Bebês que estranham e Mães que são estranhas

medo

Existem crianças e bebês que estranham rostos desconhecidos, e teve uma mãe que tirou proveito disso.

Diferentemente das aranhas, das cobras, das esponjas e das raposas, o homem é um animal que só sobrevive em grupo. É preciso viver em sociedade para garantir nossa sobrevivência. Assim, adquirimos habilidades que permitem nos relacionar com o outro. Do sorriso ao choro, das palavras aos gestos, vamos nos expressando e nos comunicando com o outro em troca de algo que assegure o suprimento de nossas necessidades.

Já nos primeiros meses de vida, o bebê aprende isso. A gente jura que nossos filhos sorriram ainda na maternidade, mas cientistas garantem que tudo não passou de um movimento facial involuntário. Lá pela 10ª semana de vida, o bebê aprende que tal movimento gera retorno daquelas caras engraçadas que ficam olhando ele o dia todo. Então ele sorri de volta. Não por ser engraçado, ou estar contente, é mais pela interação: “vou imitar a mamãe para ver se ela faz de novo”. É o chamado sorriso social. A graça e o encantamento aparecem mais tarde.

E depois que a criança aprende a sorrir, ela só esboça essa feição quando algo lhe é realmente interessante. Bem diferente de nós, adultos, que sorrimos – ou pelo menos deveríamos – para o porteiro, para o colega de trabalho, para o marido emburrado, para os estranhos do elevador. Sorrimos socialmente, como os bebês, só que mais pela educação do que pela interação. As crianças, não. Se não tiver graça, se não for bacana, se a pessoa não tiver uma feição agradável, pode vir John Lennon vestido de Carmem Miranda na frente da criança e pedir que ela ria, que ela não vai rir. Pior: vai fechar a cara e amarrar o bode.

Lá pelo nono mês de vida, a criança passa pela fase de estranhamento: bebês que estranham algumas pessoas e choram desesperadamente ou se escondem nas pernas da mãe. A tia diz que é trauma, o amigo diz que é a barba, a prima diz que é normal. Aos poucos a fase passa, e a criança passa a entender que nem todo mundo tem a carinha agradável como a da mamãe. São os primeiros aprendizados da vida social.

Lidar com estranhos é uma coisa chata: a gente se sente inseguro, pisando em ovos. Experimente entrar numa sala de aula pela primeira vez. Por mais que a gente se esforce, sempre fica uma tensão no ar, um colega que mal olha na sua cara, outro que falta nos primeiros dias esperando evitar esse constrangimento. Até o mais saidinho que chega cumprimentando todo mundo parece fazer isso num ato nervoso. Tudo o que foge à rotina, ao habitual, causa desconforto.

A casa nova é linda, mas demora até a gente se sentir em casa de verdade. O carro novo tem um cheiro maravilhoso, mas a gente fica meio perdido no banco novo, com os botões diferentes. Mudar a alimentação causa estresse em muita gente. Mudar um filho de escolinha é motivo para enxaqueca por um semestre no mínimo.

O novo assusta. Porque nos foge ao controle, alarma nossa angústia, gera tensão. O novo causa estranhamento.

Imagine uma criança, que aos poucos desenvolve sua visão periférica: antes ela enxergava borrões e poucas cores, depois ela só tinha olhos para os pais e alguns objetos. Agora ela já pode distinguir entre rostos familiares e pessoas diferentes. E ela estranha. E sente medo.

Certa vez, eu estava na fila do supermercado, e, na fila ao lado, uma mãe tentava convencer seu filho de cerca de 2, 3 anos a ficar perto dela na fila. Era missão impossível: criança agitada, cheio de estímulos próximo ao caixa. E o garoto queria sair andando pelo mercado mexendo em tudo. Aliás, o que é que nós fazemos no mercado? Mexemos em tudo! É a farra capitalista. Imagine para uma criança: cheiros, cores, formas, texturas, apelos. Do palhaço ao patinho, tudo chama a atenção dos pequenos. Nada está onde está no mercado por acaso. É tudo pensado! (não perca este vídeo)

Pois a mãe tentava de todas as formas conter o garotinho: “Fica aqui”, “Eu tô mandando”, “Aí não!”, “Não mexe”, “Vem cá”, “Para”!”. Ela estava impaciente, muito. Talvez isso tenha ajudado a deixar o menino agitado. Em nenhum momento ela mostrou que ficar quieto ao lado dela parecia ser mais atrativo do que mexer nas prateleiras do mercado. Ficar parado numa fila já é entendiante para a gente, que tecnicamente tem mais controle sobre os impulsos.

Com três pessoas ainda à frente dela, a mãe precisou abrir mão de seu trunfo. O controle do garoto já tinha escapado por entre seus dedos pelas grades do carrinho do mercado. Ela pegou-o no colo, apontou para um moço que estava atrás de mim na fila e disse:

– Se você não sossegar o facho e ficar aqui do meu lado, este homem vai te pegar.

Naquela hora meu coração se encheu de pena – do menino e do homem –, mas minha boca se encheu de riso. E eu precisei baixar a cabeça para não gargalhar ali mesmo.

A mãe, que ameaça o filho com uma mentira daquelas: por mais que o homem fosse raptar seu filho, ela jamais entregaria seu precioso bem, assim, de mão beijada.

O menino, que de uma hora para a outra passou a estranhar pessoas. Mas a mãe implora para que ele dê oi ao pessoal numa festa, e o garotinho vira a cara, com pavor. Onde já se viu cumprimentar estranhos?

O homem, que foi comprar meio quilo de carne moída de segunda e voltou para casa o peso de um bicho-papão sobre os ombros.

Leia aqui os outros posts da série:

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9 comments

  1. Adorei! Apelar pro homem do saco #quemnunk? rs beijo querida

  2. Putz, nunca fiz isso com a minha filha e detesto que alguém faça, se quero que faça digo e pronto, acho que ela já se acostumou e reconhece o tom da voz… Coitado do homem e da criança mesmo.
    Bjs
    Minha Flor Bela

  3. Brilhante teu texto!
    ;*

  4. Hahahahaha! Minha mãe usava e abusava do homem do saco! E eu confesso, homem do saco nunca usei, mas ameaço com a polícia… criança que solta o cinto ou sai da cadeirinha do carro a polícia leva embora rsrsrs…

  5. Meio quilo de carne moida… o texto foi ótimo, mas pecou no final. Precisava escrachar mais ainda o coitado do homem?….. kkkkk

  6. Me identifiquei muito 🙂

  7. Entendi Maria Sofia…amor de vó…não queria entender…te amo linda da vovó!

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