A primeira mamada

leiteAinda na sala de parto, perguntei quando poderia amamentar minha pequena. Disseram-me que ela faria os exames de praxe, tomaria um banhinho e seria levada ao berçário até que eu me recuperasse. De madrugada ela seria levada ao quarto para a primeira mamada.

Não preguei direito os olhos até poder ver minha Alicia no quarto, sendo por mim amamentada. Ela chegou, mas junto veio uma notícia que me deixou preocupada: não poderia ficar, pois estava muito geladinha e precisaria ficar no berço aquecido. Veio mesmo só para receber um afago. Pedi para a enfermeira deixá-la, mas ela foi categórica. Seria para o bem da saúde dela, e eu consenti.

Lá pelas onze da manhã, minha filha viria definitivamente para o quarto, mas a maternidade estava meio confusa, pois muitos profissionais da saúde decidiram não trabalhar naquele dia, em protesto aos planos de saúde. Aguardei ansiosa sua chegada, e assim também estava meu marido, meus pais e os padrinhos da Alicia. Meu pai vinha escoltando o carrinho de bebês, tamanha ansiedade.

Assim que ela chegou, aninhei-a em meu colo e coloquei-a para mamar. Ela até tentou sugar com força, mas logo se pôs a chorar. Acho que estava ansiosa demais, tinha gente demais no quarto. Deixei que todos a pegassem, cada um tirando sua foto com ela ao colo. De volta ao meu, ela se aninhou e tentou dormir.

As visitas se foram, mas logo chegaram outras: meus sogros e meu filho de 2 anos. Novas tentativas de amamentação. Novas sugadas e outros choros. Até que ela não parou mais de chorar. E mãe de segunda viagem já sabe melhor decifrar as razões. Parecia desconforto, dor.

Chamei a enfermeira, que, assustada com a tonalidade cianótica de sua pele, levou-a de volta ao berçário. Tempos depois, acompanhada do pediatra, chega o diagnóstico de pneumotórax e a notícia de que ela deveria ficar na UTIneo. Fez-se uma preocupação: e meu leite? Como ela mamaria? Iria descer? Empedrar?

Em minha primeira visita à isolete (encubadora), perguntei às enfermeiras sobre meu leite. Elas me encaminharam à salinha de ordenha, onde eu poderia estimular a descida, já que até febre estava tendo. A pequena Alicia estava em jejum por causa do procedimento de colocada do dreno em seu pulmão, mas, assim que se recuperasse, tomaria meu leite.

Era o que eu poderia fazer por ela. Manter meu aleitamento até que ela se recuperasse. E assim os dias passaram, e ela passou a tomar 10, 20, 30ml. E eu organizava meus horários com os da salinha de leite para que ela recebesse o maior número de mamadeiras com o meu leite.

Nada de olhares afetuosos, toques e cheiros. Suas mamadas eram por meio de uma abertura na encubadora, numa mamadeira, dada por uma enfermeira. Não foi assim que planejei, mas era o melhor que poderia ser feito. E eu nem me propus a dar aquela mamadeira, com medo que de ela engasgasse e piorasse seu quadro, afinal de contas, ela sentia muita dor.

Eu acompanhava ao lado, acariaciando suas mãos e pés, falando-lhe palavras carinhosas, encorajando-a, prometendo que, na primeira oportunidade, ela mamaria em meu peito. Que eu estaria ali o tempo todo, senão fisicamente, de coração, de espírito.

Quando eu poderia amamentá-la? – eu perguntava. Só depois da avaliação da fono, após a retirada do dreno. E quando seria isso? Não havia um prognóstico exato. Tudo dependeria de sua recuperação.

A verdade é que esse dia não existiu. Mas enquanto pude, mantive meu peito cheio de leite, esperando o dia de sua alta. Ia duas vezes por dia retirar leite no hospital, bebia muito líquido, me alimentava apesar do estresse. E mesmo nos dias de sua piora, até no dia em que ela se foi, eu continuei tirando o leite.

Era a única coisa que eu, impotente mãe de UTI, poderia fazer por ela.

Imagem daqui.

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6 comments

  1. Mi cada vez que leio um post seu me da um nó na garganta , lagrimas não se contem , o importante é que você fez tudo o que podia!e Deus sabe a maezona que você é!
    Bjks

  2. Não há como não se emocionar com um post tão cheio de amor como este.
    Não há palavras que possam amenizar sua dor, há somente a certeza de que você fez o melhor por ela e isso fez toda a diferença, Alícia resgatou o que deveria em seu breve – inesquecível – tempo aqui. Ficará a saudade e o amor, que trasncende o tempo e o espaço.
    Muita força e saiba que admiro muito vc.
    Com carinho

  3. Você sempre me mata de chorar de emoção amiga, já chorei vendo as suas fotos no video da Laudiane e agora esse post, me lembro de voc~e dizendo que queria muito amamentá-la lembra? Eu te ligava e vc me dizia isso e agora leio este post e me coloco em seu lugar mas sabe de uma coisa? Ela recebeu seu toque sim, sabia e sabe que voc~e a ama muito e que sempre amará e nada disso vai mudar viu? Amo vcs, beijo! Será que seguro as lágrimas nesse fds?

  4. Comecei lendo posts sobre seus ensinamentos domésticos e caí aqui.
    Lembro que na época do adoecimento da pequena eu acompanhei cada notícia tua, que a Keka ia dando. Me coloquei no seu lugar muitas vezes, tentando o máximo de empatia possível. Mas o que vc sentiu só vc sabe.
    Mais do que isso, apesar da dor que deve assolar seu coração às vezes, quero dizer que admiro a forma como vc brinca com a vida, seja para despistar as lembranças dolorosas ou pq vc é assim mesmo. Na maior parte das vezes, me envergonho por chorar as mazelas e ver que mulheres como vc viveram o limbo da maternidade, entre experiências tão significativas e especiais.
    Quero deixar registrado mais uma vez o quanto te admiro e quanto te quero bem.
    Um beijo e um afago no seu coração! E para aqueles momentos que a saudade e o desconforto te visitarem, quero que conte comigo, da forma que achar que posso ajudar.
    Um beijo carinhoso.

    • Precisa falar que eu me emocionei com esta mensagem?
      Essas amigas da blog-twitteresfera me ajudaram muito a keep walking, sabe?
      Se não fosse meu blog, acho que eu tinha surtado, entrado em depressão. Escrever as coisas tristes me fez trabalhar meus sentimentos. Daí via que o blog tava muito deprimente, e corria fazer um post mais animadinho.
      E assim vou indo…
      Com fé em que um dia vou poder ficar com ela de novo, com fé que vou poder ter um monte de filhos, com fé em que sou feliz por ser mãe do meu pequeno.
      Bom saber que posso contar com sua amizade, pq gosto de vc p caramba – coisa de bater o santo, sabe?
      Jokas da Mi diiirce

  5. Ahhh Mi!
    Mae é mae!
    Nao deve ser facil tudo isso!
    Força! Te admiro cada dia mais!
    Bjao

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