Porque ser dona de casa não me faz menos feminista

dona de casa feminista 

Escolher ser dona de casa é acreditar nos valores feministas

Enquanto eu pendurava as roupas no varal, pensava no que estava fazendo ali, em casa, com as crianças. Eu, mulher pós-graduada, que gosta de se informar, com espírito de liderança, e mais uns outros atributos que fazem a diferença numa entrevista de emprego, agora estava me dedicando apenas às atividades do lar.

Fracassada, desempregada, fútil, e mais outros adjetivos podem vir à mente de quem ouve o termo dona de casa. Muito embora não tenha me acostumado ao título (como disse nesse post – Dona de casa agora é CEO em atividades materno-domésticas), o ofício em si já foi entranhado em mim, e não sei se gostaria de voltar ao mercado de trabalho. Penso em quando meus filhos ficam doentinhos, carente de colinho, e, se eu estivesse trabalhando fora, não poderia aconchegá-los. Ou quando um deles aprende uma nova modalidade de cambalhota e quer dividir comigo a conquista e, se eu estivesse fora de casa, não poderia parabenizá-lo e incentivá-lo a ir um passo adiante.

Há algumas décadas, umas moças botaram fogo em seus sutiãs (e outras foram queimadas numa fábrica mesmo), sinalizando o primeiro passo na luta das mulheres pela igualdade de direito entre os sexos. No trabalho, na política, na economia, na sociedade de um modo geral, as mulheres desde então vem buscando seu valor. E o serviço de casa, que antes era delegado unica e exclusivamente a mulheres passou a ser não também dos homens, mas de outras mulheres (!?), veja só. Não vejo muita lógica nesta premissa, mas acabou que a briga pela igualdade dos gêneros fez a mulher se sobrecarregar, na verdade.

Talvez uns anos atrás, minha posição como dona de casa seria um ultraje ao feminismo. Eu deveria me levantar todos os dias e encarar a dupla jornada. Mas, pensando bem, se queremos igualdade entre os sexos, cadê a dupla jornada dos homens? Já demos um passo muito grande, ao exigir que eles nos ajudassem em casa, mas ainda são raros os casos de homens que se responsabilizam pelos serviços domésticos, pela educação das crianças. O peso do mundo, minha gente, ainda cai sobre as costas e o salto da maioria das mulheres. A eles cai o peso no bolso, já que os salários continuam desiguais. O homem que tem filho e trabalha, acaba recebendo um aumento para o sustento da família (ainda existe isso?), e a mulher que tem filho e trabalha fora recebe descontos na folha de pagamento pelas faltas constantes para cuidar dos pequenos.

Leia também: Afinal, o que é ser dona de casa?

Mas cá estou eu, varrendo o chão da casa, me perguntando se não estou traindo minhas colegas de gênero, se ser dona de casa não é um retrocesso.

Não, não é. Ser dona de casa não faz de mim menos feminista.

Pelo contrário: estou em casa, cuidando do lar e da família por opção. Foi minha escolha estar aqui. Dei-me o direito de acompanhar as crianças e cuidar de cada detalhe da casa, quando meu trabalho já não fazia mais sentido para mim. Quando despedir-me das crianças tornaria-se um fardo pesado para encarar um ofício que não me traria tanta realização.

Nossas avós, nossas mães não tinham isso como escolha. Era o destino, a única coisa que a mulher deveria fazer. Se quisessem ganhar um dinheiro, deveriam fazer o serviço de casa a outras pessoas: lavavam, passavam, costuravam, limpavam para fora. As que saiam para o trabalho eram mal vistas.

Eu, não. Eu optei por estar aqui em casa.

E é justamente essa possibilidade de escolha que me faz ser mais feminista, bater palma e torcer para cada militante que consegue um passo adiante, para que mais mulheres possam ter direito à escolha, para que mais homens tenham também o direito de ficar em casa se assim desejarem, para que mais famílias consigam se organizar em suas jornadas de trabalho, família e casa.

Em vez de apagar as labaredas daquele sutiã, sigo abanando a fogueira, agora com meu paninho de prato.

A inspiração deste post, veio da leitura deste artigo aqui e deste aqui.

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22 comments

  1. Excelente seu texto Milene! Aliás seu blog todo! Gosto demais, leio e compartilho sempre.

    Muitas vezes me sinto ao contrário de você, como se não tivesse escolha.
    Sempre trabalhei, desde 16 anos. E fiz prova para muitos concursos, passei e trabalhei em vários órgãos públicos. Tudo isso antes deles nascerem. Hoje estou num cargo de nível superior, ganho relativamente bem, tenho os benefícios… mas muitas vezes me sinto como se não tivesse escolha, como se estivesse mais perdendo do que ganhando… vai entender!

    Sei que seria bem pior se estivesse na iniciativa privada. Não tenho uma rotina exaustiva de trabalho e posso ficar em casa quando meus pequenos adoecem. Mas ainda assim na maioria dos dias úteis fico 10 horas pelo menos longe deles… Sigo pedindo a Deus sabedoria para usar bem as 4 ou 5 horas que tenho com eles de segunda a sexta, para ser o mais presente possível dentro da minha realidade.

