu tinha que lidar com minha frustração de não conseguir amamentar, de não conseguir me mover direito por causa da dor, de ter que sair daquele hospital sem meu filho nos braços… entre tantas outras coisas que passei na época. Eu superei tudo, e hoje é a lembrança de uma coisa que eu passei e venci.
    enfim, eu concordo veementemente com o texto, e acho que nós mulheres somos muito fortes e suportamos coisas que jamais pensamos que poderíamos suportar, principalmente no que diz respeito a nossos filhos e nossa sensação de poder sempre acaba vindo a tona, de uma forma ou de outra.

  6. Ótimo texto! Tive um filho por cesariana por opção, realmente era o que eu queria e não me senti e nem me sinto menos "poderosa" por isso.

  7. Você está empoderdíssima, e não é de hoje!
    Fique tranquila e vamos em frente!!
    beijao
    Le

  8. Dirçoquinha, o parto é uma parte do processo. Nós somos “meio” e não fim. Fazemos parte de um plano bem maior. Acho estranha a visão de que poder vem com a forma de parto, aliás, acho triste reduzir a maternidade a isso. Porém, cada um está num momento da estrada, cada mãe tem mais ou menos amor pelas outras. As vezes exala parto natural e sobra agressividade… conta que jamais fecha na minha cabeça. Você tem que cuidar de três crianças, acho prudente não trocar tudo pelo empoderamento teorico do momento (aliás, você sabe o que penso). Seja consciente com toda a linha da sua vida, seja responsável com a tua realidade. Eu queria morar em Paris e ir para a Costa Amalfitana todo mês, mas….Amei o texto! beijo

  9. Milene, tinha escrito com o celular e na hora de postar sumiu rsrs

    Aconteceu comigo situações parecidas, nessa ultima gestação passei por 4 obstetras e voltei para a mesma que fez meu pre natal do meu segundo, ao menos ela me tratava como pessoa e tinha interesse se minha família estava bem ou não…

    Passei por 3 cesáreas, mas percebi que o empoderamento existe em diversos momentos no meu dia a dia, sabe qdo consigo ir com os 3(lembrando que tenho praticamente 2 bebes de colo, pq o joão tem atraso na coordenação motora e ainda não tem segurança em andar sozinho) no supermercado/shopping e comprar tudo o que precisei, sem sair da linha. Ou qdo mesmo amamentando, consigo ordenhar e ajudar outros bebês… e qdo consegui amamentar meu terceiro ainda na maternidade e o leite desceu no segundo dia, já não era mais o colostro.
    Sem dizer que tem mães que são empoderadas na hora do parto, mas não amamenta, terceiriza o filho, e por ai vai. Se engravidar do 4º filho um dia, pq não fiz laqueadura(outra coisa que a ginecologista tentou me enfiar guela baixo) e acho que até os 40 anos terei saúde pra mais um.
    Bjss

  10. Legal o artigo. Tive meus dois filhos de cesárea, indicação médica, pois o primeiro não entrei em trabalho de parto e o segundo estava sentado, para ser sincera quando fiquei grávida nem pensei se seria cesárea ou parto normal, o que queria é que meus filhos e eu estivéssemos bem, com saúde. O poder da mãe vem do amor que sentimos pelos nossos filhos e pela gestação que vivemos até o seu nacimento… O dia-a-dia dá o poder de ser mãe…

  11. Arrasou! Texto lindo mas sobretudo real!

  12. Bruna Carla Cerri Cunha

    Obrigada por ter escrito esse texto! Vi que não fui a única que ficou excluída da rodinha. Tive 7 hrs de TP, 10 cm de dilatação, mas meu bebê quis nascer de cesárea. Infelizmente rola o preconceito e eu, que já estava sensível pelo pós parto, fiquei pior ainda pela exclusão. Mais uma vez, obrigada por compartilhar sua história conosco! O melhor parto é realmente o melhor para mãe e bebê, independente de qual for! Grande beijo

  13. Que bom ler isto hj…acho que me sinto empoderada todos oa dias! #chorei

  14. Eu tive meu filho por um parto natural eletivo e não sou menos mãe por isso.
    Empoderar-se, nada mais é do que tornar-se dona do poder de decisão. A escolha precisa ser sua.
    "A panelinha" não quer que ninguém seja obrigada a parir, só quer que ninguém passe pelas suas 2 primeiras experiências de ter o parto roubado.

