Coisas que falamos para filho comer mais uma colherada

 

coisas que fazemos para o filho comer mais uma colherada

Para filho comer mais uma colherada fazemos qualquer coisa: perguntamos até se a criança não quer ficar forte como o papai ou linda como a mamãe.

Filhos à mesa: não há nada mais tenso na vida de uma mãe do que a rotina da alimentação.

Acredito que a origem de toda a preocupação venha do fato de ser a mãe quem produz o primeiro e mais importante alimento de uma criança – o leite materno. É ele quem nutre, afaga e protege o bebezinho de todos os males do mundo. O peito acalma e aconchega mãe e filho. É lindo de se ver. Depois dos primeiros meses. Porque, convenhamos, a grande maioria das mulheres sabe que amamentar é uma árdua tarefa. É leite que não desce, depois empedra – e dói pra burro –, é bebê que não faz a pega correta, é mamilo rachado, é mãe chorando, de dor e de nervoso. Então, a mulher já vai introjetando essa ideia de que alimentar é um fardo. E ainda que seja tudo lindo e perfeito, ainda vão arrumar um pelo no ovo para dizer que o filho não dorme porque o leite é fraco, que a criança tá magrinha, que precisa de mamadeira, de mingau, de sopa, de ovo de pata, de sarapatel. Ah! Já sei! É cólica. Quem mandou você comer feijão.

A culpa sempre é da mãe!

Passada a fase da mulher com poderes que produz leite, vem a fase das papinhas. Haja criatividade pra combinar os alimentos sem oferecer uma gororoba. Oferecer papinha de feijão, rabanete e quiabo faz qualquer criança desenvolver anorexia nos primeiros anos de vida. Além disso, a criança tem que comer tudo! A felicidade da mãe está sempre no fundo do prato e só aflora na última colherada.

Basta uma criança entortar o nariz para a comida que a mãe perde o chão… o teto e as paredes! É como filho que recusa o peito materno: sentimento de rejeição, bullying. Deve ser por causa daquela parada da amamentação, de aconchego, de afeto. Chama Freud, chama Jung, chama Lacan, chama o padre Quevedo!!!

“Só mais uma colherada!”

“Olha o aviãozinho!”

Faz escultura de bichinho com comida.

Sai andando pela casa com o prato na mão.

Liga a TV.

Bate o desespero na mãe. Quem nunca teve um filho que deu trabalho para comer não sabe o que é angústia!

A gente sabe que eles comem o necessário, mas eles precisam rapar o prato. A gente sabe que existe a fase da seletividade, mas a gente quer que eles experimentem nabo e maxixe. A gente sabe que tem dias em que a comida não desce, mas eles têm que mandar ver aquela pratada de polenta com frango.

Tiramos os argumentos mais malucos da manga para fazer a criança comer, como se a eles estivesse faltando não só as vitaminas e as proteínas do alimento, mas o carinho, a proteção, o aconchego do colo da mãe. E para nutrir nossos filhos, vale até mentir. São inúmeras as mentiras proferidas na hora do jantar:

“Come para ficar forte como o Super-Homem, O Hulk é verde porque só come espinafre, Come para ficar linda como a Cinderela, A Barbie a-do-ra beterraba, Mais uma colherada e você fica grande como o papai, Tem que comer a saladinha para o cabelo ficar comprido como o da Rapunzel, Limpa esse prato para ficar inteligente como seu tio!”

É mentira que não acaba mais!

Um dia a criança se atina de que os super-heróis têm poderes porque são mutantes, e não porque comeram a comida da mãe. As meninas se ligam que as princesas são contos de fadas, e que na vida real a mulher abdica de comer para ficar magra e linda. Um dia eles entendem que é preciso comer para matar a fome e também  para calar o boca da mãe que vive a falar “come mais um pouquinho”.

 

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9 comments

  1. Ah, Milene, milhares de mães vão me odiar por isso mas eu até hoje não tive problema com alimentação aqui em casa. Não sou neurótica com quantidade, exijo mais qualidade e controlo bastante as escolhas, mas tive uma sorte danada com meus dois pequenos, pelo menos até agora. O grande dilema aqui sempre foi o sono, com a mais velha um drama mexicano, com meu mais novo agora seguimos acordando 1, 2, 3, 4, N vezes durante a noite. Não dá pra ser perfeito mesmo, não? =)

  2. Vixe! Come salada que o olho fica verde, deu certo com 2. André pede, não precisa mentir.
    Come mais 33, porque é certeza que acaba no 12. Tá, eu sou uma bruxa.

  3. Meu filho tem 8 meses e simplesmente não aceita nenhum alimento, nada… Não aceita água, suco… Apenas o leite materno. Com a minha 1º filha não tive problema, aos seis meses iniciei a alimentação e foi tudo muito tranquilo. Estou cansada, pois ele mama a noite inteirinha. Não sei mais o que fazer.

  4. Adorei o texto! Estou passando por uma fase complicadinha na alimentação the minha filhota e realmente, sempre bate uma angústia qdo ela não come e o medo de ela não estar bem nutrida!

  5. Tem de comer para crescer. Se não comer, fica baixinho, piralho. Acho que o Oscar, jogador de basquete deve ter ouvido a clássica frase que inspirou o nascimento do blog Comer para Crescer. Eu ouvi muito minha mãe dizer isso. Comi, sou baixinha e gordinha. Minha mãe é uma mentirosa. Porran, mãe!!!!!!

    Hahahaha.

    Delicioso post. Como sempre!

  6. Quem tem filhos vai se identificar com esse texto.

  7. Nossa,exatamente o que passo…hora da refeição = pesadelo…aiaii

  8. Uma ainda não saí com o prato atrás das minhas filhas.. e agora descobri o tempero do sucesso: FOME e AJUDA, cortei severamente as beliscadas e no que é tranquilo elas me ajudam na cozinha, assim ficam super orgulhosas de comer o que ajudaram a fazer!

  9. Acho que somos todas meio italianas nessa hora, não é só a comida, é o amor e o afeto que depositamos nela. rejeitou minha comida é como rejeitar o meu amor…. affffff chama a dirce, o freud, jung, todo mundo!!!

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