    Admiro muito mulheres como você que tiveram coragem de nadar contra a correnteza e se dedicam à família! Que Deus te abençoe muitíssimo!!

    um beijo

    Raquel

  2. Amigaaaaa! Me vi em cada linha, e super concordo!!! Pra você ter ideia da nossa sintonia baby, escrevi um texto há tempos dando nome a tudo isso aí: maternismo!!! Te convido pra ler e ver se ramo ou não ramo junto e misturado nessa loucura de mulher moderna que sabe o que quer!!!! O link: http://maedacabecaaospes.com.br/maternismo-ou-como-quiser-chamar/
    E, claro, to compartilhando mais um de seus textos, porque né?
    Beijo grande e bora colocar fogo nisso com nossa airfryer! PS: se bem que não tenho uma!!! kkkkk

  3. Amigaaaaa! Me vi em cada linha, e super concordo!!! Pra você ter ideia da nossa sintonia baby, escrevi um texto há tempos dando nome a tudo isso aí: maternismo!!! Te convido pra ler e ver se não #tamojunta nessa loucura de mulher moderna que sabe o que quer!!!! O link: http://maedacabecaaospes.com.br/maternismo-ou-como-quiser-chamar/
    E, claro, to compartilhando mais um de seus textos deliciosos – porque né?
    Beijo grande e bora colocar fogo nisso com nossa airfryer! PS: se bem que não tenho uma!!! kkkkk

  4. Tal e qual. Também estou em casa por opção, há 4 meses apenas, mas sinto-me mais realizada agora do que quando exercia a minha profissão para a qual me licenciei, fiz concurso público, curso pós universitário, cargo de chefia, enfim, sentia-me vazia em todas as 10 horas que tinha de passar longe dos meus filhos. E agora noto bem a diferença e só lamento não ter feito esta escolha há mais tempo. Deus queira que tenha condições para não ter que voltar ao mercado de trabalho e possa continuar a educar e acompanhar os meus filhos e a cuidar da família. É um privilégio poder fazer esta escolha, que implica, no entanto, muitas renúncias, nomeadamente consumistas. É um caminho difícil e contudo cheio de sentido. Que todas as mães possam primeiro ter consciência da importância do seu papel, depois ter a coragem de fazer esta opção e, por fim, ter igualmente um marido que as apoie e cumpra por sua vez o papel de pai de família (sem um não pode haver o outro)!

  5. Somos feministas até q venha o primeiro filho e nós que temos q superar barreiras para gerar filhos dá ainda mais valor…Ser mãe é o meu melhor lado, por melhor profissional q eu seja. Eu reduzi muito, fico meio período em casa e o restante trabalho e cuido de mim… Somos mulheres formadas, trabalhadoras, mas q voltou as origens e sabe q a carreira pode voltar quando eles crescerem, enquanto o desenvolvimento do filho é uma vez só. Não temos q achar q somos menos pelo contrário, tem muitas mulheres q queriam se do lar como nós, a única coisa q não pode acontecer é ser uma bruaca, temos q ser divas até colocando o lixo na rua…
    Como sempre excelente texto parabéns e vc está certissima em cuidar da cria…

  6. Desde que parei de trabalhar, sou muito julgada, as vezes até mesmo pelo marido, fato que me incomoda um pouco. Estou grávida de 38 semanas e esse fato só fez com que eu percebesse que fiz a escolha certa. Ficando em casa, poderei participar ativamente de cada fase da vida de meu filho, assim como minha mãe participou da minha. Não quero me sobrecarregar. Se as coisas realmente fossem igualitárias e eu fosse receber ajuda em casa com as tarefas e com a educação do bebê, eu poderia até pensar em trabalhar fora, mas estou feliz assim. Já fico imaginando cada momento adorável que passarei ao lado de meu filho que eu não teria a chance de usufruir caso trabalhasse fora. Enfim… Essa é a minha escolha e ela deveria ser respeitada e não criticada. Até quando?

    Vidas em Preto e Branco 

  7. Mãe

    Renovadora e reveladora do mundo
    A humanidade se renova no teu ventre.
    Cria teus filhos,
    não os entregues à creche.
    Creche é fria, impessoal.
    Nunca será um lar
    para teu filho.
    Ele, pequenino, precisa de ti.
    Não o desligues da tua força maternal.

    Que pretendes, mulher?
    Independência, igualdade de condições…
    Empregos fora do lar?
    És superior àqueles
    que procuras imitar.
    Tens o dom divino
    de ser mãe
    Em ti está presente a humanidade.

    Mulher, não te deixes castrar.
    Serás um animal somente de prazer
    e às vezes nem mais isso.
    Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
    Tumultuada, fingindo ser o que não és.
    Roendo o teu osso negro da amargura.
    Cora Coralina

    • Bom, em princípio, o feminismo prega a igualdade em direitos e deveres entre homens e mulheres, o problema surge quando somos impedidas de fazer nossas escolhas para atender ao estereótipo (equivocado) de feminista.

