Croma

CROMA

Já chovia há quase uma semana. Os turistas enfadados e enfurecidos com as decisões da natureza já eram uma grande maioria. Diferente não estava eu. Há quase 7 dias, perambulando no apartamento, devorando livros, ou apenas atravessando a rua para ir ao mercado. Lá fora, a chuva incansável, insaciável continuava a derramar seus pingos pela costa sudeste do país.

Final de tarde de uma sexta-feira. Ainda havia a tão mal-falada precipitação, embora os intervalos entre uma gota e outra se tornaram mais esparsos. Já estava preocupada, pois já não seguia a dieta de baixa calorias há alguns dias − e quem consegue mantê-la durante as festas de fim de ano gozadas na casa de mamãe. O exercício físico fazia parte de uma das promessas despejadas ao mar na noite de Ano Novo. E desde este dia a chuva não cansava de se fazer presente. As promessas… A dieta… Estresse logo nos primeiros dias do ano! A consciência começava a pesar por não poder cumprir as resoluções para o novo ano. Já começava sentir um certo agouro. Mas, então, era sexta-feira. Olhei pela janela, e vi os pinguinhos sendo derramados, mas o céu ainda bem cinzento.

“Vou ficar eu aqui plantada, esperando a chuva passar?” Pois ela é que há de me aguardar. Eu tenho planos mais importantes a cumprir. Foi aí que coloquei minha calça de ginástica, a camiseta, o tênis. Bebi um copo de água como se quisesse mostrar à chuva que meu corpo também é constituído de 75% de água. Respirei. Desci o elevador um tanto quanto indecisa: e se a chuva a apertar? Cheguei ao térreo e confirmei a tonalidade do céu.

Caminhei desviando das poças por poucos minutos. Apertei o passo, não pela chuva, mas por minha própria decisão. Corri por 10 minutos pela orla. A chuva caindo era como um refresco para o exercício. Estava bom. Ao contornar o calçadão da praia, era impossível não notar o risco alaranjado que surgia no horizonte. Respirei fundo e corri mais. Corri olhando para o tom agora avermelhado que rasgava o cinza daqueles dias. A subida já nem era um obstáculo. Tanto que continuei a correr. E só parei lá no topo, hipnotizada pelo espetáculo: um pôr-do-sol alaranjado iluminava as montanhas, o Pão de Açúcar, o Corcovado, manchava as águas da Baía da Guanabara de lilás. E as gotas a cair, a chuva não poderia parar. Ela tinha seu papel naquele teatro. Acima de minha cabeça, um arco-íris, o maior que puder ver desde então, cruzava toda a praia. O céu carregado parecia ter um limite, mas sem ele, o arco-íris morreria.

A cidade parou. E eu parei de correr para contemplar a natureza. Os carros pararam. Os celulares com câmeras estavam a postos. Os flashes nas janelas dos prédios mostravam a indiscutível beleza daquele panorama. Das senhoras com mais idade que levavam os cachorros para um passeio, aos másculos atletas que tentavam seus limites, todos pararam para ver. O turista recém-chegado e o morador mais antigo da região. Tentei continuar minha caminhada, mas o som do mar parecia um pêndulo a me hipnotizar, a me convencer a parar e contemplar aquele momento único. Entorpecida pelo mar-ametista, parei mais uma vez. Não dava para continuar.

Procurei o primeiro telefone público para pedir que alguém em casa viesse à rua e tirasse uma foto, mas o orelhão estava quebrado. Naquela hora pude ter a certeza de que certos momentos são feitos para serem vividos, experimentados intensamente. Não há nenhum registro fiel àquela imagem. Nem a câmera profissional de um rapaz que mirava o ângulo perfeito poderia demonstrar a riqueza daqueles minutos. Que exuberância!

E até que o último resto de sol se escondesse, o público continuou empolgado. Era o fim do dia. Como numa peça, as pessoas aplaudiram, ovacionaram aquele espetáculo da natureza. Todos fazíamos parte daquela apresentação.

Aos poucos, cada um foi retornando à sua atividade. Eu voltei a correr com um riso estampado na face. Ninguém mais comentava da chuva. “Chuva? Você viu o pôr-do-sol?”. As poças das quais desviara se transformaram em pessoas, famílias, carrinhos de bebês, cachorros encoleirados, ambulantes. A vida voltava à Terra.

Voltando para casa cheia de energia, tive de parar novamente, pois um casal de senhores de meia-idade estava parado em frente ao mar. Boquiabertos. Estranhei. E eu, que não sou de parar para ver o que está acontecendo, não sou de mudar os planos mesmo se algo atravessa à minha frente, parei. Um cardume gigantesco de peixinhos davam um show. A luz refletida os transfiguravam em lâminas de prata. Desenhavam formas e se desmanchavam como fogos de artifício.

Comecei a rir, ali mesmo, pensando que, se não fosse a preocupação em manter a forma, eu teria perdido todo os momentos especiais deste dia tão vibrante. Agora eu sei e posso te dizer: A televisão não tem tantas cores!

 

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4 comments

  1. Não to grávida, mas me emocionei diante desse espetáculo que a vida lhe ofereceu. Me emocionei porque tenho certeza que você foi uma das poucas milhoes de pessoas que passaram por esse dia e pararam tudo o que tavam fazendo que achavam importante para admirar o belo, para sentir o que ninguém mais sentiu…

    Perfeição divina que você soube aproveitar!

    =)

    Beijos

  2. Amei! Fiquei mesmo arrepiada! Me lembrou das diversas vezes que, ao caminhar pela orla, agradeci a Deus por morar num lugar tão lindo e que por fazer parte do nosso dia-a-dia, às vezes esquecemos de admirar.

    Inspirou o meu domingo! 😉

    Grande beijo,
    Eliane

    • Eliane

      Tenho saudades daí. Meus pais moraram em Icaraí por 5 anos. Tinha pousada de férias garantida kkk.
      A qualidade de vida em Niterói me parece muito boa: saber q vc pode sair do trabalho e dar uma volta na orla, levar as crianças p brincar na areia. Diferente desse bosque concretado que é SP.

      Jokas e obrigada pela visita 😉

      Mi diiirce

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