Casa doce Lar

lar

A casa é feita de paredes, mas o lar é feito de pessoas

Vendo essas duas palavrinhas jogadas assim, elas parecem sinônimos. Mas por que cargas d’águas existiriam duas palavras diferentes para dizer alguma coisa? Algum diferença elas devem ter.

Ninguém diz lar lotérico, lar de detenção,  casa doce casa.

A palavra casa pode ter duas origens: ou veio do latim, que significada uma choupana, uma morada simples (ao contrário do domus, que significava a morada do senhor, e que deu origem a doméstico, domicílio); ou casa veio de casar/casamento, do costume de se casar os filhos, dando a eles uma parte de suas terras com uma habitação para que o casal conseguisse progredir.

Já a palavra lar, veio do do nome dos deuses romanos Lares que protegiam um domicílio. Lar estava relacionado à lareira, lugar onde as pessoas se reuniam para cozinhar e se aquecer.

Momento diiirce também é etimologia acabou, mas ficou uma reflexão:

Casa tem a ver com morar, com a edificação em si. Já lar tem a ver com união, com calor.

Esses dias li um texto que me fez pensar nisso: não vemos mais muitos lares por aí. As pessoas querem ter casas.

Casas são impecáveis, como revistas de decoração. São habitadas pelas famílias margarinas. São organizadas demais, são limpas demais, são quietas demais. São frias demais.

Lares guardam memórias, em cada risco num móvel, em cada lascado no piso, em cada almofada fora do lugar. Lares são quentes, nos lares as pessoas se reunem na cozinha, para comer e para alimentar de histórias os corações.

Casas ficam prontas rapidamente. Lares demoram anos para nascer.

É por isso que casa de vó é diferente.

As pessoas querem ser perfeitas: o corpo perfeito, a maternidade plena, o educar correto, a atitude sustentável, o carro do ano, a alimentação saudável, uma opinião cabal sobre tudo… Aliás, perfeccionismo virou qualidade.

E quem disse que ser todo certinho é sinônimo de dedicação?

Sim, dedicação do latim dedicato, de entregar para os deuses. E perfeição, do latim perfectus, de completo, sem faltar nada.

Entre ser completo e divino, Prefiro meu lar em constante construção, cheio de máculas, mas pleno de recordações, de histórias, de calores.

 

PS: O poema abaixo sintetiza bem essas minhas linhas

Casa arrumada é assim:
Um lugar organizado, limpo, com espaço livre pra circulação e uma boa entrada de luz.
Mas casa, pra mim, tem que ser casa e não um centro cirúrgico, um cenário de novela.
Tem gente que gasta muito tempo limpando, esterilizando, ajeitando os móveis, afofando as almofadas…
Não, eu prefiro viver numa casa onde eu bato o olho e percebo logo: Aqui tem vida…
Casa com vida, pra mim, é aquela em que os livros saem das prateleiras e os enfeites brincam de trocar de lugar.
Casa com vida tem fogão gasto pelo uso, pelo abuso das refeições fartas, que chamam todo mundo pra mesa da cozinha.
Sofá sem mancha?
Tapete sem fio puxado?
Mesa sem marca de copo?
Tá na cara que é casa sem festa.
E se o piso não tem arranhão, é porque ali ninguém dança.
Casa com vida, pra mim, tem banheiro com vapor perfumado no meio da tarde.
Tem gaveta de entulho, daquelas que a gente guarda barbante,
passaporte e vela de aniversário, tudo junto…
Casa com vida é aquela em que a gente entra e se sente bem-vinda.
A que está sempre pronta pros amigos, filhos…
Netos, pros vizinhos…
E nos quartos, se possível, tem lençóis revirados por gente que brinca ou namora a qualquer hora do dia. Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente.
Arrume a sua casa todos os dias…
Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo pra viver nela…
E reconhecer nela o seu lugar.

(Carlos Drummond de Andrade)

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2 comments

  1. Nossa…arrepiei! Você e Drummond estão cobertos de razão… hoje as pessoas querem ter casa de Casa Cláudia. A minha não tem cara de consultório, não tem livro de arte e turismo embaixo da mesa de centro, tem brinquedos perdidos debaixo do sofá e em cima também. tem zilhões de arranhões por todos lados e marquinhas de dedos no interruptor. Tem sim, a gaveta da bagunça, o porta-copo da bagunça e o quartinho da zona. Mas nunca me ouvirão dizer “vem hoje não que a casa está meio bagunçada” A gente dá uma rodopiada, põe meia dúzia de coisas no seu lugar e passa um pano no banheiro, mas nunca dispensa uma visita, porque Lar que se preze tem vista a toda hora e tem muita recordação.

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