  8. Arrasou no post!! Conhecendo o Blog agora pra um trabalho da Escola com a minha mãe e amamos!! Super real!! <3

  9. Vivo a mesma situação relatada no cometário da Raquel. Gostaria de ter coragem de largar meu emprego. Mas no meu caso, o salário do meu marido não é suficiente para pagar as despesas da casa. Ganho muito mais do que ele.
    Mas essa situação está acabando comigo por dentro.

  10. Olá, adorei o seu post!
    Estou há 3 semanas sem trabalhar e me sinto muito bem, mas meu marido está ficando muito irritado com isso e agora posso estar grávida e ele está pior ainda. Falando que agora que eu não arrumo outro emprego mesmo. A criação dele foi assim, quando minha sogra descobriu me ligou na mesma hora dizendo que eu não poderia ficar “parada” pq tipo tadinho do filho dela…..
    Estou muito triste com essa situação, onde está meu direito de ir e vir?
    Parece que pq queimamos os sutiãs teremos que passar a vida ralando nossos seios obrigatóriamente??
    Me parece assim, já que vcs quiseram então aguentem… E não um direito conquistado..
    Desculpe só um desabafo.

  11. Perfeito!!! Hoje sou mãe em tempo integral e dona de casa por opção, por entender que meu trabalho mais importante e onde me realizo pessoalmente é ser mãe, cuidar e educar esse ser maravilhoso que eu e meu marido optamos por ter. Um dia ela vai crescer e alçar um vôo só dela, então terei tempo de ser uma profissional. Agradeço às feministas por eu poder optar em ser mãe é dona de casa. Agradeço às feministas porque a minha filha poderá fazer suas próprias escolhas.

  12. Cada merda que eu leio , viu?Pelo amor, vai trabalhar fora e depois venha falar de feminismo.

  13. Bom eu apoio totalmente o movimento feminista, não vejo mal algum em você ser dona de casa por opção, opção é opção e pronto, defendo a liberdade o direito de escolha, o que espero que você não pense é que é sua obrigação fazer isso por ser mulher, esse seria um ponto contrário ao feminismo, queremos igualdade, igualdade de salários, igualdade de tarefas, bom sobre a dupla jornada, hoje muitos homens dividem serviços com as mulheres, talvez na minha faixa etária ainda mais, já que tenho 20 anos, mas eu me recusaria a casar com um homem que pensa que eu tenho que fazer por ser mulher, kkk eu iria educadamente pedir pra ele achar outra pra mandar, que aqui não iria rolar não, em fim, cada um feliz a sua maneira e o feminismo esta ai pra representar o direito de escolha, hoje você e eu e todas as mulheres tem o direito de escolher trabalhar ou ficar em casa se assim quiser, e morar com caras que pensam o contrário é opção delas também que causa sofrimento somente a elas mesmas o que não aceitamos é a desigualdade, merecemos e exigimos respeito sim!

  14. Na verdade as feministas odeiam donas de casa. Quem quer que tenha lido os livros delas, sabem que elas têm verdadeiro ódio à feminilidade, à maternidade, à mulher que serve o marido e os filhos.

    Por isso eu digo o oposto: sou dona de casa para justamente não ser feminista.

    Aproveito e deixo aqui algumas citações de o que as feministas dizem das donas de casa. Quem quiser conhecer mais, é só procurar na internet:

    “A dona de casa não é ninguém, e o trabalho doméstico é um trabalho sem saída. Pode até ter um efeito deteriorante na sua cabeça . . causando a que ela se torne incapaz de se concentrar numa só tarefa. Ela começa a parecer burra e enfadonha. Ser uma dona de casa causa a que as mulheres fiquem doentes.” ~ Sociolóloga Jessie Bernard “The Future of Marriage”, 1982.

    “As donas de casa são uma interminável série de filhas sanguessugas gritando “Dá! Dá!”— uma parasita que só devora, quando ela deveria alimentar, e alguém que tem a tem as mesmas aspirações que um Porquinho da Índia tem.” ~ Charlotte Perkins Gilman, “Women and Economics: “A Study of the Economic Relations Between Men and Women as a Factor in Social Evolution”, 1898.

    “Uma parasita a sugar a vida de outro organismo .- . . a dona de casa não caminha para a criação de algo durável . .. O trabalho que a mulher faz dentro de casa não é directamente útil para a sociedade; não produz nada. A dona de casa é subordina, secundária, parasítica. É para o seu bem que a situação tem que ser alterada de modo a proibir o casamento como uma “carreira” para as mulheres.” ~ Simone de Beauvoir, The Second Sex, 1949.

    • Acho q até a visão feminista está mudando. Perceba q são todas citações datadas de antes de 2000. Hoje percebo um discurso de libertação no sentido de escolha e não de quebra de paradigma. Posso estar enganada, pode ser que haja feministas mais extremistas – e de fato há -, mas PODER ESCOLHER é o direito pelo qual deveríamos lutar.

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