  15. Exelente reflexão! Cada um sabe de si.

  16. Poderia ter concordado plenamente se no texto não houvesse termos como panelinha e Rodinha, e se ele não mencionasse de maneira ta rasa a questão do valor que se paga por uma equipe humanizada.
    No mais concordo, o empoderamento não está no sentir o circulo de fogo ou vivenciar um parto natural, mas em fazer suas escolhas de maneira consciente e bancar essas escolhas.

  17. Tive as 2 experiências, 14 hotas de trabalho de parto natural, ser protagonista é tudo de bom, depois 5 minutos de cesárea sem emoção nenhuma, muito frustante, mas a maternidade não se resumo somente ao parto…

  18. Linda vc

  19. Nem menos mãe, nem mais mãe. Não importa o tipo de parto. Não importa o que te falaram ou o que te induziram a fazer. Cesárea ou normal, o poder está na mulher que consegue assumi-lo. Poder é colocar nossos filhos no mundo e amá-los sem medidas, incondicionalmente. Num mundo em que muitas "mulheres" jogam seus filhos em lixeiras, lagoas, etc., empoderamento é ser capaz de fazer-se nascer mãe junto com seu filhote!

  20. AFF!! OBRIGADA! precisava de um texto assim, chega dessas hippies nazis do inferno ficarem ditando quem são e quem não são mais mães ou #menasmain como elas gostam de zombar de quem fez cesárea. Também senti esse empoderamento quando me vi com casa, filho mais velho, marido e recém nascido para cuidar, tudo isso apenas uma semana após operada pq não obtive a ajuda que precisava… Parabéns!

  21. Perfeito! Parabéns a você pela coragem de expor abertamente seus sentimentos. E se prepare para o bombardeio de ativistas dizendo que “vc não sabe de nada, inocente”. Que o que está passando não é empoderamento e etc.

  22. Falou bem..passei por isso ..tenho amigas que sofreram muito no parto normal ,e. Falou que o próximo será cesariana….aquelas piadinhas quando Vc chega e fala que foi normal..e péssimo mas tive um recuperação melhor que pessoas de parto normal…continuo me sentindo uma leoa…

  23. Minha médica e todos os profissionais que me acompanham na gestação sempre dizem que o melhor parto é aquele que é melhor para a mãe e o bebê. O tipo de parto não define o que é ser mãe/ mulher.

  24. Gratidão imensa a vida, a Deus e a vc por ter escrito esse texto q agora leio. E leio no momento certo da minha vida.
    Terei q fazer uma cesaria do meu segundo filho pois está sentado, meu primeiro foi parto normal.

  25. Lindo texto. Eu mesma não sei se conseguiria ter um parto humanizado, sem que tudo conspirasse a favor, tipo marido, família, amigos, uma pessoa de confiança para acompanhar tudo…
    Empoderamento vai além de algo que desejamos ou planejamos, é o dia-a-dia ali, cuidando e criando nossos filhos…
    Amei seu texto, parabéns.
    Bjs
    Ju
    http://www.maesemfronteiras.com.br/

  26. Adorei seu texto. Eu quis muito o parto normal, mas não deu. Minha bebê era enorme (mais de 4kg e 51,5cm) e eu não entrei em trabalho de parto. Já estava com 41 semanas, e quando o obstetra falou que àquela altura o PN sem complicações estava ficando com margens cada vez menores, poderia ser bem sofrido, tanto para mim quanto para a minha filha, pois o bebê era grande, e que possívelmente poderia ter que se fazer do uso de fórceps, eu decidi pela cesariana, e ela não foi menos “humanizada”. Amamentei ainda na sala de parto.

    Graças a Deus não tive maiores complicações com a cirurgia (que eu morria de medo, mais que o PN), e brinco que senti a dor do parto no outro dia pela manhã (minha filha nasceu a noite) quando me fizeram levantar da cama, tomar banho e sentar em uma poltrona baixa.

    Tenho esperanças de poder ter um segundo filho de parto normal, mas não me sinto menos mãe porque acabei fazendo a cesariana. Acho que foi a decisão que resguardava melhor o bem estar de ambas, e faria esta opção de novo se fosse o caso.

    Acho que você está certíssima, empoderamento como mulher já é gerar e cuidar de um filho ou mais, da casa, trabalho, marido e ainda encontrar espaço para continuar sendo a gente mesma, e sentir que está fazendo um bom trabalho.

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: