Nada para fazer com crianças

ócio

“Ô, mãe, não tem nada pra eu fazer!”

Nossos pais, nossos avós e até a gente parecíamos ser mais ativos na infância. Digo fisicamente e mentalmente. As brincadeiras se davam nas ruas, ia-se a pé para tudo quanto era lugar, era preciso se levantar para mudar o  canal da TV, era preciso ir até o correio para se mandar uma mensagem a um amigo. Se a criança queria um carrinho, uma boneca, uma casinha, era preciso construir.

Nosso dia a dia mudou. Está tudo mais fácil e rápido, as casas estão menores; as distâncias foram encurtadas pelos carros; o movimento do ser humano diminui com o computador e a internet; a comida está pronta.

Nem venho aqui pregar contra o uso da tecnologia e da praticidade da vida moderna, porque seria uma hipocrisia da minha parte.

Mas repare bem em como as brincadeiras de criança foram afetadas pela nossa rotina: é tudo tão estruturado e corrido, que é preciso agendar um tempo para brincar.

O bate bola na rua virou escolinha de futebol. Imitar Xuxa e as paquitas no meio da sala virou escola de ballet. Subir em árvore para roubar fruta virou arvorismo, com direito a capacete e rede de proteção, no meio de um buffet, usando árvores artificiais, asseguradas pelo Inmetro.

Inventam-se brincadeiras em cima de conteúdos: música para aprender cores, lições para se aprender a ler e escrever, exercícios para a lateralidade.

Controlam-se todos os objetos que  chegam às crianças. Tem que ser tudo adaptado, seguro e ecologicamente correto.

E quando a criança solta um “não tem nada para fazer”, os pais têm a sensação de que falharam: Corre dar um Google em coisas para se fazer com crianças! Faltam brinquedos? Faltam atividades extra? Faltam passeios?

FALTA ÓCIO!

Não há nada de errado na fala da criança. O que tem de mais uma criança sem nada pra fazer?  Ela precisa desse tempo livre, de não ter nada para fazer para que a criatividade seja estimulada.

Damos tudo pronto aos nossos filhos: casinha de boneca, carros, bonecos, potes de empilhar, fantasias.

Os pequenos não precisam esforçar a imaginação para poder criar uma brincadeira. Está tudo ali, nas mãos. E a brincadeira vem garantida por um monitor que vira e mexe aparece na vida da gente.

Mas é que os pais pensam tanto no futuro do filhos, que se esquecem de pensar no presente.

A criança brinca para treinar a ser adulto. Ela imagina, ela fantasia, ela inventa. Ela presta atenção nos adultos para poder imitar em seu faz-de-conta.

E os adultos que ela imita são gente sem tempo, com a agenda apertada, com a cabeça em outro lugar porque é preciso ser multicompetente.

Gente grande nunca tem tempo para não fazer nada. Logo, as crianças não sabem o que fazer com o tempo livre também.

É tanta preocupação em ter uma atividade pedagógica, uma brincadeira dirigida o tempo todo, que as crianças não sentem necessidade de criar, de improvisar.

Pensamos tanto na carreira dos pequenos, nas habilidades, que a brincadeira fica para depois.

Depois.

E no currículo deles vão constar uma série de qualificações bacanas, como raciocínio lógico, organização, diversos idiomas, mas nenhuma capacidade de solucionar problemas, de ser criativo.

Sem continuarmos nessa pegada, as crianças de hoje serão adultos sem originalidade. Mas daí a gente paga um curso que ensine isso.


Desafio da diiirce: deixe seus filhos num ambiente sem brinquedos com a tv desligada. Fique com ele, na mesma situação, sem tv, sem computador, sem smartphone, sem livro, sem revista. Fique assim por pelo menos 15 minutos, depois vem aqui me contar o que aconteceu.

6 comments

  1. Eu sempre faço essas “pegadinhas” com eles, desligo tudo e mando se virarem, as vezes eles investem o tempo brigando kkk, as vezes fazem esculturas com caixas, trilha com dominó, e desenham a gente com cabeção e nariz da barbara streisand, adoro rs!!!

    • Cy
      Eu sempre “provoco” esses momentos.
      Cozinha vira oficina de brinquedos, meu guarda-roupa é loja de fantasias e o quintal vira praia, parque, mar, espaço sideral!
      Loucura, loucura, loucura!

  2. Perfect!
    Nas ferias fomos uns dias para a casa de uma amiga que não tem TV a cabo, só Netflix com horários bem controlados para o filho.
    Os 3 se juntaram e brincaram TANTO!!! Banho de mangueira, castelos, parquinho, pega-pega!!
    Foi ótimo!
    bjs
    Lele

  3. Amei o post! Estava me culpabdo quando ouvia essa frase deles!!!! Voce me fez percerber que isso e muito importante!!! Otimo texto e vamos tentar ficar “atoa” hehe

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