Eu vou contar até 10!

contar

Chamar a atenção de um filho depois que ele fez algo errado é quase uma arte. Você não pode ser estúpida, mas não pode manter o mesmo tom. Papo é papo, bronca é bronca, violência é violência (macaco é macaco, e veado é veado, como diria Falcão o pensador Arthur Shopenhauer).

Mãe quando precisa dar bronca em filho tem que mudar a entonação, colocar acento onde não há, soletrar as palavras e falar por sílabas. Sentia cheiro de batata assando quando minha mãe me chamava de Mi-le-nê, pausadamente, sílaba por sílaba. Até hoje sinto calafrios quando minha mãe coloca a tonicidade na última sílaba do meu nome. E se vinha o nome completo, então… Era uma saraivada na certa!

Anos depois, me vejo trajando as mesmas vestes.

Quando meu primeiro filho aprontou as primeiras artes, eu sentava e conversava, explicava. Meu pavio tinha uns 5 quilômetros de extensão. Até que as travessuras começaram a se repetir, e meu filho passou a entender o real sentido do desafiar. Você fala para ele não mexer, e ele vai esticando a  mãozinha, lentamente, te fitando. Você persevera nas palavras, e ele na ação. Então ele mexe, e quebra. Por isso admiro as mães que no auge da adolescência ainda conseguem sentar e placidamente explicar que aquilo não se faz, mesmo que seja pela 37ª vez no dia. Tudo o que eu consigo proferir num caso desses, depois de um dia puxado, é um sonoro “eu não falei que era para não mexer!”.

Manter a paciência e a postura quando as crianças te desafiam é um tipo de meditação. É preciso concentração, respiração, olhar para dentro, inspiração, abster-se de pensamentos, expiração. E em determinada idade na infância eles parecem ficar seletivos: para comer e para ouvir também! Só escutam o que lhes interessa. Se a mãe dá uma ordem, é como se estivesse uma britadeira ligada ao lado deles. Agora se os pais cochicham às escondidas, lá vem um palpite infantil no meio da conversa, garantindo que aquela criança escuta bem. Se você solta um palavrão, então, pode ter certeza de que a criança não só escutou o que você disse, como vai repetir na escola, com algum coleguinha – e certamente você será convidada a conversar com a coordenadora.

É justamente esta seletividade auditiva que faz com que nós, mães, fiquemos esgotadas ao longo do dia, não só por causa das tarefas básicas do ofício materno, mas pelo fato de ter que repetir tudo o que se pede. E toda essa repetição, e essa não-escutação ao discurso materno faz com que as mães gritem, num esforço insano para serem ouvidas.

Aliás, como se manter mentalmente estável depois de cerca de 15 repetições de “come sua comida”, umas 10 de “tira a roupa e entra no chuveiro”, umas 28 de “vai logo” e cerca de 17 de “não faz isso” ao longo de 24 horas? O caso é que já pensei seriamente na possibilidade de fazer gravações dessas frases e programá-las nos horários de seus picos para que eu possa ganhar alguns minutos livres no fim do dia. Alguém conhece algum app para isso?

– Filho, junta esses brinquedos. Filho, eu falei pra você juntar esses brinquedos que estão no meio do caminho, por favor. Filho, dá para tirar essa bagunça antes que eu pise em alguma coisa. cri-cri-cri NI-CO-LÁS! perceba a entonação igualzinha a da minha mãe Nicolas-Massucato-Rabello, você está surdo?

– Que foi, mãe? – com um tom de voz de como ele tivesse 16 anos, mas só tem 4.

– Junta esses brinquedos agora! – enrubrescendo de nervoso

– Já vou, mãe. Agora não dá que eu tô ocupado. – e termina a conversa como se eu fosse uma atendente de telemarketing tentando empurrar um pacote de TV a cabo.

Eu, já no limite das repetições, tento a técnica materna de meditação em meio ao caos, inspira, respira, não pira… PIREI!

– EU VOU CONTAR ATÉ 10 E QUERO VER ESSES BRINQUEDOS TODOS NO LUGAR, SENÃO EU JOGO TUDO NO LIXO! UM…

E a criança tenta alucinadamente dar conta de recolher tudo. A mãe sabe que é impossível ela dar conta da bagunça em dez segundos. Então, ela diminui a passada dos números, conta de meio em meio, de 0,25 em 0, 25.

Esse contar até 10 é uma das mentiras que a maternidade nos faz proferir, afinal de contas, foi você quem comprou os brinquedos, e você não gostaria de jogá-los no lixo. Porque você poderia ter comprado uma roupa nova, um colar que você estava precisando, mas acabou fazendo um agrado para seu filhote. E agora ele está lá, esbaforido tentando vencer a lixeira que você sarcasticamente balança enquanto conta. Sem contar que dez segundos são pouco para se fazer qualquer coisa: ou a mãe vai retardar a contagem, aumentar o prazo, ou vai perder a autoridade se não cumprir sua palavra.

Sinceramente, eu gostaria mesmo era de saber até que número a contagem de uma mãe pode atingir.

 

Acompanhe aqui a série mais mentirosa do Brasil!

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13 comments

  1. ameiiiii, super identificação em grau master 🙂

  2. Sensacional!!!! Estava achando q era só comigo! Kkkk

  3. É ruim hein! Minha mãe contava até 3 mas, chegando no 2, me metia um "paranauê"!!!

  4. Adorei seu blog! Quero convidá-la a ser blogueira em nosso site, como podemos conversar? Léia Dornelas (34) 9243-0061 – leiadornelas@gmail.com

  5. Érika Domingues

    Acabo de saber que não sou a unica mãe-louca! Nome inteiro me dá medo até hoje…kkk

  6. Gargalhei c a parte da lixeira… muito eu!!!

  7. Sabrina Do Rosario

    PER-FEI-TO!!!!!!

  8. Vc me representa!!!!! 😘

  9. hahahahahahahahahahahaha morri com esse final! Mulher, como vc vai isso? Consegue por em palavras a maternidade desse jeito? hahahaha e olha q eu tento! Sou sua fã!

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